“O mundo da comunicação”, por J. Roberto Whitaker Penteado na seção “Sinval Convida”

J. Roberto Whitaker Penteado | 17/03/2017 15:30



J. Roberto Whitaker Penteado por Sinval de Itacarambi Leão


Quem me apresentou aos vinhos da África do Sul, na Cidade do Cabo, foi o Prof. Whitaker Penteado. Entre uma taça e outra dos maravilhosos Pinot Noir, passamos as seis horas de espera numa escala para o Brasil.

Nessas poucas horas, aprendi sobre a rigorosa educação em escola suíça, quando seu pai, radialista, publicitário e diplomata, serviu na Europa. De fato ele foi preparado para ser um intelectual, pesquisador professor e jornalista.

A veia publicitária de seu pai determinou contudo a orientação de sua vida profissional: a publicidade. Trabalhou em agências no Rio, foi professor e diretor da ESPM- Escola Superior de Propaganda e Marketing, no Rio - e nos últimos cinco anos a presidiu nacionalmente, em São Paulo.

O jornalismo brasileiro deve a ele, a criação do curso de jornalismo da ESPM. Roberto Civita, tomou a iniciativa e a financiou como pessoa física. O professor Whitaker Penteado desenvolveu e implantou o projeto seguindo a tradição dos irmãos siameses de que, sempre ao lado de uma reportagem, há um anúncio. Primeiro, o curso de pós graduação em parceria com  a Columbia Journalism School, segundo, simultaneamente, a criação do curso de graduação reconhecido pelo MEC.

Quem faz, faz história.

José Roberto Whitaker Penteado Filho o fez. Viva!


O mundo da comunicação (Uma experiência pessoal), por J. Roberto Whitaker Penteado*


Em 2011, quando comemorávamos o 60º aniversário da ESPM, recebemos um pedido da Editora Cengage Learning para fazer uma revisão de um livro que haviam publicado em 1961, escrito por meu pai: A Técnica da Comunicação Humana. Isso acabou incluindo o festejo do cinquentenário do livro na celebração do aniversário da escola...
 
Não chego a afirmar que se tratem de dois marcos de importância equivalente, mas observo que convivo há algum tempo com a ciência ou arte da comunicação entre os seres humanos. E esse encontro de gerações faz parte dessa experiência pessoal.

Meu pai foi pioneiro no assunto, no Brasil, como estudioso e como professor. Nessa ótica, foi surpreendente e significativo para mim que me tenha dito, um dia, seriamente:

 - Filho, a comunicação entre as pessoas é impossível. 

Dez anos antes, em 2001, quando EU completava 60 anos de idade, resolvi escrever um dos artigos mais ambiciosos da vida. Decidi simplesmente por no papel, então, algumas conclusões pessoais sobre quais seriam os principais problemas da humanidade. 

Escrevi: a grande maioria dos problemas da humanidade são de comunicação. O que vira, e continuava vendo, era que praticamente todos os conflitos se originavam de percepções diferentes da realidade e de uma impossibilidade, que parecia inata, dos conflituosos apreenderem visões recíprocas, aparentemente antagônicas, porém quase sempre defensáveis. Pensava, teorizando: se os transmissores se preocuparem mais com a capacidade de entendimento dos receptores e - ambos - com os contextos em que as mensagens são transmitidas, será dado um passo importante na direção da compreensão universal.

Depois, sob a influência, principalmente de Eça de Queiroz - mas também de Leibnitz, o filósofo – escrevi: os demais problemas da humanidade, que não se inserem na primeira conclusão, são devidos a má interpretação individual do que sejam causa e efeito. De fato, na elaboração das opiniões, a tendência quase geral é de absorver como verdades os fatos que se ajustem às opiniões próprias, já interiorizadas, sem questionamento crítico. O que seria, então, a principal razão para um fenômeno observável todos os dias: as pessoas não mudam.

Mas ainda faltava alguma coisa. Ainda que essas duas constatações "fechassem", de certa forma, a questão, e levassem à conclusão racional de que (1) as pessoas podem comunicar-se melhor e (2) serem mais competentemente lúcidas ao observar a realidade - será que isso responderia ao questionamento humano? E, principalmente, poderia resolver os problemas da humanidade?

A terceira condição chegou como o famoso “estalo” do padre Vieira. Talvez tenha sido, igualmente, instrumento e vítima da tal da pós-modernidade, no impeto de antepor alguma coisa ao aparentemente falido racionalismo que a era iluminista criara. 

Mais certamente ainda, foram coisas como a arte, a sensibilidade - compartilhadas com os seres e objetos que povoaram  o  meu afeto - que me propuseram a chave: o importante é o sonho.

*Jornalista e professor.


Na seção "Sinval Convida", o diretor de IMPRENSA convida profissionais renomados para escreverem artigos sobre e para o trade de Comunicação. Leia também as colunas de Nemércio NogueiraMíriam LeitãoSérgio CarvalhoFrei Betto, Ricardo KotschoJosé NêumanneZé HamiltonRicardo NoblatOtto SarkisEugênio Bucci  Eloi ZanettiJosé Maria dos SantosSilvestre Gorgulho, Janine Saponara, Marcelo MolnarEliane Cantanhêde e Armando Ferrentini.