Ex-editor da "Variety" é acusado de acobertar crimes de Harvey Weinstein

Redação Portal IMPRENSA | 18/10/2017 10:06
O HuffPost Estados Unidos publicou na tarde de terça-feira (17) o artigo “The Most Powerful Journalist In Hollywood Protected Harvey Weinstein For Years”. O texto, assinado por Jason Cherkis e Maxwell Strachan, acusa o antigo editor-chefe da revista semanal Variety, Peter Bart, de encobrir os abusos do produtor hollywoodiano Harvey Weinstein.
Crédito:Reprodução HuffPost/Getty Images
Harvey Weinstein e Peter Bart participam da festa de lançamento do livro de Bart em Nova York em 2011
Na semana passada, o “The New York Times” publicou uma série de reportagens acusando o produtor de ter assediado moral e sexualmente diversas atrizes da indústria cinematográfica durante anos. As matérias ganharam ainda mais força depois que estrelas como Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Cara Delevingne e Lea Seydoux vieram a público confirmar as histórias contadas por atrizes como Rose McGowan, Ashley Judd, Jessica Barth, Katherine Kendall, entre outras.

Na matéria do HuffPost, os jornalistas apontam que nos anos 1990, um jornalista que não quis se identificar por ainda cobrir a indústria de entretenimento, afirmou que sugeriu uma pauta espinhosa sobre a Miramax, produtora que à época pertencia a Weinstein, mas foi imediatamente negada por Peter Bart. 

"Concluiu a história imediatamente, levantou a voz e, basicamente, assegurou-se de que não só essa história não acontecesse, mas que nunca mais eu sugerisse algo parecido. "Essa foi a única vez que uma pauta foi rejeitada sem uma razão aparente", disse o repórter. 

O jornalista lembra ainda, que quando todos deixaram a sala, um colega o alertou sobre a situação. "Nós não fazemos esses tipos de histórias sobre Miramax”. Ainda de acordo com a publicação, o sentimento era bem conhecido na Variety. "Você nunca encontrará uma peça crítica sobre Harvey ou sobre sua empresa no jornal. Você simplesmente não publicará. Quase se tornou a regra tácita", comentou outro repórter. 

A matéria diz que Weinstein era um mestre da manipulação da imprensa e que Bart era um “conspirador ansioso e útil”. As entrevistas com antigos repórteres e editores da Variety descrevem o jornalista como um dos maiores protetores de Weinstein, exatamente o tipo de facilitador que ajudou a manter o segredo por tanto tempo.

Quando Bart assumiu a edição da “Weekly Variety” sua carreira passou a se entrelaçar com a de Weinstein. Seu trabalho possibilitou que a revista uma potência influente na indústria. Sob seu comando, o número de páginas aumentou, assim como a contratação de pessoal. Seções especiais que celebraram os marcos da indústria (e, claro, a temporada de premiação), passaram de incidental a onipresente. "Tudo era mais", explicou Kinsey Lowe, um ex-editor de notícias, que começou na Variety em 1988 antes de Bart ter assumido.

Poucas publicações ganharam mais com o truque de Weinstein de transformar uma corrida Oscar em algo como um evento esportivo quanto a Variety. Na época, a revista tinha grande parte de sua receita vinda dos anúncios da Miramax. "Ele se tornou o melhor amigo de todas as empresas de mídia", disse um veterano instrutor de Hollywood de Weinstein, acrescentando que havia um momento em que era impossível examinar uma questão de Variety sem se surpreender com os anúncios de Miramax.

Nem todos os entrevistados pelo HuffPost concordaram  porém, que as preocupações sobre publicidade fizeram com que Bart tratasse Weinstein de maneira particular. "A Miramax era uma grande cliente nossa, mas eles não eram os maiores", disse o ex-editor da Variety, Charlie Koones. 

De qualquer forma, a linha editorial adotada por Bart deixou muitos funcionários trabalhando de maneira comprometida. "Se você olha para o fim do negócio, Peter Bart foi muito bom para a Variety. Mas para o valor da notícia, nem tnato", disse Lowe, ex-editor de notícias. "Nunca houve nada de ruim sobre Harvey Weinstein".

Segundo as fontes do HuffPost, Bart nunca orientou os repórteres explicitamente de como cobrir a Miramax. No entanto, isso não significava que os funcionários não soubessem que precisavam ser cuidosos. "Não era desconhecido na Variety que [Bart] tinha seus amigos no negócio, e você tinha que ter um relatório cuidadoso sobre eles", disse Weiner. 

Outros ex-funcionários da Variety disseram que Bart tiraria as pessoas da cobertura da Miramax se o teor das matérias fossem muito duro. "Ele definitivamente estava fazendo favores a Harvey", disse o funcionário. "Toda a cobertura era apenas dourada".

Outro disse que os publicitários teriam ameaçado os repórteres após a cobertura de histórias negativas sobre Miramax dizendo que "’’tudo bem, Harvey apenas vai ligar para Peter então’. E, em última análise, você sabia que isso era verdade, então fomos castrados como repórteres", acrescentou o ex-editor.

"Ele tinha certas vacas sagradas, e uma delas era Harvey Weinstein". Depois de um tempo, os repórteres acabaram por aprender a se autocensurar quando o assunto era Weinstein. 

"Escritores e editores reclamaram em particular que ele às vezes reescrevia ou suavizava suas histórias, especialmente se o artigo criticasse seus amigos comerciais mais próximos, que incluíam o co-fundador da Miramax Films, Harvey Weinstein", escreveu o jornal Los Angeles Times sobre Bart em 2009.