O (agri)doce esporte de ser jornalista, por Anderson Gurgel

A passagem de mais um Dia do Jornalista (7 de Abril) permite fazer uma profunda reflexão. O fechamento do caderno de esportes do tradicional Estadão escancara a necessidade de se pensar o novo jogo a ser travado pelos profissionais da área.

Redação Portal IMPRENSA | 08/04/2015 12:15
Digo sempre, em conversas com alunos e colegas de profissão, que fiz uma escolha de vida muito pouco salutar: misturei jornalismo com docência e, nessas duas práticas, tenho particular dedicação ao mundo esportivo. Não há dúvidas da importância desses três grandes temas/práticas para vida na sociedade contemporânea, diria mais: seria possível vivermos melhor sem eles? Acho que não. 

Contudo, ainda assim, não há quem negue que a educação e o jornalismo vivem enormes crises – apesar de serem práticas centrais em uma sociedade civilizada e formadora de novos cidadãos. Se quisermos completar tripé, o esporte, como uma solução social fundamental para o processo civilizatório também vive lá seus dias de turbulência, principalmente no Brasil. (Sim, o “7 a 1” da Copa do Mundo é um excelente símbolo do nosso momento!)

A reflexão acima me ocorre como fruto da combinação dos “festejos” do Dia do Jornalista deste ano com a coincidência cronológica de essa data ser lembrada enquanto o jornal “O Estado de S.Paulo” (OESP) anunciava, em mais um dos seus processos de demissão e reengenharia financeira, o fechamento do seu caderno de esportes.

É difícil para um profissional que mescla jornalismo com ensino e, por isso, passa parte da semana lecionando jornalismo esportivo, assimilar essa informação. Agrava o caso o fato de que, longe de ser um ato isolado, o corte do velho “Estadão” está em sintonia com o processo de redução que vive toda a mídia impressa. Afinal, quem ainda lê notícia em papel?

Daí a sensação “agridoce” a que me refiro. Algo que surge entre o doce de fazer o que me deixa feliz e do azedo de vivenciar um momento de tão intensas rupturas, com enormes injustiças e perdas que vão se dando ao longo do caminho. Contudo, ainda que o pesar e a tristeza sejam fortes, não perco a esperança. 

Por isso o “doce” ainda se mescla ao azedume das más notícias. Há algo de quixotesco em ser jornalista com um pé na notícia da rua e outro na academia. 

Ou diria diferente: para quem lida há tanto tempo com o esporte, sei que o ato de fazer jornalismo esportivo e de militar por uma nova gestão do esporte e da comunicação esportiva, a despeito de todas as dificuldades estruturais que vivemos, se coloca com um “novo esporte”: 

- O esporte de acreditar que a comunicação pode ajudar a melhorar O Esporte e, por consquência, A Sociedade. 

- O esporte de não desistir do jogo de militar por um ambiente esportivo melhor no Brasil. 

- O esporte de não desistir de lutar por uma educação que contribua para um país melhor. 

Por isso, acredito e pratico o esporte de acreditar que o jornalismo é um elo entre Esporte-Educação e um novo Brasil. 

O (quase-)fechamento de um jornal, no caso do Estadão, já que a descaracterização é uma forma de perda de importância, é brutal. E entristece quem acredita no jornalismo. 

A descontinuidade do caderno de esportes de OESP, a pouco mais de um ano para a Olimpíada Rio 2016, é um golpe duro. Para quem ama jornalismo esportivo, o ciclo da Copa de 2014 e dos Jogos Olímpicos do ano que vem deveria ser um período glorioso. O baque é forte, como um gol-contra no começo de um jogo. 

Entretanto, o jogo continua sendo jogado. Por isso julgo que o momento do mercado jornalístico é bastante adverso, pois temos uma crise dos meios tradicionais, com muitas demissões e fechamentos de veículos. Por outro lado há muitas novidades em termos tecnológicos e, como poucas vezes antes, o jornalismo tornou-se ainda mais imprescindível para entender a sociedade e o homem contemporâneo. 

Não sou bom para fazer previsões, mas algumas pistas já se colocam sobre novos lances desse esporte que é fazer jornalismo – e, no meu caso, jornalismo esportivo. A ver que cresce o interesse e espectro de trabalho com redes sociais, surgem espaços para se trabalhar como youtuber, blogueiro, etc. Por outro lado, há muitos espaços em ascensão, como na área de eventos, entretenimento, educação, audiovisual e tecnologia. 

Enfim, como uma pensata final, deixo a seguinte questão: apesar da crise que atinge o jornalismo tradicional, principalmente o impresso, há muitos jovens interessados em enveredar pelo mundo “agridoce” da prática jornalística. 

Já sabemos de antemão que a Geração Y não é adepta da leitura de impressos e também não é consumidora contumaz de TV aberta. A crise do impresso prenuncia da televisão aberta e de modelo tradicional, com grande audiência e produtos massivos. 

Sendo assim, o que faz esse jovem querer ser jornalista? Talvez os jovens estejam vendo algo que os profissionais já veteranos não estão enxergando na profissão. Se essa minha aposta estiver correta, o segredo então seria seguir as pistas deixadas por eles. Acho que a nova geração é quem dirá para onde o jornalismo está indo, quais serão as novas jogadas, novas formas de se atender as demandas da sociedade. E tem muita gente já fazendo isso por aí...

Os novos jornalistas, visceralmente conectados, serão os novos jogadores desse esporte que é fazer jornalismo. Com jogadas ainda pouco previsíveis poderão virar o jogo e dar um novo sentido à profissão, revalidando-a no seu papel de contribuir para a promoção da cidadania. 


Para ler mais textos do colunista, clique aqui.