Míriam Leitão fala sobre jornalismo de explicação na seção "Sinval Convida"

Míriam Leitão | 16/09/2016 15:00


Míriam Leitão por Sinval de Itacarambi Leão


"Míriam Leitão sempre foi estrela na redação da Revista IMPRENSA. Ainda hoje, amiga da primeira hora do projeto. Pessoalmente, a conheci apenas em 1994, no sétimo ano da revista em um evento em São Paulo. Fui a Congonhas buscá-la em uma manhã fria. Do mezanino do aeroporto, vi descer do Electra da ponte aérea uma elegante mulher, vestida com manteau branco que lhe caia perfeito. Quando nos identificamos no hall de chegada, a moça do manteau branco era Míriam Leitão.

No "Troféu Mulher IMPRENSA", foi vencedora nove vezes em várias categorias e, agora hors concours, é uma das madrinhas do prêmio. Além da redação, nesses últimos 16 anos, Míriam tem produzido muito como jornalista multimídia. Vale ressaltar dois clássicos brasileiros contemporâneos: “Saga Brasileira, A Longa Luta do Povo Por Sua Moeda” (2011, vencedor do Prêmio Jabuti) e “História Do Futuro, O Brasil no Século XXI”, um livro sebástico sem sebastianismos. Um roteiro de como o Brasil precisa se preparar para 2050. Míriam ainda tem tempo de navegar na ficção, do livro infantil ao romance. Quem não leu “Tempos Extremos” (2015) está perdendo. Nele, prova a tese que pode existir realismo mágico entre senzalas coloniais, porões da ditadura militar e redações pós-modernas. Vale conferir!", Sinval de Itacarambi Leão

O valor do jornalismo de explicação, por Míriam Leitão


Repassava com  Mariana minha neta de 10 anos rapidamente os principais tópicos do que ela havia estudado para a prova de História, o período Imperial. Ela e meu neto Daniel, de 6 anos, se preparavam para sair para a escola. 
– Mas por que D. Pedro II teve que começar a governar com 14 anos? - perguntou Daniel.
– Ah, por que o Brasil estava uma confusão e tiveram, então, que antecipar a hora - resumi.
– É, mas o Brasil está uma confusão até hoje - concluiu Daniel.

Esse diálogo aconteceu minutos antes de eu começar a escrever este artigo para o "Sinval Convida" e me inspirou: decidi falar do jornalismo de explicação ao qual tenho me dedicado. O que é valorizado é o jornalismo de opinião, mas o que o sustenta é o esforço de entender e explicar para o leitor, ouvinte, telespectador, internauta, a natureza de cada fato, evento, fenômeno. Nenhuma opinião boa nasce sem que haja um esforço do articulista de entender a parte técnica.  

Foi assim na longa luta contra a inflação. Os jornalistas de economia tiveram que aprender como se formavam os índices de preços, e estudar as várias teorias anti-inflacionárias para, desta forma, poder dizer se a inflação iria subir ou não ou se um plano econômico iria dar certo. Há temas de uma aridez absoluta, como a reforma da previdência, mas sem um estudo detalhado das mudanças demográficas brasileiras, não dá para fazer qualquer avaliação sobre o assunto.

O leitor desta coluna pode estar se perguntando, o que tem a história dos meus netos a ver com isso? É que, na minha opinião, o bom jornalismo de explicação não é aquele que tenta convencer alguém de alguma coisa, mas o que dá os elementos para que qualquer pessoa possa chegar à sua conclusão, que pode até ser oposta à do comentarista ou colunista. Assim, como o Daniel. Do que eu expliquei, brevemente , ele entendeu que a confusão do Brasil vem de longe.

Explanatory journalism nos Estados Unidos é tão valorizado que tem um prêmio específico para o gênero no Pulitzer. E neste confuso Brasil dos meus netos explicar é cada vez mais importante. Não é que um jornalista que vá escrever sobre um tema obscuro não deva dar sua opinião, mas ela fica melhor se estiver sobre uma bases de dados. Há, no debate brasileiro, muito ruído ideológico de um lado e de outro de grupos mais preocupados em gritar suas certezas. Mas o que ajudará o país a sair de todas as suas confusões não será a guerra de torcidas, mas sim o paciente trabalho de entender as complexidades para dar elementos para o debate de qualidade no país.