Entrevista exclusiva: Joel Silveira e os homens do seu tempo

Por Gabriel Kwak | 06/04/2005 17:14

Se há alguém que merece levar o nome de testemunha da História esse alguém é o sergipano Joel Silveira, 86 anos de idade, mais de 60 de jornalismo. Consagrado como ícone da arte de unir reportagem e literatura, o velho repórter, modesto, diz ser apenas "um bom datilógrafo". Ou melhor, FOI um bom datilógrafo. Vitimado por uma catarata, Joel está fora das redações e deixou de fazer as grandes reportagens de campo que lhe deram fama, como as clássicas "Eram assim os Grã-Finos em São Paulo" e "A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista", obras-primas do jornalismo nacional. Para fazer um prefácio para uma peça de Sartre, encomendado pela Editora Nova Fronteira, Joel teve de ditar o conteúdo para uma de suas colaboradoras.

Mas se a vista não ajuda, se suas vacilantes pernas quase já não o permitem caminhar - requerendo o apoio de uma bengala -, sua cabeça está com a corda toda. Sua memória desfia casos e mais casos. Histórias deliciosas de quem sentiu de perto o hálito do poder. Continua um franco atirador, disparando suas setas contra a mediocridade e fazendo jus ao apelido que lhe deu o todo-poderoso Assis Chateaubriand: víbora.

Seus livros mais recentes, editados pela Companhia das Letras, têm tido muita saída, despertando o interesse das novas gerações para sua legendária figura, que colocou seu texto envolvente e impressionista a serviço de muitas publicações. Diretrizes, Diários Associados, Última Hora, O Estado de S. Paulo, Diário de Notícias, Correio da Manhã e Manchete foram algumas das empresas que garantiram o pão desse estilista da palavra.

Seu apartamento em Copacabana – chamado pelo jornalista Geneton Moraes Neto de "Escola de Jornalismo da Rua Francisco Sá" – mais parece uma biblioteca. Cercado de uma coleção de aproximadamente 20 mil livros muito bem encadernados, Joel Silveira recebeu este repórter com a máxima simpatia mas queixando-se do clima do Rio de Janeiro: "Odeio essa cidade. É inabitável. Aqui faz calor o ano inteiro." Tentando minorar seu desconforto, este repórter contou que em São Paulo tem feito um calor muito aproximado. O mestre não se dá por vencido: "Mas é diferente. São Paulo fica fresca à noite."

Joel promete para breve um livro que reunirá o melhor das suas crônicas sobre a Segunda Guerra Mundial, que cobriu nos campos da Itália para os Diários Associados.

Vigiado pela esposa, Iracema, e com a verve de sempre, a "víbora" fala, com exclusividade à Revista Imprensa, sobre Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, Assis Chateaubriand, Noel Rosa, Mário de Andrade, João Cabral de Melo Neto e – é claro – de seus anos de janela.

Como foi seu encontro frustrado com Getúlio Vargas?

Eu pedi uma entrevista ao Getúlio. Ele já estava no final do governo, estava acuado e como eu me dava bem com Lourival Fontes, diretor do DIP [Departamento de Imprensa e Propaganda], que era sergipano como eu, eu consegui. Mas o Lourival disse: "Mas não é para entrevista." Eu lhe disse: "Eu quero conhecê-lo, Lourival. Afinal, é um homem importante. Eu nunca vi o Getúlio, eu quero vê-lo pessoalmente, cumprimentá-lo nessa hora em que ele está por baixo." E fui, me recebeu muito bem, muito gentil, muito bem vestido, perfumado, terno impecável, camisa impecável, bem penteado, tresandando a colônia inglesa. Foi muito gentil comigo no princípio: "Dr. Silveira, muito prazer em conhecê-lo pessoalmente. Tenho lido seus artigos." Bom, se ele leu meus artigos, não deve gostar de mim, porque os meus artigos eram sempre violentamente contra ele, contra o ditador. E me chamou de "Dr. Silveira". Aí eu disse: "Olha, presidente, eu não sou doutor. Só fiz o primeiro ano de Direito. Eu tive que abandonar os estudos para trabalhar, viver, essa coisa toda." Aí ele disse: "Não, o sr. está enganado. Doutor é quem é douto em alguma coisa, como diziam os padres de São Leopoldo, onde eu estudei, no colégio dos jesuítas. Dizia um deles, que foi meu professor, que doutor é quem é douto em alguma coisa. O sr. é douto em jornalismo." Enfim, a conversa começou assim. A princípio, amena, agradável. Mas quando eu lhe disse que queria uma entrevista, aí ele se transformou por completo, aquela cara risonha se transmudou em uma cara crispada. Ele pegou as perguntas que eu tinha enviado e me jogou assim: "O sr. trata isso com o dr. Lourival." Me deu as costas e foi embora. Não me estendeu nem a mão. Foi esse o primeiro e desastrado encontro com o Getúlio Vargas.

