“Números, negacionismo, morte e desinformação”, por Rafiza Varão

Entre cultura e propaganda, desinformar na pandemia do novo coronavírus se torna estratégia

Rafiza Varão | 07/07/2020 20:06

Em abril, escrevi aqui sobre minha preocupação com a tendência que vinha sendo construída, entre uma parcela da população brasileira, no sentido de negar ou minimizar o sofrimento coletivo causado pela Covid-19. Esse comportamento vinha sendo expresso sobretudo nas mídias sociais com a pergunta-bordão “e os curados?” e na afirmação irônica “tudo agora é Covid, ninguém morre mais de outra coisa”.

 

Embutidas nessas publicações, também se tornava comum criticar a cobertura jornalística que dava visibilidade ao número de mortos no Brasil. Parecia, naquele momento, que a intenção era tentar ver um “lado bom” dos acontecimentos em plena emergência sanitária, além de negar sua gravidade. As frases e os desejos dos cidadão brasileiros alinhados a essas perspectivas, surpreendentemente, se transformaram no nevoeiro que encobre as informações oficiais sobre o novo coronavírus hoje em nosso país - e que o jornalismo tem tentado dissipar com um consórcio de veículos de imprensa criado à jato. O que esse quadro nos indica sobre os processos de desinformação, em 2020, em terras brasileiras?

 

Pouco depois da saída de Nelson Teich do Ministério da Saúde, em 15 de maio, a divulgação de dados oficiais vem sendo solapada pela mesma mentalidade dos comentários ora ingênuos ora mal intencionados das mídias sociais. Assim, já no dia 19, o Ministério passou a publicar o Placar da Vida (ainda em vigor) com óbitos  invisíveis e número de recuperados em destaque. O Placar já circulava nas mídias sociais desde o final de abril, como forma de se opor ao que chamou-se de “cobertura maciça de fatos negativos” pela mídia.

 

Crédito: Rovena Rosa/ Agência Brasil

No começo de junho, a página do ministério deixou de divulgar os números acumulados da Covid-19, passando a mostrar apenas os casos e mortes acumulados em 24h. Poucos dias após a mudança, focados na ideia de responsabilidade social da imprensa, os veículos O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, O Globo, G1 e UOL decidiram formar um consórcio que ficaria responsável por somar esses números, partindo do histórico da doença e dos dados fornecidos diariamente pelas secretarias de saúde estaduais - o que vem sendo feito até, pelo menos, a data de fechamento deste artigo. O Supremo Tribunal Federal (STF) determinou rapidamente, entretanto, que o governo retomasse o formato antigo de divulgação. A decisão, expedida pelo ministro Alexandre de Moraes, apontava o perigo de se omitir informações, o que comprometeria “a efetivação concreta da proteção à saúde pública, com a adoção de todas as medidas possíveis para o apoio e manutenção das atividades do Sistema Único de Saúde”. Outra questão importante desse mesmo período foi o atraso contínuo na liberação dos números da Covid-19, que passaram a ser publicados cada vez mais tarde. O presidente da república chegou a dizer que, com isso, “acabou matéria do Jornal Nacional”. O veredito do STF foi acatado pelo governo federal, mas o compromisso de algum horário para se fechar o panorama diário do avanço do vírus no país deixou de fazer parte da lida com esses números. Há claramente aí uma ação intencional de borrar o concreto, o factual. Não apenas borrar, mas ignorar, fingir que não há essa existência.

 

Tudo isso reforça um contexto de negacionismo e de falta de parâmetros para perceber a realidade que cerca o Brasil no que diz respeito à pandemia, criando-se um cenário de desinformação no qual a doença avança sem que se compreenda sua representatividade e consequências. Também, sem informações oficiais reforçadas e confiáveis, perde-se um pouco das poucas certezas que se poderia ter nessa etapa da enfermidade em terras tupiniquins. É dever do Estado que elas estejam dispostas com clareza.

 

Cruzando os usuários das mídias sociais ansiosos pelo número de recuperados e a gestão que tenta esconder os estragos do vírus, há duas questões relevantes que os atravessam: uma mais cultural e outra mais propagandística. A primeira questão é que, no país, evita-se a discussão de temas duros, como a morte, num processo meio infantilizador próprio de uma cultura que prega a alegria como um de seus traços principais. Algumas pesquisas demonstram que os brasileiros evitam até falar sobre o assunto: 74% acham que esse é um tema a ser evitado. Há mortes? É melhor não saber. A segunda se trata da maneira como isso acaba interferindo no modo como as políticas públicas na pandemia têm se alinhado sub-repticiamente a esse elemento cultural para encobrir a ausência de um plano real de contenção do coronavírus no Brasil, bem como oferecer um lado positivo propagandístico da situação em que nos encontramos. É uma adoção política deliberada da desinformação (que avança com tentáculos de polvo sobre a Terra Brasilis). Há mortes? Melhor não saber.

 

Nós sabemos onde as políticas de não saber, as políticas de desinformação, vão desaguar. A estratégia de desinformar é deixar o indivíduo à deriva, subjugado. O não saber deve ser combatido, apesar dos ditados que dizem ser a ignorância uma benção. Se não por nós (ah, por nós também), pelo menos em respeito a todos aqueles que se foram enquanto não chegou ainda a cura. É uma ofensa dizer que são apenas os vivos que importam. Há mortes? Melhor saber. A desinformação leva a mais delas.

 

Crédito: Arquivo pessoal



*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especialmente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Imprensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.

 


Leia também

Opinião: “Tempos difíceis”, por Rafiza Varão

Após apagão de informações do governo federal, veículos se unem para informar dados sobre a pandemia de coronavírus