“Não me considero um artista, apenas gosto de desenhar", diz Hiro Kawahara

Vanessa Gonçalves | 19/03/2012 16:00

A ilustração sempre esteve na vida de Hiro Kawahara. Como ele mesmo diz "desenhar sempre está presente no cotidiano de todas as crianças, a diferença é que muitas, quando viram adultas param de desenhar, outras não."


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Kawahara conta que desde a infância gostava de desenhar, tanto que nem a tentativa de ser tornar biólogo impediu que o traço deixasse de ser sua marca. O desenho falou mais alto e Hiro se transformou num dos ilustradores mais queridos, especialmente por seu trabalho com as lâminas das bandejas do McDonald's.


Crédito:Hiro Kawahara


Hiro começou a carreira por acaso. "Nunca tinha pensado em trabalhar com isso, mas recebi uma proposta, fiz um teste e acabei sendo contratado como ilustrador, com carteira assinada e tudo, para trabalhar na revista Vida, da Editora Três". Depois de três anos, com o fim da revista, Hiro estava sem emprego e ainda não tinha preparo, experiência e contatos suficientes para ser ilustrador autônomo, então passou a trabalhar em agências de publicidade, fazendo carreira até atingir o cargo de diretor de arte. Apesar do sucesso, ele sentia falta de desenhar.


"Em 2005 tomei coragem, pedi demissão e me tornei ilustrador autônomo". Mais experiente, Hiro tinha um grande cliente garantido, o McDonald’s.  "Isso me deu segurança para conseguir uma carteira de clientes grandes, muitos dos quais estão comigo até hoje, como o Pão de Açúcar, o Itaú, além do próprio McDonald’s", comenta.


Crédito:Hiro Kawahara


Na opinião do ilustrador seu trabalho de maior destaque são as lâminas de bandeja do McDonald’s. "É o meu trabalho mais conhecido, divulgado e longevo. São 18 anos ilustrando e criando as lâminas, que chegam a 10 por ano e têm uma tiragem de 12 a 14 milhões de unidades", diz Kawahara.


A parceira de Hiro com o Mcdonald's começou quando ele foi contratado como diretor de arte da Taterka, em 1995. A rede de lanchonetes era cliente da agência e, na época, ninguém cuidava das lâminas de bandeja que, além de esporádicas, eram bem menos elaboradas. “Me ofereci para criar algo que envolvesse informação e diversão, sem a intenção de vender ou promover produtos. Deu tão certo que a parceria funciona até hoje”.


Crédito:Hiro Kawahara


Kawahara sente-se realizado pessoal e profissionalmente por causa desse trabalho, não só pela repercussão, mas também por ter influenciado ilustradores da nova geração. Apesar do sucesso com as lâminas do McDonald's, o ilustrador também ressalta outros trabalhos conhecidos do público.


Hiro Kawahara atua em diversas frentes como filmes, embalagens e livros.  "Adoro um trabalho que fiz para a Fundação Telefônica em 2007 para uma campanha do saudoso Tomás Lorente, que foi a criação do filme Carina, aquele que tem a canção da Luciana Mello. Nele, tive toda liberdade de criar, desde os concepts dos personagens às cenas. Foi um trabalho muito bonito e tocante, que me encheu de orgulho".


O trabalho de Hiro para a lanchonete gerou novos projetos, tanto que o ilustrador conseguiu transformar as lâminas das bandejas em um espaço para informação.


Crédito:Hiro Kawahara


A lâmina “Grandes Direitos Para Pequenas Crianças” teve sua segunda versão transformada em um livro que foi lançado recentemente pela Panda Books. Em parceria com Marcelo Lourenço, redator da Taterka, Hiro teve liberdade para ousar com um texto mais divertido e poético. “Além de desenhar, gosto muito de escrever e isso me abriu também outras portas e possibilidades”.


Kawahara comenta que as pessoas não imaginam o trabalho que há por trás de cada lâmina de bandeja. “Cada tema é muito bem escolhido e cada informação é muito bem embasada e cuidada por meio de pesquisas apuradas, entrevistas com especialistas. Por isso costumamos dizer que muitas lâminas de bandeja têm conteúdo de ilustração e texto para fazer um livro”.


“A experiência de lançar o primeiro livro foi apavorante e libertadora ao mesmo tempo. Apavorante porque como era algo que nunca havia feito antes, um livro com meu nome na capa, parece que nada que você faz está bom o suficiente e tudo é motivo de insegurança. Ao mesmo tempo, foi libertador quando o vi pronto, finalmente saiu da gaveta”, confessa o ilustrador.


Crédito:Hiro Kawahara

Hiro Kawahara pretende continuar levando sua arte para o meio literário. “Já ilustrei livros de outros autores e, confesso, peguei o gosto pela coisa. Ainda quero evoluir muito no que diz respeito ao conceito da ilustração como complemento do texto, compreender mais as sutilezas entre as duas formas de expressão e evoluir cada vez mais na parte técnica da ilustração”.


E o trabalho de Hiro não para. Em breve ele vai lançar um livro que vai para o Programa Nacional de Banda Larga (PNLB) e está escrevendo outro livro de histórias infantis


“Tenho também um projeto para um livro em quadrinhos. Sou apaixonado pelos livros do Cyril Pedrosa e gostaria de fazer algo nessa linha de trabalho, só que com mais carisma e humor, mas com menos páginas. Em junho sairá meu livro Hiroines, pela Reference Press. Essa obra traz sketches e desenhos de garotas, muito comum nos EUA e na Europa. Ao mesmo tempo, pretendo continuar com o trabalho de ilustração publicitária e criação de personagens. Um projeto de desenho animado também apareceu nos últimos meses e os interesses e possibilidades para realizá-lo tem crescido também”.


Sobre a possibilidade de realizar uma exposição de seus desenhos, Hiro Kawahara desconversa. “Não me considero um artista, apenas gosto de desenhar e de apreciar trabalhos de desenhistas que admiro, que me deixam de alto astral ou que me estimulem a continuar desenhando mais e melhor. Isso já me basta. Não importa se esses desenhos estão em um livro, em uma embalagem de Sucrilhos ou em um quadro”, finaliza.