“A volta do futebol na pandemia e o papel da imprensa esportiva”, por Wagner de Alcântara Aragão

Opinião

Wagner de Alcântara Aragão | 01/07/2020 10:58

Até já virou clichê dizer: a pandemia do novo coronavírus escancarou uma porção de mazelas que, em realidade, estavam sob nosso nariz. Ocorre que é a absoluta verdade. Uma dessas descortinadas que o parasita agora promove tem a ver com o universo do futebol, e por tabela com a cobertura dada pela imprensa ao esporte, seus fatos, suas atrações, seus protagonistas.


Em pleno auge da pandemia, há dirigentes - movidos por interesses outros que não a defesa da vida - colocando em prática o retorno dos campeonatos. A crônica esportiva se vê obrigada, como é da natureza da sua função, a analisar e comentar os fatos acerca dessa mobilização insana. É aí que surge o problema.


O futebol é um mundo à parte. Mas, ao mesmo tempo, não é outro planeta. O futebol é reflexo da sociedade – talvez por essa capacidade que o futebol tem de ser a síntese da vida, das interrelações sociais, é que faz tanto sucesso na Terra. O futebol é parte deste mundo, a materializar as virtudes, os vícios deste mundo.


Crédito: Victor Silva/Divulgação Botafogo de Futebol e Regatas
Time do Botafogo marca posição contra a volta do futebol

A amplitude da pandemia exige conhecimento interdisciplinar. À imprensa esportiva, em especial neste momento, não basta ser craque em conhecer de táticas futebolísticas. Só dominar profundamente a história do futebol, seus clubes, seus atletas, não é insuficiente neste caos global, que no Brasil conta com agravamentos ainda mais terríveis.


A imprensa esportiva, para debater “a volta do futebol” - em pleno pico da pandemia, quando muitos morrem da doença, outros padecem da fome - precisa entender das mazelas socioeconômicas que o coronavírus nos esfrega. Entender das desigualdades as quais têm, no futebol, inclusive, seus maiores exemplos. Afinal, sabemos que a absoluta maioria dos jogadores, técnicos, profissionais e funcionários dos clubes, e que a maioria dos clubes experimentam realidade bem diferente, bem mais crítica, que a dos times da elite.


Infelizmente, tem faltado esse olhar holístico nas mesas-redondas, na cobertura cotidiana. Contam-se nos dedos as exceções, aqueles com coragem de rechaçar com veemência a cogitação da “volta do futebol” em um momento quando apenas as atividades essenciais deveriam estar liberadas – o isolamento social é imprescindível para segurar a disseminação do vírus, impedir o colapso no sistema de saúde, evitar mortes.


Não faz sentido, em um país que não promove testes em massa, dedicar esforços e dinheiro para testar um seleto grupo de jogadores, o dos clubes da elite. Não faz sentido exatamente ao lado de um hospital de campanha, enquanto pacientes agonizam, termos, no estádio, jogadores se abraçando comemorando gols inóspitos, servindo de marionetes de patrocinadores e dirigentes preocupados com arrecadação financeira.


A imprensa, de um modo geral, e em particular a esportiva – que é aquela que dialoga diretamente com o público ligado ao futebol – não pode fingir normalidade. Não há o que pondera, contemporizar. Não há argumento humano, civilizatório ou socioeconômico que sustente defesa da “volta do futebol” neste momento. Ao menos, para quem está minimamente bem informado. E, sabemos, é papel da imprensa está-lo e fazê-lo.


Crédito: Arquivo Pessoal






*Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor de disciplinas de Comunicação na rede estadual de ensino profissional do Paraná. Mestre em Estudos de Linguagens (UTFPR). Mantém um site de notícias (www.redemacuco.com.br) e promove cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e Cultura, sobre as quais desenvolve pesquisas também.






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