E nada da entrevista?

Nem pensar. O pior é que quando o Lourival soube que eu ia pedir uma entrevista, ficou uma fera.

O sr. escreveu uma vez que o Getúlio era tão frio que quem apertasse a mão dele, gripava, não é?

Hoje, com o passar do tempo, com a velhice, você vê melhor de longe do que quando está presente nos acontecimentos. Não gosto do Getúlio, ainda considero que foi um tirano cruel que prendeu, torturou e matou muita gente. Esse é o lado do político.

Mas, sob o ponto de vista de chefe de Estado, não tenho dúvida nenhuma de que ele foi um estadista. O Brasil, no século 20, só teve dois estadistas: o Getúlio e o Juscelino Kubitschek.

Getúlio industrializou o Brasil e deu segurança ao trabalhador: instituiu a carteira profissional, o salário mínimo, as férias remuneradas, essa coisa toda. Antes de Getúlio, até Washington Luís, você trabalhava numa empresa vinte anos, trinta anos, e se o patrão, um dia, entrasse na empresa de mau humor e o despedisse, você não tinha nenhuma garantia, saía com a mão abanando.

Getúlio transformou o Brasil de país essencialmente agrário para um país industrializado. Começou com Volta Redonda, que ele conseguiu com o presidente Roosevelt. Outra coisa que se deve ao Getúlio é a Petrobrás, que hoje é uma potência. Ele nacionalizou o petróleo. Os trustes petrolíferos, Standard Oil, em suma, as famosas Sete Irmãs, estavam de olho no petróleo do Brasil. Inclusive, os russos.

De maneira que há dois Getúlio Vargas: o tirano cruel e frio e o estadista.

E o Juscelino Kubitschek?

No cerrado, no miolo do Brasil, não havia nada. Ás vezes, eu saía daqui do Rio de Janeiro para Manaus, passava assim centenas, milhares de quilômetros e você não via lá embaixo uma luzinha sequer. Com a transferência da capital, começaram a surgir cidades em torno de Brasília. Juscelino fez uma obra que eu considero tão importante quanto Brasília que foi a Estrada Brasília-Belém. Hoje, você pode sair de casa, daqui de onde você está para Belém, por terra. Antigamente, era só por navio.

Hoje, o cerrado é o celeiro do Brasil, o maior produtor de soja, de laranja, de tudo. Aquela imensidão. No cerrado, cabem seis Franças. Estava vazio.

Claro que a criação de Brasília criou uma inflação terrível. Só agora que a coisa está diminuindo. Mas valeu a pena o preço. Brasília já se pagou e a estrada também.

Como o sr. conheceu Jânio Quadros?

Eu não gostava do Jânio Quadros. Achava ele um histrião, aquela palhaçada de colocar caspa...Tinha visto ele uma vez, dando uma entrevista coletiva na casa do Marcito Moreira Alves. Eu fui convidado, eu, Antônio Maria, Rubem Braga. Eu o achei um palhaço. Eu disse ao Antônio Maria: "Esse sotaque do Jânio não existe. Ninguém fala assim no Brasil. Isso é invenção dele."

