Opinião: Quando a fonte é abusada

Thaís Naldoni, gerente de Jornalismo de IMPRENSA | 12/04/2012 15:35

Não foi a primeira, nem a segunda vez que isso aconteceu aqui na redação. Mas não deixo de me espantar quando uma fonte ouvida para uma matéria tem a pachorra de pedir para “aprovar” o texto ou a entrevista antes da publicação. Pior ainda quando o pedido é feito por um outro jornalista. Aí, para mim, é o fim do mundo.

 

Ok, entendo que quatro ou cinco jornalistas espalhados pelo país tenham o mau hábito de dar uma “interpretada” no que a fonte diz e outra meia-dúzia, sobretudo na indústria da fofoca, publiquem coisas nem sempre verdadeiras, baseadas em boatos, sem checar a procedência  da informação, mas as exceções da vida não podem – e não devem - ser tomadas como regras.

 

Caso a fonte não confie no veículo que a procura, no jornalista responsável pela matéria, tem todo o direito a não conceder a entrevista, mas não existe, em nenhum veículo sério, a prerrogativa de submeter uma matéria a um entrevistado antes da publicação. Caso o veículo cometa algum equívoco, a fonte tem meios para fazer valer seu direito: pode pedir direito de resposta, correção ou até acionar a mídia na Justiça.

 

É absurdamente invasivo e, para mim, lembra a ação dos censores um pedido para que uma matéria passe pelo “crivo” da fonte.  Imaginem só uma reportagem de denúncia, em que você vai ouvir o “outro lado” e a pessoa condiciona a “autorização para que se divulgue as aspas” à leitura prévia da matéria. Ou seja: a fonte edita a matéria de acordo com seu interesse. Não dá, né?


Esse pedido – sempre feito na mais absoluta cordialidade, em nome das boas relações – é quase que um atentado à liberdade de expressão, afinal, não se trata de uma simples leitura. A pessoa em questão vai achar que tem o direito de solicitar alterações, o que interfere diretamente no resultado final, na direção tomada pela reportagem. Claro que a resposta partindo de mim é sempre não. Perco a entrevista, mas não acho nada correto submeter uma matéria a aprovação externa.

 

Cara fonte, acredite, a maior parte dos jornalistas preza por uma reportagem de qualidade e busca não distorcer as declarações dadas por você. Caso algo dê errado, reclame. Mas não peça para ler nada antes. Como diria a colega Sandra Annenberg, é muito “deselegante”.


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