O problema de sempre, por Gabriel Priolli

Gabriel Priolli | 23/09/2016 03:00


"A imprensa está mais preocupada em defender interesses de pessoas e grupos do que em informar. E, para isso, distorce os fatos, altera a notícia".  Foi com estas duas frases que começou a reportagem de capa do primeiro número de IMPRENSA, em setembro de  1987. Sob os títulos "Perdemos a Credibilidade" (na capa) e "Credibilidade em Xeque" (no miolo), o texto repercutia uma pesquisa Gallup realizada no mês anterior, na Grande São Paulo.

Nada menos que 64% dos entrevistados julgavam que os jornais defendiam interesses, enquanto apenas 28% achavam que eles prestavam informações. A proporção mostrou-se igualmente desfavorável na avaliação das revistas (51% contra 28%) e da televisão (53% a 39%). Ela só se inverteu - ou, a rigor, apresentou equivalência - no rádio (42% a 44%).

A fidedignidade das informações prestadas pela imprensa também teve avaliação desastrosa. 83% dos paulistas opinaram que os jornais publicavam fatos distorcidos - sempre ou algumas vezes. Para a TV, o índice foi de 67%. As revistas obtiveram 65% e o rádio, 61%. 

Eu entrei para o time da revista quando esse primeiro número estava na gráfica e fiquei surpreso quando li depois a reportagem. Como todos os jornalistas brasileiros, estava acostumado com uma certa "aura" que envolvia a profissão, tida como corajosa e heroica na resistência à ditadura, e essencial para a transição democrática. Várias vezes, ao fazer reportagens banais denunciando problemas ou cobrando direitos das pessoas, eu mesmo recebi esse tratamento de herói, muito gratificante. Era estranho que a nossa credibilidade estivesse em queda tão acentuada.

Quase trinta anos depois, não é sem um enorme desalento que testemunho a atualidade das frases de 1987. Mais do que nunca, a imprensa está antes preocupada em defender interesses de pessoas e grupos do que em informar. E nem é necessário fazer pesquisa para ouvir que ela distorce os fatos. 

Milhões de pessoas fazem essa exata crítica, diuturnamente, nas redes sociais. Dizem mais: que a imprensa exerce o poder de facto no Brasil, coagindo todos os outros poderes, e que é a principal responsável pela criação do clima político que levou ao impeachment de Dilma Rousseff e envenena de ódio as relações sociais.

De alicerce da reconstrução democrática no Brasil a instrumento para um golpe contra a soberania do voto, esse não é um percurso exatamente bonito da grande imprensa brasileira. Mas a autocrítica que costuma cobrar dos políticos, ela própria não exerce. 

Atribui as dificuldades de mercado que enfrenta tão somente às mutações no ambiente tecnológico, com o avanço da internet e a pulverização das atenções do público. Recusa-se a aceitar que perde consumidores aceleradamente, do centro à esquerda do espectro político, porque abandonou qualquer pretensão de noticiar de forma isenta, convertendo-se em veículo de propaganda de teses conservadoras e de apologia de gente reacionária.

Dentro de mais 30 anos, que avaliação a imprensa merecerá? Se o histórico dá uma pista confiável, mais uma vez o julgamento não será auspicioso, muito menos lisonjeiro. Há coisas que só mudam para ficar sempre como são.


Crédito:divulgação


Gabriel Priolli
foi editor executivo e diretor de redação de IMPRENSA entre 1987 e 1991. Hoje é produtor independente de TV e consultor em comunicação política.