Ele foi eleito. Um dia, eu estou aqui em casa com o João Dantas, diretor do Diário de Notícias, e ele me disse: "Olha, você vai viajar com o Jânio." Porque o Jânio tinha sido eleito e não tinha tomado posse ainda.

Em Las Palmas, nas Canárias, no navio "Aragon", esperando o Jânio, eu encontrei lá o cônsul brasileiro. O cônsul bebia, era um borracho. De maneira que eu passei uma semana, esperando o Jânio, e toda noite era uma bebedeira. Quando o Jânio chegou, eu queria era entrar no meu camarote de segunda classe, dormir, e não queria saber de Jânio nem de coisa nenhuma. Então, pedi ao cônsul: "Eu não quero chatear o Jânio Quadros. De maneira que eu vou fazer um bilhetinho e você entrega a ele." Um bilhete curto: "Sr. presidente, estou aqui a mando do João Dantas, do Diário de Notícias. Se Vossa Excelência quiser falar comigo, eu estarei diariamente, a partir das cinco horas da tarde, no bar da segunda classe."

No primeiro dia, ele não apareceu, no segundo dia, ele não apareceu. Bom, então, não quer ser chateado, não sou eu que vou chatear. No terceiro, ele já apareceu. Aí era outro Jânio, bem vestido, bem penteado, elegantíssimo, a roupa bem talhada: "Estás atrasado!" "Não, presidente, eu marquei aqui." "Mas eu disse no meu bar, não no seu bar." Começamos a conversar, ficamos amigos.

Quando o navio estava se aproximando de Lisboa, eu o procurei: "Infelizmente, eu não vou poder acompanhar o sr., porque eu sou, no Brasil, um dos diretores da Comissão dos Amigos de Portugal Unido e se eu descer aqui eu vou ser preso." O Jânio disse: "Estás com o presidente do Brasil. Vais comigo no meu carro." Quando o navio atracou, subiram logo dois sujeitos, bem vestidos, que me procuraram: "Dr. Joel Silveira, o sr. faça o favor de permanecer a bordo." Aí, imediatamente, eu me virei para o Jânio e disse: "Como eu disse ao sr., estou recebendo a ordem desses dois cavalheiros para não descer." Aí ele ficou uma fera: "Estás com o presidente do Brasil, vais comigo no meu carro." Os sujeitos, na mesma hora, sumiram. Eu fui.

O que matou o Jânio foi o desequilíbrio mental. Ele podia ter dado um grande presidente. Inclusive, o plano de governo dele era fabuloso.

O Jânio era um homem essencialmente gregário, ele não podia viver sozinho. Em São Paulo, como governador e como prefeito, ele costumava sair de noite, visitar os amigos, beber, gostava muito de mulher, coisa que em Brasília não podia fazer. Brasília, naquele tempo, era um ermo, estava nascendo a cidade. O Jânio ficava ali preso no Palácio, tomando uísque sozinho – porque ninguém o visitava -, vendo filme de caubói até altas horas da madrugada. Ele não podia viver em Brasília. Não podia governar e não podia viver a vida que ele sempre gostou de viver...foi embora.

Como é que é ver o seu nome tido como maior expoente do "jornalismo literário"?

Isso é vocês que dizem. Eu me considero um repórter. Nunca fui outra coisa.

Eu sou um bom datilógrafo e sempre fui um repórter de campo. Eu fiquei cinco anos na Manchete e um dia eu disse pro Adolpho: "Eu não sou de ficar numa sala. A pior coisa do mundo é ser copidesque, corrigir coisas dos outros." Chegava, por exemplo, um jornalista novo, com uma matéria esplêndida, umas três ou quatro laudas e o editor, Justino Martins, me pedia: "Reduz isso para dez linhas." Aquilo me constrangia muito. Eu sabia quanto havia custado àquele repórter para fazer aquela reportagem. Aquilo me feria profundamente e fui embora.

