Livro "O Martelo dos Deuses", de Felipe Machado, tem origem da violência como tema principal

Marina Dias/Redação Portal IMPRENSA | 23/11/2007 16:52

Uma trama perturbadora, que avança em áreas como a psicologia e o comportamento humano, seria uma boa definição para "O Martelo dos Deuses", novo romance escrito pelo jornalista Felipe Machado. Entretanto, a complexidade de seus personagens e uma narrativa em que um deles encontra, no ato de matar, uma maneira excêntrica para melhorar o mundo transformam essa história em uma atmosfera mais ampla, que aborda um tema explosivo e extremamente atual: a origem da violência.

Machado é Editor de Multimídia de O Estado de S.Paulo e assina um blog sobre comportamento no portal do jornal. Além disso, escreve uma coluna semanal, "Palavra de Homem", publicada aos domingos no Jornal da Tarde e é guitarrista da banda Viper. Nesta sexta-feira (23), ele falou ao Portal IMPRENSA sobre seu novo livro e a relação dele com seus outros trabalhos, esclarecendo dúvidas que vão desde a influência do jornalismo na sua escrita até a construção psicológica de seus personagens.

IMPRENSA - O seu blog sobre comportamento te inspirou ao escolher o tema do seu novo livro?

Felipe Machado - Na verdade, não. Além de um outro formato, o blog trata de temas bem mais leves e relativos ao comportamento masculino/feminino. Esta é a proposta de 'Palavra de Homem'. No livro, eu posso abordar temas e narrativas mais complexas e também experimentar um pouco mais em termos de linguagem. O blog é pura diversão, escrevo rapidinho e tenho a resposta dos leitores quase imediatamente. O livro leva tempo, cria uma ligação mais sólida, até de confiança entre escritor e leitor e a resposta também leva mais tempo para chegar.

IMPRENSA - Por que falar de violência, algo geralmente tão explorado nas discussões atuais?

Machado - Tentei abordar o assunto de maneira um pouco diferente, mas falar de violência não foi algo que eu planejei. O livro não é sobre violência, a violência é apenas um instrumento que o personagem usa para punir as pessoas. Acho que o livro fala mais sobre justiça, livre arbítrio, vingança... Vários temas interligados e complementares. Não é apenas porque a violência está presente que o livro se aproxima de 'Tropa de Elite', por exemplo, ou qualquer outra história parecida. O fato de o público aplaudir a tortura de um traficante teria mais a ver com a minha história. Matar pessoas más com extrema violência é uma maneira de puni-las com rigor, até para levantar o imenso abismo entre a justiça dos tribunais e a justiça divina - inclusive quando é feita pelas mãos do homem.

IMPRENSA - Há alguma influência do jornalismo em seus livros?

Machado - Não, a técnica jornalística é mais objetiva e imparcial. No livro, eu posso escrever com total liberdade, usando o tipo de linguagem que eu quiser - até porque não tenho obrigação de ser um best-seller ou agradar o mercado. O jornalismo é trabalho, a literatura é hobby. Claro que o ato de escrever faz com que as duas ações sejam muito parecidas, mas na prática acho que o jornalismo só entra um pouco na parte de análise da realidade para começar a criar o cenário da ficção.

IMPRENSA - Como surgiu a idéia de criar um personagem que tem uma maneira tão excêntrica de melhorar o mundo?

Machado - Não sei, acho que de uma observação da realidade no Brasil. O livro não tenta passar nenhuma mensagem, nem pretende dar respostas fáceis, pelo menos não intencionalmente. Acho que a impunidade e falta de justiça verdadeira, no sentido literal do termo, devem ter tido alguma influência - embora para mim seja difícil apontar qual. As histórias nascem de algum lugar, adoraria descobrir de onde...

IMPRENSA - Como você lida com a construção psicológica de seus personagens? Há alguma inspiração real?

Machado - No meu primeiro livro, 'Olhos Cor de Chuva', as referências pessoais eram mais claras, embora o livro também seja de ficção. Dizem que o primeiro livro é sempre meio autobiográfico; concordo em parte com isso, porque é preciso buscar as imagens e palavras em algum lugar conhecido, familiar. Em 'O Martelo dos Deuses', não há nada de real. São personagens totalmente originais, sem influência de pessoas reais. Claro que alguma influência ou outra pode acabar marcando algum traço psicológico de um ou outro personagem, mas totalmente sem intenção. A construção psicológica segue a lógica da vida, da personalidade que procuro atribuir a cada personagem. Também não é planejado, gosto de deixar os próprios personagens 'se criarem'. Pergunto a mim mesmo como tal pessoa, se existisse, reagiria a determinada situação, e a partir daí sigo em frente. Acho que isso faz os personagens serem mais verdadeiros e únicos.

Serviço:

Nome: "O Martelo dos Deuses"

Editora: Arte Paubrasil

Preço de capa: R$ 25