“Parte importante da democracia é a alfabetização midiática”, diz Judy Rodgers

Gabriela Ferigato | 23/09/2016 05:00


Há quase vinte anos, a norte-americana Judy Rodgers busca respostas para a mesma pergunta: “Que impacto a mídia cria na mente e nos sentimentos do leitor, do espectador, do consumidor?”. Para ela, às vezes, ao ser deixada levar por números e sensacionalismo, esquece do impacto que causa nas pessoas.

“A democracia funciona quando os consumidores e cidadãos são bem informados e entendem as consequências”, ressalta Judy, que já atuou em empresas de comunicação como Twentieth Century Fox, CBS, Video Publishing House. 

Criado em Nova York (EUA) em 1999, o Imagens e Vozes de Esperança (IVE) incentiva diálogos entre pessoas das mais diversas áreas da comunicação a encontrarem caminhos para uma mídia de soluções e de transformações benéficas para o mundo. Desde 2013, se debruça na chamada “Narrativa Restaurativa”. 

À IMPRENSA, Judy falou mais sobre esse gênero, a atuação do IVE no mundo, os dilemas que a imprensa enfrenta em uma democracia, novas plataformas de notícias e imparcialidade da mídia.  
Crédito:divulgação
IMPRENSA - Quais as principais iniciativas do IVE no sentido de reforçar a confiança da mídia em tempos de crise?
Judy Rogers - A ONG começou seu trabalho em 1999 e a razão era que muitos de nós nos tornamos conscientes de que a maior exportação dos Estados Unidos é a mídia – novelas, revistas, filmes, notícias etc. Todo mundo estava contando números, mas ninguém estava perguntando qual era o impacto disso nos que recebem. Então criamos um diálogo em Manhattan (EUA) em junho daquele ano com duzentas pessoas do mercado de mídia e a questão era “Que impacto o meu trabalho está criando na mente e nos sentimentos do leitor, do espectador, do consumidor?” E essa é a mesma pergunta que estamos fazendo hoje. 

Qual a posição de vocês frente a essa questão?
Nossa posição é de que a mídia deve ser um agente de benefício para a sociedade. E, é claro, que já é um agente de benefício de qualquer forma. Temos que saber dos números, trata-se de negócios, mas também precisamos perguntar qual o impacto nas pessoas e comunidades. Às vezes, ao ser deixada levar por números e ao contar histórias usando sensacionalismo, esquecem o impacto no indivíduo. No meio dos anos 1990 e a partir disso, o movimento da psicologia positiva começou a se tornar muito grande nos Estados Unidos. Essa psicologia notava a diferença entre o que acontece com pessoas que estão com medo, depressivas, angustiadas, com raiva ou ansiosas e o que acontece com as que estão felizes, agradecidas no momento em que recebem/consomem notícias. As que estão depressivas ou com medo se “encolhem”, não tem muitas ideias ou ações. A questão é como contar a elas o que realmente está acontecendo e não fazer com que se encolham? Para que, assim, continuem como atores na sociedade. Isso é muito relevante para uma democracia, porque uma democracia precisa que as pessoas participem, mas se estão em desespero, então não estão realmente processando possíveis opções, ações. 

