Opinião: O nosso “jornalismo declaratório” de cada dia, por Patrícia Paixão

Patrícia Paixão | 06/04/2017 12:00
Quanto mais o jornalismo se limita a dar aspas dos lados envolvidos no fato, sem ir a campo e sem cruzar diferentes informações, para descobrir a verdade, mais ele se afasta da essência da profissão.

É o que chamamos de “jornalismo declaratório”, prática que vem ganhando força, seja por culpa do cenário adverso em nossas redações, com cortes sucessivos de gastos, passaralhos, acúmulo de funções, menos idas a campo; seja devido a interesses que estão por trás da publicação de determinado fato. Por exemplo: muitas vezes um veículo jornalístico alinhado a um grupo político (embora venda-se como “apartidário”) aposta na divulgação de uma denúncia bombástica contra um partido ou político adversário, sendo que esta denúncia está baseada apenas em declarações, sem cobrar do repórter a investigação a fundo dessas aspas, antes de divulgá-las. Diz estar fazendo jornalismo investigativo, mas, de fato, não está.

Praticamente todos os dias vemos variados exemplos desse “mau jornalismo” na nossa imprensa. Até mesmo no ambiente acadêmico, apesar de todo esforço docente no sentido de destacar que a alma da profissão é a reportagem,  encontramos situações desanimadoras. Nem todos os alunos, ao serem pautados para uma matéria, mostram-se animados a ir a campo e fazer uma apuração profunda. Existem muitos estudantes que chegam ao curso achando que “ser jornalista” se resume a sentar-se em uma bancada de telejornal ou posicionar-se à frente de uma câmera e ficar emitindo opinião. 

Não que não exista o jornalismo opinativo, mas a apuração é o foco do nosso trabalho. São alunos que confundem jornalismo com “ser famoso”, olhando apenas para o lado glamuroso da área. E tanto que ao perguntar nas turmas de primeiro semestre quem são os repórteres que os recém-ingressos admiram, é muito mais comum ouvir nomes de grandes apresentadores e comentaristas de TV do que o de mestres da arte da reportagem como José Hamilton Ribeiro, Audálio Dantas, Ricardo Kotscho, Eliane Brum, André Caramante, Mauri König, Leonencio Nossa, Cristiane Segatto, entre tantos outros. 

Não são poucos os estudantes que optam pela entrevista por e-mail, por WhatsApp, Facebook ou telefone, mesmo tendo a chance de conversar presencialmente com a fonte (o que é essencial para observar “as entrelinhas” do entrevistado), ou por pegar aspas de um amigo ou conhecido (caminho mais fácil). Pior ainda os que fazem a terrível pergunta: “precisa mesmo entrevistar?”. Sim, eles existem! 

Em 2009, o jornalista Ricardo Kauffman produziu um documentário (“O Abraço Corporativo”) que expôs a chaga que é o jornalismo declaratório na nossa imprensa. Ele se fez passar por assessor de imprensa de um personagem inventado: Ary Itnem, um suposto consultor de RH, que estaria trazendo para o Brasil a “teoria do abraço corporativo”, uma técnica que consistia em promover o abraço no ambiente empresarial, para melhorar o clima entre os funcionários e, assim, a produtividade. Foi criado um press-release para divulgar esse personagem e os principais veículos da grande imprensa, dentre eles Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, Veja, CBN e TV Record, caíram na história, limitando-se a dar voz a Ary Itnem, sem investigar a origem de sua empresa (a tal “Companhia do Abraço Corporativo”). Detalhe: o site da suposta organização apresentava, propositalmente, uma série de inconsistências, e o registro no cartório deixava claro que a Companhia do Abraço Corporativo não existia. 

No trabalho de escrutínio jornalístico é preciso aliar diferentes técnicas, além da entrevista. Felizmente ainda há muitos repórteres com “R” maiúsculo que exercem um jornalismo responsável, e nem de longe confundem a apuração com o ato de dar aspas. Cruzam as informações vindas de diferentes tipos de fonte, consultam arquivos, documentos, observam in loco os fatos, analisam contradições, até descobrirem quem, de fato, está mais próximo da verdade. Que possamos valorizar o trabalho desses profissionais e desmascarar o jornalismo declaratório que se vende como investigativo.

Crédito:Acervo pessoal


*Patrícia Paixão é jornalista e professora do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, da Universidade Anhembi Morumbi e das Faculdades Integradas Rio Branco. É organizadora dos livros "Jornalismo Policial: Histórias de Quem Faz" (In House, 2010) e "Mestres da Reportagem" (In House, 2012). Também é responsável pelo blog Formando Focas.