A diferença entre a pequena política e a política pequena, por Anderson Gurgel

O episódio envolvendo uma susposta intenção do deputado Andrés Sanchez de aprovar uma lei instituindo o Dia do Corinthians mostra que algo vai muito mal no nosso debate político seja em prol do esporte ou da nossa vida cotidiana.

Redação Portal IMPRENSA | 04/03/2015 19:30
É difícil imaginar que mesmo a maior parte dos corintianos fanáticos seja a favor de que, no contexto que vivemos atualmente, a primeira decisão de um deputado recém-empossado, em um congresso que vive um momento de grande turbulência política, seja a de apresentar um projeto de lei de relevância tão discutida.

Pois foi isso justamente que acabou acontecendo no fim de fevereiro, quando o deputado Andrés Sanchez (PT-SP) deu entrada em um projeto de lei propondo a criação do “Dia do Corinthians”. Obviamente, a má repercussão da ideia fez com que o congressista revisse sua ideia, arquivando o projeto. 

Inegavelmente, contudo, o episódio permite uma breve reflexão sobre a diferença entre a política pequena e a pequena política. O problema, ao meu ver, é que o foco do nosso debate e atos políticos está no segundo tipo, o que é uma tragédia para o nosso esporte e para o nosso país.

A política pequena, numa reflexão mais filosófica, é necessária, pois é fundamental que os grupos, em uma sociedade democrática, militem pelos seus interesses no espaço público. Assim, a ideia de política pequena é a ideia de que é legítimo militar democraticamente pelo se acredita, pela melhoria dos interesses de grupos em uma sociedade em que deve buscar o bem-estar social a partir dos interesses privados defendidos no espaço público. 

Assim, nada demais que os corintianos queiram, enquanto grupo organizado, lutar pelos seus interesses e direitos numa sociedade representativa em que, acredito, a maior parte dos votos do deputado Andrés Sanchez devem ter vindo desse eleitor tão apaixonado. Numa primeira leitura, por essa lógica, até faria sentido que o representante dos torcedores apaixonados se sentisse no dever de propor temas e leis que sejam do interesse do grupo que ele representa. 

Mas até mesmo sob essa lógica, cabe perguntar: o melhor para o Corinthians hoje é a criação de uma data simbólica ou a discussão de projetos que efetivamente contribuam para a melhoria do futebol, onde o clube está inserido?

Por isso é que acredito que o problema é quando a pequena política, como dito aqui, vira política pequena. Apesar de tudo o que vimos acima, não há relevância nenhuma em propor uma lei como essa num momento tão particularmente controverso da realidade nacional. Eu mesmo, como corintiano, não vejo importância nenhuma em se oficializar uma data quando outros assuntos nacionais e, até mesmo esportivos, clamam pela atenção dos nossos nobres deputados.

Se pensarmos no nosso esporte, veremos que há questões urgentes que precisam ser discutidas pelos nossos políticos, em Brasília, como: as várias tentativas de se estabelecer novas legislações para o controle da gestão dos clubes. Há uma medida provisória, proposta pelo governo, que pretende refinanciar as dívidas dos clubes de futebol brasileiros, mas que exige, por parte dos interessados, uma série de contrapartidas no que se refere à adoção de gestão profissional e comprometimento com a responsabilidade fiscal. 

Ao meu ver, isso é um exemplo de preocupação com pequena política, pois envolve somente o mundo do esporte, a princípio. Mas que pode ter impacto posterior em outras dimensões sociais. Um futebol mais organizado movimenta a economia, gera empregos e contribui até para o ambiente cultural nacional. 

Contudo, como é sabido, existe no Congresso a bancada da bola, um grupo de parlamentares que representam os interesses de clubes e empresas esportivas e que trabalham para que a lei que venha a ser aprovada traga o alívio financeiro para os clubes, com a renegociação da dívida, mas sem nenhum exigência de contrapartida, no sentido de mudança de modelo de gestão por parte dos devedores. 

Ou seja, um casa clássico da política pequena, que não beneficiará em nada o futebol e o seu mundo, mas somente gestores e gestões incompetentes que querem perdurar no poder no formato que aí está. Eles querem a renegociação da dívida, mas sem a garantia de que o fator que levou ao endividamento seja expurgado. Na prática, nada garante que o problema não volte a acontecer em alguns anos. 

Além desse exemplo, atualíssimo, muitas outras questões envolvem o embate entre uma política do esporte que, ainda que tenha escopo pequeno, pode ser muito significativa para o país. A crise acentuada do futebol brasileiro, as questões envolvendo o fechamento do balanço da Copa do Mundo de 2014 e todo o processo de finalização para os Jogos de 2016 são exemplos de temas que carecem do acompanhamento dos nossos ilustres parlamenteares. Tenho certeza de que não faltam oportunidades para parlamentares como o deputado Andrés Sanchez atuar em Brasília de maneira efetiva. 

Uma atuação parlamentar grande, por parte dele, de alguma maneira contribuiria positivamente para o momento do político difícil do país muito mais que a mera aprovação de uma lei decorativa. 

É com uma pequena política eficiente, mas comprometida com a profissionalização e melhoria das gestões esportivas, que se fará um ESPORTE BRASILEIRO GRANDE. 


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