Níquel Náusea: Um Mickey Mouse Alternativo- Parte II

Fabíola Tarapanoff - fabiolat@portalimprensa.com.br | 28/10/2004 15:35

Fernando Gonsales

Quais prêmios você já recebeu?
Recebi agora em 2004 o prêmio HQMix, que é legal, bem-conceituado e tem bastante confiabilidade.

Como foi a inspiração para o Rato Hutler, que é uma inspiração mais selvagem do Níquel Náusea? E para o Velho Sábio e para o Vostradeis?
O Velho Sábio no começo eu fazia sempre as tiras com os ratos e eu tinha vontade de fazer outros assuntos. Então fazia primeiro um quadrinho do sábio do buraco falando sobre as borboletas, ele introduzia o assunto seguinte e depois colocava mais borboletas. O Rato Rutler eu queria fazer um mutante, porque na verdade ele é um rato que tem um tamanho de um gato, é um "tosco" na verdade. E tem o Vostradeis, que é um personagem que não é do universo das tiras, é só das histórias em quadrinhos. O Vostradeis é um feiticeiro picareta. Eu queria fazer histórias sobre a Idade Média, aquelas seitas religiosas, então achei legal um personagem que fosse um feiticeiro daquela época.

A Gatinha parece que é mais organizada que o Níquel. Em geral as mulheres são mais pragmáticas que os homens?
No começo a rata é uma rata. Ou ela está prenha ou com filhotes, amamentando. A realidade da rata é com os filhotes. Não chega a ser uma analogia com os humanos, mas se você quer a minha opinião eu acho que as mulheres têm mais capacidade de organização do dia-a-dia. Mas nem sempre o que eu faço com os ratos é uma metáfora do que está ocorrendo. Uma vez eu fiz os ratos pretos que estavam atacando o Níquel, aí tem um amigo de cor que falou: ah legal, eles são negros, você não foi racista. Até tomei susto: eles são pretos porque é uma espécie de rato preto que existe. Não tinha uma conotação, eles eram ratos pretos porque existe uma espécie de ratos pretos. Até falei, tenho de tomar cuidado, as pessoas acham que é uma analogia e nem sempre é uma analogia, vou falar os ratos negros, subterrâneos, uma analogia às classes mais desfavorecidas, não é isso. Rato vive mesmo no subterrâneo, quando está com a rata, eu vejo mais com uma fêmea de rato, mas você acaba fazendo brincadeira com os humanos. A vida do rato é sobreviver. Mas se a gente não colocar um elemento humano no rato não dá nem para fazer a tira. Ele não vai falar, tem de humanizá-lo.

Gostaria de saber quais são seus próximos projetos?
A minha idéia é continuar lançando esses álbuns de tiras, porque até hoje lancei três álbuns, mas tem muita tira que cabe em álbum. Lançar um álbum por ano, a Devir, ela está lançando muitas revistas em quadrinhos e é especializada em RPG.

Como foi fazer a revista do Níquel Náusea por dez anos? E o roteiro da TV Colosso?
A revista do Níquel Náusea foi muito legal de fazer durante dez anos. Em 1986, mas era uma coisa meio amadora, tinha autores profissionais e era amadora, porque ninguém recebia para fazer, então eu pedia as histórias para os desenhos. Foi de 1986 a 1996, em dez anos saíram 30 números, três por ano, era uma revista papel-jornal. Era uma farra.

Como era a recepção com o público?
Era muito legal, pois tinha a seção de cartas, mas nunca era algo espetacular, se você aumenta a tiragem você distribui melhor. Eu trabalho com tiragem pequena, vendo pouco e como ganha pouco dinheiro não ponho anúncio, nem tem onde divulgar, é um esquema amador e o dono da revista era dono de uma fábrica de móveis. Não dava lucro. A revista passou por várias editoras, mas ficou mais com a VHD.

Como foi fazer os roteiros para a TV Colosso?
A TV Colosso no começo não era fácil. Na tira tem de enxugar o texto o máximo possível e na TV Colosso é o oposto, você tem de fazer um negócio de 1 minuto e meio, tem de inventar conversa fiada.

Como tem sido a repercussão do Níquel Náusea?
Eu acho que ele pega todas as idades. As criancinhas devem boiar um pouco. Acho que crianças de menos de 10 anos não entendem.

Seu signo no horóscopo é rato.
No horóscopo chinês são cinco elementos e além de rato é rato de metal, por ser níquel, eu acho que é uma coincidência grande (risos). Eu acredito, eu gosto de astrologia, procuro até dar signo para eles. Não que ele tenha nascido, mas que ele tenha algum signo, ajuda a mentalizar o personagem.

Qual a dificuldade do cartunista no Brasil?
Em primeiro lugar é o mercado, que é restrito. O mercado de quadrinhos nas bancas está perdendo muita força por causa do videogame, internet, acho que esse tipo de coisa está tomando a atenção. As crianças estão lendo menos livros e mais mangá. E há os subprodutos da televisão, não é menosprezando, mas ele procura na banca o que vê na televisão e nesse sentido o quadrinho japonês está ocupando um espaço enorme.

Todo humor é transgressivo, faz pensar e provoca?
Eu acho que não, acho que tem bastante tipo de humor. Procuro evitar um tipo de humor antes de bolar uma tira. Se você quer dar uma mensagem, tudo bem, se você fica muito preocupado em passar essa mensagem você se afasta do humor. Quanto menos você pensar nisso na hora, você faz um humor mais leve. É a mesma coisa quando você escreve um bilhete para o filho. Você sempre vai passar o que pensa, se pensar muito nisso, fica engessado. Nos quadrinhos, tem o elemento-surpresa. Aí, tudo bem, você pensa o desenho e fala está bom, não está, mas é depois do que você faz. É difícil alguém falar faz uma coisa engraçada. Você vai criando, às vezes fala, ah, não tem graça nenhuma.

Você não tem filhos?
Não tenho esse tipo de animal.