Golpe duríssimo no UFC, por Anderson Gurgel

A notícia de que o lutador Anderson Silva estaria dopado no seu combate de volta ao octógono é um significativo abalo na imagem do ascendente mundo das lutas

Redação Portal IMPRENSA | 04/02/2015 16:15
Apesar de não ter sido uma disputa das mais emocionantes, a vitória – ainda que por pontos – do brasileiro, na luta do dia 31 de janeiro, contra o norte-americano Nick Diaz, em Las Vegas, deixou fãs e a mídia animada com as possibilidades de retomada da carreira bem-sucedida de Silva. 

Já se projetava até uma futura tentativa do lutador de reaver o título mundial da sua categoria. Contudo, o desenrolar do combate está se mostrando um pesadelo tanto para Anderson Silva quanto para os gestores do UFC. 

A notícia veiculada em 03 de fevereiro anunciando que o lutador brasileiro Anderson Silva estaria dopado no seu combate de volta ao octógono foi como um golpe para gente do mundo do MMA e fãs do UFC. 

Como todos sabemos, esporte é emoção. Mas isso não significa que todas as formas de sentir o esporte sejam boas. Revolta, frustração, raiva, decepção também entram na escala de sentimentos que o mundo esportivo pode despertar nas pessoas. 

É disso que estamos falando após a denúncia que foi feita Comissão Atlética de Nevada (NSAC) com a divulgação dos resultados em que se afirma que o lutador brasileiro teria lutado sob influência de substâncias químicas consideradas dopantes. Também o lutador americano foi denunciado pelo mesmo relatório, mas por ter resultado positivo para derivados da maconha. 

A se confirmar a dopagem dos dois lutadores, a luta deve ficar sem ganhador. E, com isso, vai ser consagrado um fiasco dos grandes tanto para o UFC quanto para os atletas envolvidos. O público fã desse esporte vai trocar a alegria da volta do ídolo pela raiva e frustração por ter testemunhado um embuste. 

Obviamente os staffs dos dois lutadores farão de tudo para, em contraprovas, negar as acusações e abafar o caso, mas inegavelmente a notícia é como um golpe duríssimo para o UFC e para a imagem de ídolo “cool” que vinha sendo desenvolvida pelo Spider, como também é conhecido Anderson Silva. 

Do ponto de vista do atleta brasileiro, a luta de volta ao octógono era para ser um capítulo de superação e redenção. Após o trágico desfecho do combate anterior, no fim de 2013, Silva saiu do combate com a perda quebrada. Para muitos, era a aposentadoria compulsória do ídolo esportivo que, por muitos anos, reinou nas lutas e no imaginário esportivo. 

Contudo, como bem gostam o jornalismo e o marketing esportivo, a volta por cima, a superação são símbolos fortíssimos. E o combate, que agora está se revelando um fiasco e um escândalo, de Silva contra Diaz era para ser isso. 

Para quem ainda não entende bem, a força do UFC na indústria esportiva hoje é tamanha que a luta de volta do Spider bateu recordes de vendas de pay per view e de citações nas redes sociais. Mesmo na Rede Globo – e considerando-se que o combate passou de madrugada – os números de audiência foram comparáveis com o futebol. 

No complexo mundo do esporte-entretenimento de hoje em dia, a busca por resultados cada vez mais espetaculares é uma das formas de se tentar entender o doping. Mas o mesmo sistema que espera – exige até – a superação do corpo continuamente rejeita o uso de substâncias para que o espetáculo se faça. 

É uma contradição sistêmica que só piora a cada ano. A ver que os escândalos com dopagem pipocam para todos os lados: no octógono, nas piscinas, nas pistas, nas quadras etc. 

Para Anderson Silva, a confirmação desse resultado pode ser um golpe ainda mais forte que a perna fraturada. Pode concretizar a aposentadoria num cenário muito ruim e até injusto com a carreira que o atleta construiu. 

Para os gestores do UFC, a se confirmar o fiasco dessa luta,  a situação vai gerar uma fissura significativa na relação do esporte com seu público. Não acredito que isso seja uma catástrofe irreversível – a ver que Fifa, COI, Fia e outros órgãos sobrevivem aos seus vários escândalos –, mas contribui para marcar, ao menos, o fim de um ciclo romântico no imaginário dessas lutas. 

Os próximos dias dirão o impacto desse golpe para o UFC e Spider. Mas por hora dá para dizer que a força do escândalo da notícia doeu em todos. Inclusive no público. 



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