Um ano depois, o Adolpho mandou me chamar. Eu disse: "Adolpho, está muito bem. Eu volto, mas com uma condição. Primeiro, não vir aqui na redação. Eu vou lhe sugerir uma série de reportagens, principalmente no Exterior. Na hora de paginar, eu venho aqui para identificar as fotos. Mas sentar aqui na redação, de jeito nenhum." Ele topou e eu fiquei dezesseis anos viajando o mundo inteiro. Aí me realizei, porque eu sempre fui um repórter.

Eu fui secretário de "Diretrizes", do Samuel Wainer, que foi fechada pelo Lourival Fontes por causa de uma entrevista que eu fiz com Monteiro Lobato lá em São Paulo. Eu fui fazer uma entrevista literária. Mas acontece que o Lobato tinha horror do Getúlio. Ele já tinha sido preso duas vezes pelo Getúlio. De maneira que a entrevista descambou para o lado político e o Lobato arrasou com Getúlio. Ele começou dizendo: "Vamos deixar esse negócio de literatura de lado e vamos falar de política." No meio da entrevista, ele pronunciou uma frase: "O governo deve sair do povo como a fumaça da fogueira!" Isso em plena ditadura. O Samuel, além de publicar a cara do Lobato, com aquelas sobrancelhas espessas que ele tinha, ainda publicou essa frase. O Lourival, que há muito tempo queria fechar Diretrizes, estava doido por um pretexto, com essa entrevista, fechou Diretrizes.

No dia seguinte, dois sujeitos do DOPS lacraram a porta, nós não pudemos nem retirar os pertences pessoais. Lobato foi preso, Samuel se refugiou na embaixada do Chile e eu fugi pra Sergipe.

Foi por isso que eu fui para os Associados. Quando eu estava em Diretrizes eu publiquei uma reportagem sobre os grã-finos de São Paulo, que fez muito sucesso. Nem é reportagem, é uma crônica grande. E o Chateaubriand adorou aquela reportagem. Eu era muito amigo do Virgílio de Melo Franco, que era também amigo do Chateaubriand. Toda vez que o Chateaubriand se encontrava com o Virgilinho, ele dizia: "Ô Virgílio, me traga essa víbora pra cá. Eu preciso dessa víbora." A víbora era eu, né?

Quando Diretrizes foi fechada, eu voltei de Sergipe – fiquei lá quinze dias, deixei a poeira baixar -, e fui ao Virgílio: "Dr. Virgílio, eu estou desempregado. O sr. não me arranja um emprego aí, não?" Ele disse: "Já está empregado!" O Virgílio era muito imperativo: "Vamos, vamos, vamos, agora mesmo." Desceu comigo, entrou no automóvel e disse pro chofer: "Sacadura Cabral!" Quando ele disse Sacadura Cabral, eu vi logo que era os Associados, que, naquele tempo, era na Rua Sacadura Cabral. Entrou, chegou no quarto andar, abriu a porta e me empurrou assim: "Esta aí, Assis, a víbora que você queria." E foi embora. Eu nunca tinha visto o Chateaubriand na minha vida. Não gostava do Chateaubriand, dos métodos dele, achacandeiro.

Também hoje faço uma reavaliação, como fiz do Getúlio. Hoje já vejo o Chateaubriand de outra maneira. Sei que é um achacador, como sei que deixou um patrimônio fabuloso, fez um império jornalístico. O Museu de Arte Moderna de São Paulo foi obra do Chateaubriand.

Aí eu fiquei com o Chateaubriand: "Seu Silveira, o sr. é um homem terrível. O sr. é uma víbora, seu Silveira. O sr. vai trabalhar comigo, seu Silveira."

Por que o sr. disse uma vez que quando o sr. foi pra guerra que o sr. tinha 26 anos e voltou com 40?

Eu tinha 26 anos e fui ainda com um resto de ingenuidade, de inocência. Não tinha conhecido os dois lados da questão humana. Porque, na guerra, o pior não é ela em si. O pior da guerra é o que ela vai deixando atrás de si. Aí a perversão. Você vê pai entregando o filho por uma barra de chocolate.

