Opinião: Menos gente, muita história para contar

Por Thaís Naldoni, gerente de Jornalismo de IMPRENSA | 24/06/2013 17:29

A imprensa brasileira está sofrendo com a série de manifestações que estão ocorrendo no país. Não só pela violência policial ou pela intolerância de alguns manifestantes que, muito perigosamente – diga-se – refuta os jornalistas e as empresas de comunicação (de EBC a Rede Globo os repórteres sofreram agressões físicas e/ou verbais), mas pela quantidade extra de trabalho, que leva jornalistas à beira da exaustão física e psicológica.

 

Para a realidade das redações atuais, não havia hora pior para os protestos. E não falo aqui de nenhum viés político e ideológico, mas de braços disponíveis para realizar uma cobertura tão importante e tão grandes proporções. Muitas redações, cada vez mais enxutas, não conseguem fazer um rodízio de equipes. Resultado: o repórter trabalha 12, 14, 16 horas por dia, sem uma rendição ou descanso apropriado.

 

É claro que o tema merece uma cobertura intensa, mas se todo mundo tem que ir para rua, a quem resta pensar, planejar? Fica complicado manter uma cobertura de qualidade, que consiga explorar o contraditório, com tanta coisa acontecendo e com tão poucos profissionais para darem conta de tudo o que acontece. O “acordar do gigante”, visto por esse ângulo, acontece em um momento delicado.

 

Aliado à falta de braços, há também a hostilidade que o jornalista encontra quando está na rua. Muitos manifestantes mais radicais descarregam no profissional de imprensa todo o ranço que sente quanto a uma postura A ou B das empresas de mídia. Mas, quem vai às ruas pedir para ser ouvido não pode querer calar outras pessoas. Quem luta por liberdade e fala em democracia, tem que saber que dentro de um mesmo fato há inúmeros olhares. E que a democracia também significa que todo mundo tem direito a olhar como quiser, quer você concorde ou não, sempre terá alguém para concordar.

 

Para mim, isso tudo deixa claro que jornalismo é feito por pessoas. Há de se ter gente nas redações para que o bom jornalismo prevaleça e a lógica do mercado, sobretudo nos últimos tempos, tem sido a do enxugamento. Nessa onda, a qualidade da apuração também acaba depreciada.

 

Outra coisa importante é que a imprensa, o jornalista tem que saber separar - e de fato separar – o que é informação real e o que são boatos, fofocas disseminadas facilmente pelas redes sociais, já que, como diz o escritor, “uma mentira repetida mil vezes, torna-se verdade” e aí, nesse caso, a desinformação é um mal quase irremediável.

 
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