Os significados de uma derrota, por Anderson Gurgel

Entre País do Futebol e País da Copa, a vida continua no Brasil. Ao perder vivenciamos a vitória de outra maneira e podemos projetar novas jornadas em busca do sucesso.

Redação Portal IMPRENSA | 10/07/2014 18:45
Há várias brincadeiras circulando nas redes sociais que são muito boas e ajudam a ilustrar as dimensões da derrota do Brasil, por 7 a 1, para a Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo de 2014. Uma das melhores mostra uma versão alterada de trechos do jogo, realizado no Mineirão, em Belo Horizonte, onde a seleção alemã joga sozinha. Não há brasileiros em campo. A mensagem de humor quer dizer que o placar vergonhoso seria fruto de um “WO” do escrete nacional.

O humor, farto nas redes sociais, expõe com riqueza a perplexidade e a dor causadas pela derrota que, não só impediu o caminho rumo ao hexacampeonato, como também deixou o caminho aberto para alemães ou argentinos levantarem a taça em território nacional. No caso da chegada dos hermanos e vizinhos à final marca, ainda, a consolidação de um fracasso, pois não bastasse o fracasso brasileiro, ele coincide com o sucesso de um dos principais oponentes futebolísticos. 

De fato, por mais que o imaginário dos fãs de futebol e o discurso midiático façam parecer, a vida continua. O País do Futebol teve, sem dúvida, a sua derrota mais espetacular, mas a vida continua. Sim, pois o futebol como parte “da vida” é algo fugaz. O poder do futebol – dos esportes em geral, mas no caso do Brasil uma coisa quase vira sinônimo de outra –  é mais no território do imaginário e dos sonhos. 

O esporte, enquanto atividade cultural, é uma concessão. Adoramos esportes, pois por meio deles saimos da vida cotidiana para sonhar, para realizar rituais que nos dão algum sentido, nos ensinam coisas e nos fazem transcender. 

Nesse sentido, toda vitória é a transcendência e a celebração do ritual da vida, da vitória da vida sobre a morte. A derrota, como par obrigatório, nos obriga a celebrar o seu oposto: a morte. Os derrotados são oferendas à morte. Não estava errado o presidente da CBF, José Maria Marin, ao dizer que a derrota na campanha da Copa de 2014 levaria todos ao inferno. Celebrar a derrota é fazer o ritual de confissão da incapacidade de conquistar a vida. 

Na Copa do Mundo, a vida, simbolizada na vitória, tem forma de taça, a Taça Fifa. Levantar a taça é como acender um farol de imensa luz e vida sobre todos os que estão sob o julgo dessa crença. O ritual da Copa do Mundo tem algo de uma cruzada em busca do Santo Graal, o mítico objeto que tem poderes mágicos e de transformação da vida. Faz todo sentido, não? Vencer é efetivamente transformar a vida.

Daí que a espetacular derrota do Brasil também nos ensina muito. Pois a derrota na busca pelo Santo Graal também traz aprendizado. Em um país de cultura hiperbólica, não nos bastava ser somente um bom local para jogar futebol, quisemos ser ‘o país do futebol”. Não bastava fazer uma boa Copa, nos proposemos a fazer “a Copa das Copas”.

Colhemos, ao fim, “a derrota das derrotas”. O que não deixa de ter uma poética sublime para nos iluminar no caminho a partir de agora.

Quem levantar a taça no domingo – alemães ou argentinos -, no ritual solar da vitória, jogará luz sobre as trevas da nossa morte simbólica, em forma de derrota. 

O que veremos com essa exposição em luz é de fato um país que foi o mais vitorioso no futebol do século passado, mas que ainda não encontrou o caminho para continuar sendo o farol neste novo tempo. 

No inferno da derrota, onde estamos, cabe aplaudir a jornada dos vitoriosos e planejar uma nova cruzada. A disputa vitória/derrota (morte/vida) não cessa nunca e sempre é hora para recomeçar. Preferencialmente com planejamento e novas ideias e lideranças.

Fora do esporte, a vida efetivamente continua. Ainda que doídos, continuamos trabalhando, pagando contas, debatendo a política, recebendo bem nossos convidados de outros países, e etc. 

O segredo para continuar é entender que não se perde nada quando se perde no esporte. A derrota é somente uma experiência de vivenciar a vitória negativamente, pela alegria dos outros. 

Que a inveja dessa alegria dos outros nos inspire a construir novos caminhos de vitória. 

A vida continuará nos ensinando coisas por meio do esporte. Isso é um alento e tanto para continuar vivendo. 


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