A Itália, como você sabe, é um museu. Você via aqueles monumentos, aquelas casas, aquelas cidades, de mil, dois mil anos, serem destruídos em meia hora, naquele bombardeio dos aviões. Aquilo vai amadurecendo você. Eu vi até que ponto a fome pode levar.

O sr. viu o Sargento Wolff morrer?

Eu fui na patrulha com ele. O Wolff era tão valente, que criou-se na FEB [Força Expedicionária Brasileira] um batalhão de uns quinze ou vinte soldados, à escolha dele, chamado Agrupamento Sargento Wolff, que era para missões mais perigosas.

A patrulha é você ir preparando o caminho para a investida final. Numa dessas patrulhas eu fui. Num certo momento, a coisa ficou muito perigosa e o Wolff disse: "Não. Vocês ficam aqui. Eu vou com meus homens." E nós ficamos. Eu devo ter caminhado uns cem, duzentos metros. Os alemães abriram fogo. Morreu ele e mais cinco, os outros conseguiram voltar. O pior disso é que só se pôde tirar o corpo do Wolff quatro dias depois, quando se tomou Montese. Os alemães não permitiram capturar o corpo.

Antes de ir pra essa patrulha, ele até me deu um bilhetinho: "Se eu não voltar, você entrega esse bilhetinho." Era um bilhetinho pra filha dele, que, naquele tempo, tinha cinco, seis anos. Quando eu cheguei no Rio, eu mandei. Tempos depois, um amigo meu, entrou aqui com uma moça com seus 30, 35 anos e perguntou: "Você sabe quem é essa aqui? É a filha do Wolff, pra quem você mandou o bilhetinho." Ela queria me conhecer. Eu fiquei profundamente chocado.

O sr. alguma vez viu Mussolini?

Dependurado. Foi no dia 29 de abril de 1945. Eu considero esse dia o mais terrível da minha vida.

Mussolini estava sendo dependurado em Milão num posto de gasolina, não só ele mas a sua amante, a Clara Petacci, o Starace [Achille Starace, secretário do Partido Fascista], o Pavolini [Alessandro Pavolini, ministro da Cultura de Mussolini], a cúpula. Todos eles foram fuzilados pelos partiggiani que depois juntaram todos os corpos e jogaram na Piazza Loreto, uma pracinha de Milão. Os italianos, então, resolveram, dependurar todos de cabeça pra baixo. Começaram a cuspir, a jogar pedra, aquela coisa toda. Mas, ao mesmo tempo, 200 quil&ocizc;metros ao Sul, numa cidadezinha chamada Colechio, a 148ª Divisão Alemã estava se rendendo aos brasileiros. Então, eu tinha que fazer a cobertura da rendição, ir pra Milão fazer o negócio do Mussolini, voltar pra Colechio e depois ir pra Verona, submeter o despacho à censura militar. Eu não dormia, eu vivia à base de Pervitin [remédio para não adormecer]. Tanto assim que, quando a guerra acabou, eu fiquei dois dias querendo dormir e não conseguia. Foi um dia terrível.

O sr. como repórter, acompanhou a causa dos bascos na Espanha. Fale um pouco dessa experiência?

Eu fui fazer uma reportagem sobre a Espanha toda. A região basca é a mais bonita da Espanha – e também a mais violenta.

Até hoje ninguém sabe a origem dos bascos. Eles falam uma língua que não foi derivada do latim, nem do grego, nem da Alemanha. Ninguém sabe a origem daquela língua. Na ditadura Franco, eram obrigados a falar espanhol.

Atravessando a fronteira com a França, ainda tem uma pequena região francesa que também é basca, uma porção da Normandia que também é basca, talvez uns dez mil quilômetros quadrados, logo depois de Santander.

Se hipoteticamente o sr. pudesse ter 20 anos novamente, por um dia, o que o sr. faria?

