Nemércio Nogueira, do Instituto Vladimir Herzog, estreia a seção "Sinval Convida"

Nemércio Nogueira | 09/09/2016 14:00


Nemércio por Sinval de Itacarambi Leão


"Nemércio Nogueira é amigo da revista IMPRENSA desde a primeira hora. Começou sua carreira no Estadão e, em 1963, trabalhou na BBC, em Londres, onde ficou três anos. Foi por duas vezes diretor de comunicação da ALCOA e durante o intervalo, por dez anos, comandou sua empresa, a RP Consult, onde atendeu inúmeros clientes corporativos. Hoje é diretor do Instituto Vladimir Herzog, esse com quem conviveu na BBC. Quando na Alcoa, pela segunda vez, patrocinou dois memoráveis "Encontros de Jornalismo Regional", o primeiro em Belém (2007)  e o segundo em São Luís do Maranhão (2008), que tinham os sugestivos títulos: "Sua aldeia no Planeta" e "Descubra o que Nova York e São Luís têm em comum". Campeão!, Sinval de Itacarambi Leão

Não mereço tanto, por Nemércio Nogueira

Ser o primeiro convidado do querido Sinval para comparecer neste espaço nobre da IMPRENSA é uma honra, claro, mas seguramente há uma enorme quantidade de nomes do jornalismo e da comunicação que mereceriam muito mais esta distinção.

Por isso procurarei aqui, mais que falar de mim, homenagear todos, nos nomes de alguns deles.

Elio Gaspari, por exemplo. Acabo de ler "A Ditadura Encurralada", o quarto tomo da sua monumental obra sobre o regime que civis e militares implantaram entre nós em 1964. Quando saíram os primeiros volumes, dei-os de presente a meus dois filhos, que pouco sabiam sobre aquela época em que fazer jornalismo era um exercício insalubre e diário de tentar empurrar para três a parede da censura, mesmo sem conseguir derrubá-la, que era impossível.

Em pleno “ano que não acabou” de 1968, produzindo e apresentando o Repórter Esso de TV, lembro-me de ter ficado muito orgulhoso por ter conseguido driblá-la para filmar e noticiar o lançamento de um livro daquele “perigoso agitador comunista” Celso Furtado...imagine!

Quem passou anos esgrimindo seu talento contra a censura e também emprestaria a este espaço muito mais brilho que eu é Alberto Dines. Não contente em ser grande jornalista, professor, autor respeitado de 15 livros e pioneiro na crítica de mídia no Brasil, criou o Observatório da Imprensa, que institucionalizou e meio que perenizou de forma eloquente essa atividade por aqui.

Fernando Pacheco Jordão é outro que daria a este privilegiado espaço muito mais brilho que eu. Jornalista, radialista, criador e diretor de notáveis programas de televisão, entre os quais "Hora da Notícia", na TV Cultura, que tive a honra de apresentar desde a estreia – e principalmente meu querido amigo de mais de meio século, desde quando éramos copy-desks no Estadão e íamos juntos assistir a filmes na sessão da meia-noite, aos sábados, quando conseguíamos fechar o jornal mais cedo – Fernando talvez seja a pessoa mais generosa e boa que eu conheço. Sem contar o texto cintilante e bem-humorado, o companheirismo.

Essa lealdade, aliás, ficou patente quando publicou o livro "Dossiê Herzog – Prisão, Tortura e Morte no Brasil", logo após o assassinato do Vlado, a corajosa primeira e melhor obra sobre esse episódio tenebroso da História do País e da nossa história pessoal e profissional. Os anos que Fernando, Vlado e eu passamos juntos em Londres, trabalhando na BBC – e tendo nossos filhos – foram uma vivência inesquecível que nos marcou a todos.

Por falar no Vlado, outro nome que mereceria muito estar neste primeiro Sinval Convida é Audálio Dantas, que, com Fernando e outros, sob a inspiração de D. Paulo Evaristo Arns, liderou o Sindicato dos Jornalistas na denúncia da tortura e do assassinato, enfrentando com serenidade e sabedoria todas as pressões da ditadura.

Autor de vários livros muito admirados e premiados – sendo o mais recente "As Duas Guerras de Vlado Herzog" – Audálio dedicou sua vida ao jornalismo e até hoje, cidadão que é, continua presente e atuante em entidades profissionais e eventos pela liberdade de expressão e pela democracia.

E que dizer de Mino Carta? Poeta do jornalismo e pintor, o homem criou e dirigiu algumas das mais importantes publicações do Brasil e sempre se notabilizou por posições invariavelmente independentes e valentes, que ele promove e defende com ações e atitudes concretas, além de palavras e frases bem construídas e originais, organizadas num estilo em que sua marcante personalidade encanta os amigos e incomoda muito os criticados.

Tantos outros, meu deus, deveriam inaugurar este espaço em meu lugar, com muitíssimo mais merecimento. Alguns, apenas: José Hamilton Ribeiro, Jô Soares, Eliane Cantanhêde, Ricardo Kotscho, Sérgio Gomes, Dorrit Harazim, Clóvis Rossi, Ricardo Setti, Miriam Leitão... dezenas de colegas, companheiros, amigos de muitos anos, exemplos de talento, integridade, dedicação e valores.

De Lucio Flávio Pinto no Pará a Mauri König e Elmar Bones nos estados do Sul. E sem esquecer o Sinval, dono deste espaço, que, não tivera Leão como orgulhoso sobrenome, seria esse seu cognome por conquista, pelo esforço pessoal que dedica à IMPRENSA que fundou há quase três  décadas e mantém com sacrifício até hoje, arrostando chuvas e tempestades.

Mas como coube a mim ocupar este espaço na estréia, espero tê-lo feito da forma melhor e mais justa possível, prestando homenagem pessoal e profissional a todos eles – os que felizmente estão entre nós e os que já se foram, como Cláudio Abramo, com quem aprendi quase tudo o que sei sobre ser jornalista e sobre fazer jornalismo.