O reverso da medalha, por Anderson Gurgel

Prisão do ex-presidente da CBF, José Maria Marin, e de outros dirigentes da Fifa, na Suíça, às vésperas do congresso que define o mandatário da entidade no próximos anos, expõe a corrupção em torno do esporte mais popular do planeta.

Anderson Gurgel | 27/05/2015 17:15
O “País do Futebol” acordou perplexo com as notícias que chegavam da Europa. Primeiras notícias indicavam que, no dia 27 de maio, às vésperas do congresso da Fifa que provavelmente reconduziria Joseph Blatter à presidência da entidade, alguns de seus mais proeminentes dirigentes foram presos por uma ação da polícia suíça em conjunto com o FBI, dos EUA. 

O fato, ainda muito recente, carecerá de melhores interpretações, com a divulgação de mais informações. Contudo, a prisão de dirigentes "de peso" da Fifa mostra que o futebol não conseguirá mais fugir à complexidade do atual sistema capitalista. 

Se ao mesmo tempo, chegamos a isso – ou seja, ao negócio bilionário, mas cheio de escândalos e suspeitas – foi justamente por causa da forma altamente mercantilizada com que os cartolas tratam o futebol. O esporte número 1 do mundo tornou-se uma indústria de mais de 250 bilhões de dólares. Uma máquina de gerar fortunas alimentada pela paixão de bilhões de pessoas mundo afora. 

Contudo, esse mesmo sistema capitalista passa, do ponto de vista amplo, por mudanças radicais. Em primeiro lugar, ele não está mais tolerando os modelos "tradicionais" de gestão dos clubes e entidades esportivas: sem transparência, patrimonialista e exuberantemente permeável a múltiplas formas de corrupção. 

Sucessivos escândalos e crises no mundo corporativo e financeiro, levaram os EUA e o mercado global a buscar mecanismos mais transparentes para a gestão. E, na contraparte, formas de punir com mais rigor ingerências e corrupção. 

O que vemos agora é que o futebol, que tanto se beneficia da parceria com empresas, não vai mais conseguir manter-se alheio a esse contexto, se quer continuar se beneficiando dos fluxos bilionários de recursos que chegam a sua porta. É o outro lado da moeda.  

O processo que levou vários dirigentes da Fifa à prisão para esclarecimentos e investigações, teve relação com delações premiadas de vários executivos de empresa de interface entre o futebol e o mercado. O principal deles, J. Hawilla, brasileiro, fez acordo com a justiça americana para revelar processos de corrupção em negócios envolvendo eventos esportivos, em troca de redução da pena. Além das denúncias, o empresário brasileiro assumiu o acordo de pagar uma multa milionária aos tribunais americanos. 

Apesar de ser o início de uma investigação e ainda sem certeza de culpas e de eventuais punições, a notícia do dia é um fato que dá esperança. Sim, é algo que pode ser visto como positivo, pois mexe com a estrutura atual do futebol mundial e mostra que o modelo precisa de mudanças urgentes. 

A diferença do fato atual em relação aos sucessivos escândalos que já vinham sendo feitos ao Sistema Fifa e parceiros é que, desta vez, as denúncias levaram a um processo nos EUA com a aplicação das atuais e bem rigorosas leis anticorrupção de lá. Isso realmente é um fato novo e pode gerar desdobramentos surpreendentes nos próximos dias.
 
É importante lembrar a pressão sobre a Fifa vem num crescendo há bastante tempo. A entidade saiu do Brasil com a imagem extremamente arranhada, pois a gestão da Copa de 2014 só foi benéfica para ela. O Brasil ficou com a conta para pagar. Os protestos não perdoaram a entidade.
 
Em nível internacional, a péssima imagem acentuou-se com a definição de Rússia e Catar para as Copas de 2018 e 2022. Há inúmeras suspeitas de irregularidades nessas escolhas. Pode ser que isso entre novamente no foco das discussões.
 
Sobre o Catar, ainda, a Fifa vem sofrendo grande pressão dos seus parceiros e patrocinadores por causa das denúncias envolvendo trabalho escravo e mortes no processo de preparação das arenas. Visa, Coca-Cola e Adidas estão seriamente preocupadas e já vinham pressionando a entidade. As marcas sabem que, no mundo de hoje, há corresponsabilidade e que os escândalos "colam" nas marcas-parceiras também.
 
Em resumo, as notícias que deixaram o mundo do futebol perplexo – e também esperançoso – podem configurar em uma "tempestade perfeita". É cedo para falar com propriedade sobre, mas o que se iniciou no fim de maio de 2015 foi a abertura de uma “caixa de pandora”, o que sairá dela ainda é incerto.

Ainda que os dirigentes neguem, tudo o que está acontecendo levaram o modelo da entidade máxima do futebol "ao chão". A ver como (e se) a entidade conseguirá sair desse escândalo. Acho que dificilmente isso acontecerá sem perdas, ao menos do ponto de vista da imagem pública, para a Fifa. 

Um jogo inesperado e emocionante está sendo travado e envolve um futuro melhor para futebol brasileiro e mundial. 


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