Estaria no Iraque. Se eu conseguisse uma entrevista com o Saddam Hussein...Gostaria de entrevistar também o Osama Bin Laden.

E o Bush o sr. gostaria de entrevistar?

Ah, não. Esse é um tabaréu. Acho que nunca leu um livro na vida dele.

E o Lula?

Ah, já fiz várias entrevistas com ele. Ele foi uma decepção pra mim. Eu o entrevistava quando ele era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos.

Deu muito trabalho formar essa biblioteca?

Hoje, eu não leio mais nada. Não tenho mais visão. Também já li tudo.

Já leu tudo o que interessava?

E o que não interessava também. Até hoje não me perdôo de ter lido Jorge Amado. Podia ter lido Stendhal.

E a sua obra poética?

Eu não sou poeta. Eu fazia poemas e colocava na gaveta. Acontece que João Cabral de Melo Neto, vítima de uma intriga do Carlos Lacerda, foi expulso do Itamaraty. Ele ra cônsul em Barcelona. Ele era até amigo do Miró, do pintor. E veio para o Brasil, enquanto o processo se desenrolava. Quando ele voltou de Barcelona, ele trouxe uma tipografia, um prelo manual e uma coleção de caracteres, de letras muito bonitas, feitas a mão, um artesanato. E, naquele tempo, a gente estava com uma falta de dinheiro desgraçada. Dos meus trezentos poemas, ele selecionou vinte e publicou em livro, numa edição de luxo. Nós vendemos exemplar a um conto de réis. Durante três meses, nós vivemos à custa da minha poesia...[Risos]

Vendeu como bolinho quente?

Gente importante comprou: Eurico Dutra, Juscelino, João Daudt de Oliveira, Augusto Frederico Schmidt...

O sr. trabalhou com diversos patrões: Samuel Wainer...

Júlio de Mesquita...

Assis Chateaubriand, Adolpho Bloch...

Niomar Moniz Sodré…

Quem foi o melhor e o pior patrão?

Comigo todos foram bons. Com o Adolpho Bloch, eu tinha rusgas de vez em quando.

A Niomar vinha aqui em casa, ficava a tarde inteira conversando. Eu tive pouco contato com o Julio de Mesquita Filho - era alto, austero - porque eu era da sucursal. O meu contato era mais com o pessoal daqui. A sucursal era dirigida pelo Rafael Correia de Oliveira, de quem eu era muito amigo. Porque eu trabalhava no Diário de Notícias e, na sucursal do Estado de S. Paulo, eu fazia uma crônica diária, "Na Câmara", um comentário político do que havia se passado no dia na Câmara.

O sr. escreveu certa vez que, em toda a sua vida, o sr. não conheceu um só cafajeste "que não fosse bem vestido e bem falante e que não mexesse o gelo do uísque com o indicador de unha bem tratado." É isso mesmo?

Não tem conversa. Todo cafajeste tem essa mania. Eu conheci milhares. Bem vestido, bem falante, não deixa você pagar uísque, é ele que paga. Cafajeste não muda. Cafajeste e rico. Era a marca. Elegância, bem falante, falando muito da sua honestidade pessoal, muito patriota, viajado e mexendo uísque com o dedo.

Outra implicância que o sr. tem é com os alpinistas, não é?

É de uma burrice total. Eu não entendo: o cara arriscar a vida, para chegar no Everest. Você toma um avião e vê de cima. Eu moro há sessenta anos no Rio de Janeiro e nunca fui ao Pão de Açúcar, nunca fui ao Corcovado. Mas já passei milhares de vezes de avião por cima do Pão de Açúcar. O que que eu vou fazer no Pão de Açúcar? Levar vento na cara?

O alpinista é de um ridículo atroz. O sujeito arriscar a vida para chegar no topo. E daí? Chegou aí. E agora? Acrescentou alguma coisa à humanidade?

Por que o sr. não se dava com o Mário de Andrade?