Desde 2013, vocês se debruçam sobre o que chamam de “Narrativa Restaurativa”. Como define esse gênero?
Em 2012, um jovem rapaz entrou em uma escola na pequena cidade de Newtown, em Connecticut (EUA), e atirou em alunos e professores, entre eles a sua mãe que lecionava lá. [O tiroteio deixou pelo menos 27 mortos, 20 deles crianças]. A violência contra crianças é devastadora. O editor de um jornal naquela cidade pensou, então, qual a função de um jornal local diante disso. Porque quando isso ocorre todos os grandes veículos vão cobrir o caso na pequena cidade. Ele falou: “nós não vamos fazer um melhor trabalho do que o New York Times. Nosso trabalho é fazer uma narrativa restaurativa. Nós não esqueceremos [do que aconteceu], mas não vamos ficar preso nisso pra sempre”. Nós precisamos contar as histórias ruins, porque, se você não contar, as pessoas irão olhar em todos os lugares até achar, mas não precisamos ficar repetindo a sequência toda hora. Qual a história da comunidade seguindo em frente e criando algo bom fora disso? Isso é o que chamamos de narrativa restaurativa. É focada em resiliência. Nossa habilidade de levantar e seguir em frente. Nós estamos tão preocupados com audiência, leitores e vender jornais que pensamos que todas as pessoas querem as má notícias. E continuamos repetindo isso. Ao invés de apostar no movimento de recuperação. [Como exemplo dessas histórias, a jornalista cita a reportagem do NYTimes

O jornalista precisa se reinventar diante desse cenário?
Acho que tem que ser um melhor storyteller, porque é muito fácil dizer que um jovem rapaz entrou em uma escola, atirou em crianças e morreu. Não requer habilidades. Mas contar de outra forma requer a boa vontade de editores em continuar nessa história e ao jornalista a habilidade de contar uma história bem escrita. Acredito que em momentos como esse, a responsabilidade da mídia não é só ampliar o trauma. Como se o nosso papel fosse apenas garantir que as pessoas saibam dessas má notícias. Mas o nosso papel é que, sim, elas saibam, mas que possam continuar suas vidas. Acredito que é importante incluir reflexão nesse processo. Quando a organização foi criada, falamos em maneiras de mudar. A primeira são diálogos que dão esperanças, possibilidades e também reflexões. Na década de 1990, era mais complicado falar sobre isso, hoje o movimento de Mindfulness é enorme. O que esses tempos exigem de mim? Como me reinvento? Estou vendendo jornais, querendo audiência, mas também estou a serviço da sociedade. 

Você acha que a mídia perdeu credibilidade perante ao público?
As pessoas que conversam comigo dizem que se sentem mal com a constante enxurrada de notícias sobre violência, especialmente nos jornais locais, que é de onde tiram a maioria delas. Tantas pessoas falando que não querem mais assistir emissoras locais. Porque dizem que é muito sofrido. Não queremos que as pessoas desliguem. Nós precisamos que nossos cidadãos tenham a capacidade de construir suas cidades, sustentem suas sociedades, melhorem suas escolas. Precisamos que tenham energia e visão para isso. Às vezes subestimamos o impacto que temos. Estamos ampliando as histórias e muitas das pessoas aceitam essas histórias como verdade absoluta. 

Como “educar” esses consumidores de notícias?
É importante que as escolas comecem a ensinar uma alfabetização midiática. Desde que as crianças são pequenas, já são expostas a mídia. Elas precisam entender como serem consumidores perspicazes. A mídia vai fazer o que faz. Existe a mídia que é boa no que faz e existe a mídia que está apenas atrás de dinheiro. Você precisa ajudar os consumidores a serem mais reflexivos. Democracia funciona quando os consumidores são bem informados, quando os cidadão são bem informados e entendem as consequências. Então parte importante da democracia é essa alfabetização midiática. 

Quais os dilemas que a mídia enfrenta em uma democracia?
Um dos problemas que enfrentamos é a distinção entre o que é entretenimento e o que é notícia. Essa linha fica muito obscura às vezes. Quando uma empresa de entretenimento detém uma empresa de notícias, como é frequentemente o caso, a exemplo da Fox, como podemos garantir que a notícia é realmente notícia e não propaganda? Esse é um de nossos dilemas. Outro é a diminuição do tempo que a audiência presta, de fato, atenção em seu conteúdo. Quanto mais estão [audiência] na internet, mais ficam impacientes. Se a história não decola, vão para a próxima. Isso é um problema, porque as histórias mais profundas demoram mais para se contar. Esse é um dilema da mídia, como manter a atenção dos leitores para aqueles que se tornaram impacientes? Acho que o outro é complexo. As pessoas querem algo simples para que possam entender, e ainda muito dos assuntos que enfrentamos não são simples. São complicados. Por que muitas pessoas são refugiados? Por causa das alterações climáticas. Como foi o caso da Síria, no começo. Como explicar as conexões para as pessoas, como fazer com que entendam que essas coisas estão conectadas? Requer especializações. Quando você estuda jornalismo, não se torna necessariamente um cientista, economista ou sociólogo. Enquanto os tempos ficam mais complexos, como nos tornamos multidisciplinares? Isso é perigoso para uma democracia.

