O império da responsabilidade, por Armando Ferrentini na seção “Sinval Convida”

Armando Ferrentini* | 10/03/2017 15:53


Armando Ferrentini por Sinval de Itacarambi Leão

Quem quiser conhecer, em detalhes, a publicidade brasileira, da década de 1960 aos dias de hoje, terá de falar com Armando Ferrentini.

Advogado, jornalista e publicitário, Ferrentini é um arquivo vivo da propaganda e do trade de comunicação no Brasil.

Primeiro, ele lhe mostrará com orgulho merecido, na redação da Editora Referência, a coleção completa do jornal Propmark, encadernada e no lugar de honra da sala. Repare em sua datação: ANO 52 / nº 2635. Filha legítima e bela.

Pessoalmente não só reviverá detalhes fantásticos das reportagens e  matérias jornalísticas, como terá estórias de publicitários, anunciantes e de profissionais da área da propaganda e conexos. Depois conversando com Ferrentini, irá reconstituir mais informações desses protagonistas registrados, sejam empresas anunciantes ou de comunicação, grandes empresários, donos de agências, profissionais de mídia, criação ou atendimento de todo o Brasil. Memória invejável e viagem  maravilhosa.

A coisa que mais impressiona no Armando é seu discurso sem filigranas e com clareza cartesiana. Seu tom de voz lembra, pelo  timbre e ritmo, os italianos que nasceram e foram criados na Paulistéia, no século passado. Quer vê-lo feliz, puxe conversa sobre os “oriundi” da colônia italiana de S. Paulo.

Na biografia de Armando, o lado empreendedor ocupa lugar proeminente. Além do Propmark adquiriu a revista Propaganda, criada em 1957, no 1º Congresso Brasileiro de Propaganda , fundou a revista de Marketing e joia da coroa, criou o Prêmio Colunista, o mais antigo galardão da propaganda brasileira, editado sem interrupção desde 1967.

Cumpre, por último, enfatizar o Ferrentini escritor e redator-chefe. Seus editoriais são a mostra de um guerreiro por causas e ideais que fizeram da propaganda brasileira uma das mais importantes e proativas do mundo. Atualmente, é presidente do Conselho da ESPM- Escola Superior de Propaganda e Marketing. Enfim, um artista no terroir das duas atividades que mais ama e domina.


O império da responsabilidade, por Armando Ferrentini 


Em uma democracia plena, deve-se valorizar sempre o livre arbítrio de cada cidadão, desde que respeitados os casos de exceção dos legalmente incapazes.

Lembro-me bem de uma das muitas magníficas aulas de Direito Penal ministradas à nossa turma pelo emérito e saudoso catedrático Edgard de Magalhães Noronha.

Como bom professor da disciplina, lembrava que a maior pena do Código era reservada ao homicídio, ressalvando para admiração dos seus jovens alunos, que o Código Penal não proibia matar alguém, como também deixava de proibir os demais delitos capitulados ao longo de todo o seu enunciado.

Ele se limitava a penalizar seus autores, observadas as circunstâncias e respeitados os ritos que cada crime praticado exigia dos eméritos julgadores.

Fui a esse limite do livre arbítrio humano, procurando demonstrar a importância de se viver sob o império da responsabilidade, que imediatamente nos remete ao democrático preceito de que somos todos iguais perante a lei, salvo as exceções que ela contempla e que podem penalizar mais fortemente determinados indivíduos e com atenuantes outros.

Estas considerações vem uma vez mais a propósito de uma discussão sempre em pauta em nosso país, onde as instituições sofrem diversas influências, principalmente do ponto de vista político, provocando não raro contrariedades no princípio da igualdade dos cidadãos perante a lei.

O tema dessa discussão interessa a todos os cidadãos envolvidos de alguma forma nos segmentos da comunicação, estendendo-se esse interesse inclusive ao público ao qual é dirigida a mensagem.

Refiro-me aqui à liberdade de expressão, sempre um ponto fácil de ser empurrado para fora da curva, quando analisado por quem se sentiu ofendido pelo emissor. E, no caso deste, sempre uma alegação que se repete e que remete ao sagrado direito da liberdade de expressão.

Resta saber a quem deverá ser debitado o excesso, caso a questão se transforme em lide. As leis, os julgados e todo o aparato judicial servirão de argumentos das partes para se concluir se houve o ilícito.

Todos sabemos, os que militam na comunicação, e por experiência própria ou de terceiros muito chegados a nós, a dor de cabeça que proporciona uma questão forense. Em um passado não muito distante em nosso país, por falta de uma legislação mais eficaz e principalmente pela ausência ou ainda pouca existência de grandes julgados, era comum o abuso, chegando a invadir o campo da ofensa, proporcionando ora a injúria, ora a difamação, ora até a calúnia.

Como também era comum alguém exagerar ao se sentir ofendido, sendo por isso repelido pelos tribunais.

Com o avanço da legislação e das nossas próprias fontes de Direito emanadas das Cortes de Justiça, além da própria conscientização sobre o certo e o errado que aumenta a cada geração que chega, são menos frequentes os exageros de parte a parte.

Entendo, como jornalista de um setor da economia extremamente inteligente e ao mesmo tempo delicado, que sempre se deve observar no manejo das palavras, principalmente quando críticas, o que nos aconselha o nosso próprio livre arbítrio.

Cabe aqui lembrar, agora adaptada aos crimes contra a honra, a grande e simples lição enunciada pelo mestre Magalhães de Noronha: a legislação e as demais fontes do Direito não proíbem ninguém de ofender alguém. Mas, o Império da Responsabilidade estabelece os nossos limites.


*Armando Ferrentini, empresário, jornalista e bacharel em Direito, é diretor-presidente da Editora Referência Ltda. e presidente do Conselho Deliberativo da ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing. Preside também a ABRACOMP – Associação Brasileira dos Colunistas de Marketing e Propaganda. Faz parte do Conselho de Comunicação do Prefeito João Doria (SP). 

Na seção "Sinval Convida", o diretor de IMPRENSA convida profissionais renomados para escreverem artigos sobre e para o trade de Comunicação. Leia também as colunas de Nemércio NogueiraMíriam LeitãoSérgio CarvalhoFrei Betto, Ricardo KotschoJosé NêumanneZé HamiltonRicardo NoblatOtto SarkisEugênio Bucci  Eloi ZanettiJosé Maria dos Santos e Silvestre Gorgulho.