Isso foi uma besteirada minha. Quando eu publiquei meu primeiro livro de contos, o Mário fez um artigo no Diário de Notícias elogiando. Mas, lá pelas tantas, eu falando de um personagem meu, que era uma garota de dezesseis anos, eu disse uma frase: "Chorava como uma perdida." Aí, na crítica tão amável que ele fez, o Mário fez uma ressalva: "Só tem uma coisa que o sr. Silveira errou. Como é que uma menina de dezesseis anos pode ser chamada de perdida? Perdida é prostituta." Não sabia ele que, em Sergipe – eu tinha acabado de chegar de Sergipe, eu cheguei em 37 e o livro saiu em 39 -, perdida é pessoa assim sem rumo, perdida mesmo. Eu, na minha ingenuidade, resolvi responder ao Mário de Andrade. Ele era muito vaidoso. Aí veio com uns artigos me chamando de tostão: "Quem era um tostão pra brigar com um milhão?" Quem me defendeu foi o Graciliano Ramos: "O tostão de hoje quem sabe se não vai ser o milhão de amanhã?" Isso está nas Obras Completas de Graciliano.

Então, o sr. não suportava o Mário?

Não, era muito vaidoso. E veado. Morava com a mãe. Um mulatão grande, falava aos berros. Sabia de tudo. Negócio de folclore ninguém podia mexer. Era monopólio dele e do Câmara Cascudo. Não gostava dele não.

O sr. chegou a conhecer o Noel Rosa?

Quando eu vim para o Rio, me procurou a mãe da mulher de Noel Rosa, que era sergipana. Eu fui em Vila Isabel, onde morava Noel. Isso foi em fevereiro de 37, quando eu cheguei aqui no Rio. E conheci o Noel, com o queixo quebrado. Porque ele nasceu a fórceps, nasceu aleijado do queixo. Mas, em maio, ele morreu. Morreu com 27 anos de idade. Eu fui para o enterro. Aracy de Almeida, Lamartine Babo e Francisco Alves estavam no enterro lá em Vila Isabel. Mas não cheguei a cultivar...até porque o Noel não conversava com ninguém, era intratável. Ninguém gostava muito do Noel, não.

É verdade que foi o sr. que lançou o Ibrahim Sued?

Foi. Tinha um amigo meu chamado João Neder, alto funcionário da Prefeitura, e havia um jornal aí chamado "Vanguarda", que até tinha sido um dos jornais integralistas, que estava devendo muito à Prefeitura. Então, a Prefeitura, resolveu fechar o jornal e encarregou o Neder de fechar o jornal. Quando eu soube disso, eu falei ao Neder: "Me dá quatro meses para ver se eu levanto esse jornal."

A redação era uma maravilha. Aí que eu convidei o João Cabral, o Ibrahim (como fotógrafo), o Vinícius [de Moraes], o Artur Seixas. Botei logo o João Cabral como editor-chefe.

Foi aí que o Ibrahim começou a fazer uma coluna chamada Zum-Zum, mas num português terrível. Quem fazia o copidesque era o João Cabral. O que saía era um primor. O João Cabral, além de ser poeta, era um grande escritor. Foi aí que o Ibrahim Sued começou. Era profundamente mal educado, cheio de gestos, falando alto, mas eu me dava bem com ele.

Se o sr. não tivesse sido jornalista, o que o sr. seria?

Não imagino. Desde os quatorze anos, sou jornalista. Nenhuma profissão me atrai. Gostaria de ser playboy, mas playboy não é profissão e para isso é preciso ter dinheiro. Eu sou um autodidata por natureza. Eu só fiz um ano de Direito. Nunca freqüentei escola de Jornalismo, até porque, no meu tempo, não existia.

O que o sr. acha dos cursos de jornalismo? O que o sr. pensa da obrigatoriedade do diploma para a profissão?

Eu não sei o que eles ensinam. Se os professores forem realmente jornalistas, tudo bem. Hoje com 86 anos, eu gostaria de freqüentar um curso de jornalismo, só pra saber o que eles ensinam. Quem sabe