Nos EUA, donos de empresas que publicam jornais e revistas não podem controlar também canais de rádio e TV. No Brasil, discute-se, há tempos, a democratização da mídia. Em sua opinião, a concentração de veículos em poucos grupos de comunicação fere a liberdade de imprensa? 
Claro. Acho que os próprios donos dos grupos pensam isso no privado (risos). O que tenho notado nos EUA é que, cada vez mais, as mídias digitais estão mais dinâmicas e alternativas. Então as pessoas podem escolher pegar aquela informação em outros lugares. Se acharem que todas as redes de notícias disponíveis a eles estão dizendo o mesmo, podem escolher usar seus dispositivos móveis e ir para outras plataformas. Isso vai ajudar a balancear as coisas.

Um levantamento realizado pelo veículo brasileiro Agência Pública, intitulado “O Mapa do Jornalismo Independente no Brasil”, apresentava no final de maio um total de 74 sites “que nasceram na rede, frutos de projetos coletivos e não ligados a grande grupos de mídia, políticos, organizações ou empresas”. Qual a importância ou desafios de novas vozes como essa na mídia?
É importante falar disso. Fornece uma alternativa principalmente aos monopólios de grupos. O risco é que alguns sites não contam com um bom serviço de checagem de fatos. Precisa existir um consumidor perspicaz de notícias para saber o que é verdade ou não. Porque páginas de ativistas [no caso de grupos desse caráter] vão advogar para uma certa posição e podem ou não validar os fatos ou mesmo escrever algo confiável. As oportunidades são que, enquanto esse sentimento cresce, algumas coisas podem acontecer, uma é que a mídia mainstreaming pode começar a reportar de uma forma diferente, porque vê que há apetite a isso. Outra é que os melhores sites vão direto ao topo, vão ganhar popularidade porque são confiáveis. 

Olhando a imprensa como um todo, ao redor do mundo, como você enxerga a questão de que ela defenda determinados interesses políticos e como avalia a questão da imparcialidade?
Uma âncora da CNN chamada Claudia Palacios escreveu um livro chamado “Perdoando o Imperdoável”. Ela me disse uma vez “a mídia sempre encobriu as FARC [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia], durante todos esses anos, influenciada pelo governo. Então nós realmente não fizemos um trabalho honesto encobrindo. Nós fizemos uma cobertura tendenciosa em favor do governo. Não olhamos para a realidade e a revolução colombiana”. Acho que é um depoimento bastante corajoso e capta a situação. A mídia adora uma boa história e, mesmo que saibam da verdade e que exista apenas uma verdade, muitos não estão comprometidos com isso. Voltamos ao ponto de que os consumidores precisam saber notar isso. Um dos problemas que enfrentamos é o jeito que a internet funciona. Você demonstra interesse em algo, em busca, no Google Busca, por exemplo, que controla o mercado, e tem mais daquilo, ao invés de oferecer um amplo espectro. Você pode acabar não sabendo outras posições. É necessário trabalhar duro para ver coisas que não acredita. 

Leia também
- ONG Think Olga lança Minimanual do Jornalismo Humanizado sobre deficiência
- Facebook e Twitter participam de rede que tenta combater notícias falsas
- Mais de vinte veículos de comunicação são bloqueados pelo governo na Turquia