“Uma curva chamada democracia”, por Leandro Massoni

Opinião

Leandro Massoni | 10/07/2020 17:56

O jornalismo brasileiro vem enfrentando um dos períodos mais turbulentos de sua história no que tange o contexto atual marcado pela polarização política. As últimas manifestações, pró-democráticas e a favor do atual governo em São Paulo, trazem opiniões distintas do que seria um país ideal. Contudo, a ameaça à democracia por parte de grupos extremistas se caracteriza como uma afronta ao que o povo brasileiro levou anos para conquistar.


Os últimos dois domingos (de junho) revelaram que dentro do esporte, sobretudo nas torcidas organizadas de Corinthians e Palmeiras, vimos a demonstração da união de ambas por uma mesma causa. Apesar de rivais dentro do futebol, adeptos alvinegros e alviverdes resolveram se apoiar e formar, assim, uma frente antifascista e contra a repressão estimulada indiretamente pelo próprio atual governo.


Crédito: Oam Santos/Fotos Públicas

A democracia é o principal alicerce de uma população que deseja instaurar mudanças a partir de decisões influenciadas pela maioria dos que dela fazem parte.  Entretanto, é democrático também pensarmos que todos podemos ter voz ativa para levantar questões que não estejam de acordo ou estão prejudicando algumas das células que compõem nossa sociedade. 

E se tratando especificamente disso, observamos que o momento de fala de poucos - no caso, da minoria - está constantemente sofrendo perseguições e agressões verbais e até físicas de grupos apoiadores do lado extremista de direita, o que de fato corresponde a uma afronta ao que conhecemos como liberdade de expressão. 


A liberdade de falar o que pensa, sendo cordial e respeitando o espaço de fala ou defesa de quem deseja expor sua opinião diante de determinado assunto, está entrando em profundo colapso, já que muitos estão usando a brutalidade personificada em gritos, ofensas e intimidação para se oporem sem antes pensar em argumentos que fossem plausíveis para definir suas atitudes.

Em suma, a democracia está sendo empurrada a um abismo, e entrando no seu lugar um totalitarismo nefasto que visa extinguir as vozes que precisam comunicar o que vem acontecendo no jogo político e o quanto isso irá implicar na vida de milhares de pessoas, que se tornam cada vez mais reféns do medo fantasioso imposto pelos que estão no poder. 


A ideia de que “a mídia é comunista”, de que tal rede televisiva é “um lixo”, que os jornais só mostram ou inventam a desgraça somente para promover seus palanques e, assim, arrecadar mais atenção e mais e mais quantias monetárias, é o verdadeiro ópio de uma fatia - não tão generosa - de indivíduos que querem fazer revolução, mas não sabem como e pelo que estão brigando, apenas seguindo uma tendência que irá levar uma nação à patamares de vergonha alheia imensuráveis.


Ou seja, tornou-se uma espécie de moda ver alguns que preferem tocar o mesmo disco, rebobiná-lo quantas vezes for preciso e seguir a massa “pouco” encefálica que surfa na maré do que é “fake” sendo motivada por um ódio criado pelas figuras que se dizem idôneas, imaculadas e puras moralmente falando.

Para outros, é preferível e conveniente a análise e a sensatez em transmitir o que é verdadeiro e comprovado pela apuração dos profissionais jornalistas que estão acostumados a fazer o trabalho investigativo e levantar as possíveis e reais causas para todos os tipos de problemas ligados ao nosso interesse público.


A informação é a chave para desvendar processos. Enquanto que a incerteza, nascida no berço das falácias mal contadas e dos fatos pessimamente apurados, se nomeia como “a verdade”, só que ela não tem fundamentos, muito menos argumentos que a sustente por muito tempo. Uma hora, a máscara da pseudo-moralidade terá perdido todo seu charme, e a curva democrática voltará a percorrer seu caminho natural.


Crédito: Arquivo pessoal


Sobre o autor: Leandro Massoni é jornalista formado pela Universidade Paulista (Unip) e pós graduado em Jornalismo Esportivo e Multimídias pela Anhembi Morumbi. É também radialista pela Radioficina Escola de Rádio e Televisão. Tem se aventurado a escrever sobre jornalismo esportivo por meio do site Jornalista em Campo. É também autor do vídeo documentário “O Futebol Nacional”, que conta a história do Nacional Atlético Clube através do ponto de vista de jornalistas e peritos no esporte bretão, e lançou em 2019 o livro "Nacional: nos trilhos do futebol brasileiro".





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