Opinião: "Cinco grandes reportagens que vão aumentar o seu amor pelo jornalismo", por Patrícia Paixão

Patrícia Paixão | 06/09/2017 07:26
Apesar de todas as dificuldades, críticas e previsões negativas, o jornalismo vive e está bastante ativo, provando dia a dia que é essencial para a nossa sociedade.  Uma mostra disso são as belíssimas grandes reportagens que surgem em diferentes mídias, seja denunciando graves chagas sociais, seja amplificando a voz de personagens que merecem ter suas vidas retratadas. São textos produzidos por jornalistas idealistas e abnegados, que abrem mão de muitas horas da sua vida para escutar o outro e levar ao público suas histórias.

Sou apaixonada pelo gênero “grande reportagem”, esse texto que se diferencia da reportagem comum, por envolver vasto tempo de produção, oferecendo excelente aprofundamento do fato narrado, além de refinado tratamento estético. Tenho a felicidade de lecionar a disciplina “Grandes Reportagens”, na Universidade Anhembi Morumbi, onde passo o semestre todo destacando trabalhos jornalísticos maravilhosos para os alunos.

A seguir, você poderá conhecer um pouco de algumas das grandes reportagens que estão na lista das minhas favoritas. Há muitas e muitas outras, mas, agora, vou ficar nestas cinco: 

*Terra do meio – Brasil invisível

Essa série de reportagens produzida em 2007 para o Bom Dia Brasil, da Rede Globo, pelo repórter especial Marcelo Canellas, em parceria com o talentoso repórter cinematográfico Luiz Quilião (falecido em 2015), é simplesmente SENSACIONAL! A série é constituída de cinco matérias que revelam personagens, belezas e tragédias de uma região pouco conhecida da maioria dos brasileiros, a chamada “Terra do meio”, localizada entre os municípios de Altamira e São Félix do Xingu, no Pará. Canellas mostra como funciona o “regatão”, espécie de mercado que funciona dentro de um barco, e é a única forma que os “beradeiros” (pessoas que vivem às margens do rio Xingu) têm para ter acesso a produtos da cidade. O telespectador conhece, na grande reportagem, a história de brasileiros que NUNCA VIRAM UM APARELHO DE TV na vida e, por isso, desconhecem o rosto de ídolos como Roberto Carlos. São pessoas completamente ignoradas pelo Estado. Não possuem nenhum documento, nem mesmo RG. Não votam, não contam com educação ou assistência de saúde. Mesmo assim, defendem as terras em que vivem e falam com orgulho do Brasil. As matérias também mostram como boa parte das terras na região da Terra do Meio é grilada, e como a floresta amazônica no local é devastada impunemente, muitas vezes à base da bala, já que a violência é uma marca na região, e é grande o número de ameaçados de morte por grileiros e madeireiros. Canellas mostra na reportagem um cemitério de indigentes, vários deles vítimas desses criminosos que se apossam e exploram a terra que originalmente é dos índios e dos ribeirinhos. A matéria relembra o caso da missionária norte-americana Dorothy Stang, assassinada em 2005, e mostra o caso de pessoas que chegaram a denunciar que estavam recebendo ameaças de morte e, infelizmente, acabaram sendo executadas. Na minha opinião, todo brasileiro deveria assistir a essa grande reportagem. É um choque de realidade.

As cinco matérias da série estão disponíveis no site Memória Globo, da Rede Globo, neste link.

*Vida até o fim – A mulher que alimentava

Essa grande reportagem é tão linda, mas tão linda, que faço questão de promover uma leitura coletiva dela com meus alunos, sempre que posso. Li mais de dez vezes e sempre choro. Não tem jeito. Já cansei de escrever sobre a sensibilidade e a preciosidade do texto da deusa Eliane Brum, mas nessa matéria, em especial, ela se supera. 

O texto retrata os últimos 115 dias de vida de Ailce de Oliveira Souza, uma senhora com um câncer terminal no fígado. Ela que passou a vida inteira pensando que poderia ter tempo para curtir a vida quando se aposentasse, descobre, quando aposentada, que não tem mais tempo pra viver, porque está com a doença. E ela se recusa a pronunciar o nome dela (câncer). Eliane acompanhou Ailce durante esses últimos meses de existência, encontrando-a algumas vezes por semana e conversando com ela todos os dias por telefone. Frequentou sua casa, suas consultas médicas, acompanhou a rotina dela com os filhos. O texto, cheio de metáforas, poesia e delicadezas, revela passagens do passado e daquele presente tão frágil dessa mulher encantadora, que foi merendeira numa escola pública. Conforme destaca Eliane, ela, que sempre alimentou tantas crianças, não consegue se alimentar nos últimos dias da sua vida, por conta dos enjoos provocados pelo tumor, que se encontra em um lugar inoperável. Acompanhada do colega fotógrafo Marcelo Min, outro profissional de extrema sensibilidade e viés humanista (infelizmente também faleceu em 2015), Eliane ficou com Ailce até o seu último suspiro no hospital. Num ato de humanidade, ajudou a banhar e a molhar a boca da merendeira, que já não conseguia beber água em seus derradeiros dias. É uma grande reportagem AVASSALADORA. Publicada originalmente na revista Época, hoje ela está presente no livro O olho da rua – Uma repórter em busca da literatura da vida real, de Eliane, editado recentemente pela Arquipélago Editorial.

*Sobre a sede 

Esse é outro texto que desperta diferentes sensações e que faz você se encantar pelo personagem retratado. É também uma prova de que uma história que pode parecer absurda e ter uma conotação negativa em uma notícia simples publicada no jornal mostra-se bela e totalmente dotada de sentido, quando retratada com o aprofundamento e a engenhosidade de uma grande reportagem. O jornalista Victor Hugo Brandalise não se conformou com a notícia que viu no jornal e resolveu aprofundá-la, para conhecer todas as verdades daquela história.

Qual história? A do idoso Nelson Golla, que explodiu uma bomba na clínica de repouso onde estava internada sua esposa Neusa, que sofria as sequelas de dois AVCs. Matou a companheira e pretendia também se matar, mas não conseguiu ter seu desejo realizado. Nelson ficou vivo e passou a ter que enfrentar as consequências do seu ato. Por que ele fez isso? Pelo mais extremo amor a essa companheira de 47 anos de convivência. Seu objetivo era libertar ele e a esposa do sofrimento, pondo fim àquela rotina que era tão diferente dos felizes anos de casamento, que resultaram em três filhos e netos. O texto de Brandalise é encantador e envolvente. Não há como não se sensibilizar com a história fantástica desse senhor que a princípio pode ser visto como um “louco”. Recomendo muito! Uma prova de que notícias publicadas no hard news podem servir de inspiração para excelentes trabalhos de grande reportagem. A matéria pode ser acessada na plataforma BRIO, neste link.

*Holocausto brasileiro

O relato feito pela jornalista Daniela Arbex sobre os anos de horror do Hospital Psiquiátrico Colônia, um manicômio que se localizava em Barbacena (MG), é MUITO IMPRESSIONANTE. 

Publicada pela primeira vez no jornal Tribuna de Minas, onde Daniela é repórter especial, e amplificada para o livro-reportagem que foi vencedor do Jabuti em 2013, a grande reportagem mostra que o Colônia funcionava como um verdadeiro campo de concentração. Por ele passaram milhares de pessoas, muitas sem qualquer problema de sanidade mental (várias foram levadas forçosamente pra lá por suas famílias apenas pelo fato de destoarem do padrão esperado pela sociedade – há casos de jovens que engravidaram antes do casamento, homossexuais, pessoas com temperamento forte, dentre outras). Esses “doentes” chegavam em um trem, como nos campos de concentração nazistas, e nunca mais voltavam para suas casas. Em 70 anos de funcionamento do Colônia, de 1903 a 1980, mais de 60 mil pessoas morreram. Muitas perdiam a vida logo na entrada do manicômio com os choques elétricos, que eram uma espécie de “batismo”. Houve casos de estupro, roubo de bebês que nasciam dentro do hospital, abusos de diversas naturezas. E depois de mortos, nem assim esses internos tinham sossego. Seus corpos eram vendidos para faculdades de medicina do país. Um dos textos mais chocantes que já li, e que revela uma face triste do tratamento psiquiátrico brasileiro. Face esta que infelizmente ainda pode ser vista em alguns manicômios do país. O livro de Daniela, editado pela Geração Editorial, pode ser encontrado nas principais livrarias.

*Mães da fé

Essa grande reportagem, que na verdade é um radiodocumentário, é uma verdadeira obra de arte. O repórter Caetano Cury, da Rádio Bandeirantes, mostra a vida das “Mães da Sé”, mulheres que nunca mais viram seus filhos, irmãos e outros familiares, depois que eles, do dia pra noite, desapareceram de suas vidas. Essas mulheres se reúnem periodicamente nas escadarias da Catedral da Sé, em São Paulo, segurando as fotos de seus entes queridos, num protesto triste e silencioso. Explorando muito bem todas as vantagens e características do veículo rádio, Caetano vai apresentando as histórias dessas personagens, nos envolvendo com uma trilha sonora linda, de Cartola a Chico Buarque, sabiamente sintonizada com o texto do documentário. A vontade que dá no ouvinte, ao final da matéria, é de abraçar fortemente essas mulheres, tentando suprir pelo menos por um momento o afeto dos familiares que muitas delas ainda sonham reencontrar. Você vai chorar também com essa reportagem. Não tem jeito rs Vencedora do 37º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, na categoria rádio,  a matéria pode ser ouvida neste link

Leia, assista e ouça o quanto antes essas grandes reportagens. Você vai aumentar ainda mais seu amor pela profissão!

Crédito:Arquivo pessoal
*Patrícia Paixão é jornalista e professora do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, da Universidade Anhembi Morumbi e das Faculdades Integradas Rio Branco. É organizadora dos livros "Jornalismo Policial: Histórias de Quem Faz" (In House, 2010) e "Mestres da Reportagem" (In House, 2012). Também é responsável pelo blog Formando Focas.