Há uma década no caso, jornalistas comentam a série “Making a Murderer”

Gabriela Ferigato | 11/03/2016 17:45
O furor causado pela série “Making a Murderer” pode estar adormecido, mas talvez não por muito tempo. Lançada pela Netflix em dezembro do ano passado, as cineastas Laura Ricciardi e Moira Demos já planejam uma nova temporada. Quando sairá, não se sabe. Afinal, para lançar a primeira, as duas passaram quase uma década documentando o caso desde o seu início.
Crédito:divulgação/Netflix
Recentemente, a advogada Kathleen Zellner, experiente em condenações injustas, assumiu a defesa de Steven Avery e as cineastas já sondaram a possibilidade de continuar a cobertura. “Do nosso ponto de vista esta história ainda não acabou”, disse Laura em entrevista à revista Variety.

A história acompanha o norte-americano Steven Avery, morador da pacata cidade Manitowoc, em Wisconsin, preso por 18 anos após ser condenado injustamente por abuso sexual. Ao sair da cadeia, brigou na justiça por uma indenização na bagatela de 36 milhões de dólares.

Em 2005, quando uma lei que receberia seu nome estava prestes a ser instaurada, o desaparecimento da fotógrafa Teresa Halbach, que tinha ido fazer uma matéria para a revista Auto Trader sobre o seu ferro-velho, caiu em seu colo. Seus ossos carbonizados foram encontrados na propriedade dele. 

Ao lado do personagem principal, de sua família notavelmente humilde, do sobrinho também responsabilizado pelo assassinato de Teresa, dos advogados de defesa aclamados pelo público, dos xerifes e policiais questionados pelas evidências está uma personagem tão importante quanto os já listados: a mídia.
Crédito:acervo pessoal/ reprodução Netflix
Os jornalistas Dan O’Donnell, Tom Kertscher e Emily Matesic
Ao longo dos episódios, as cineastas fazem questão de mostrar a imprensa no processo, a presença de jornalistas nas coletivas, sua relação com as fontes oficiais e o impacto na opinião pública. Emily Matesic, chefe do departamento de Fox Valley da WBAY-TV, acompanha o caso há mais de dez anos. 

“Dou muito crédito às mulheres que produziram ‘Making a Murderer’. Elas fizeram uma série baseada em centenas de horas de fitas e vídeos. O julgamento de Steven teve seis semanas de duração e o do sobrinho duas. Isso não inclui todas as audiências pré-julgamento e conferências de imprensa. Elas usaram o que usaram para montar a história que queriam contar”, diz.

Para o ainda mais veterano repórter Tom Kertscher, do jornal local Milwaukee Journal Sentinel, que desde 2003 segue a “trama”, a cobertura da investigação da morte da fotógrafa e o julgamento foi feito principalmente pela mídia de Wisconsin, tendo ganhado atenção nacional e internacional somente após a estreia de “Making a Murderer”. 

De acordo com Emily, a imprensa sempre respeitou ambas as famílias, tanto os Avery como os Halbach. “A família Halbach escolheu fazer-se disponível para os veículos de comunicação após o tribunal todos os dias. A família Avery não. As produtoras do documentário tiveram acesso especial aos Avery, mas os meios de comunicação locais não têm esse acesso”, ressalta.
Crédito:reprodução/ Twitter
Mais crítico ao documentário, o âncora e comentarista da iHeartMedia Milwaukee, Dan O’Donnell, também anfitrião do podcast “Rebutting a Murderer” (“Refutando um Assassino”, na tradução literal), ressalta que a série definitivamente não retrata fielmente a história. 

“Ela deixou de fora peças críticas de evidência e descaracterizou outras, como o frasco de sangue de Avery. A série mostrou como evidência de que as forças da lei fizeram um buraco no frasco para pegar um pouco do sangue de Avery e incriminá-lo com ele, mas, na realidade, o buraco foi feito pela própria enfermeira que a princípio coletou o sangue de Avery”.

Outra alegação de O’Donnell é de que todos os envolvidos no caso – desde polícia, advogados e cineastas – ignoraram a declaração de Bredan Dassey, seu sobrinho, de que Steven já o tocou de forma inadequada (abusando dele). O jornalista, que até 2013 cobriu o acontecimento pela rádio 620 WTMJ, lançou seu podcast para contrapor a série que, segundo ele, tem um viés “pró-Avery”.

O público ansioso espera que a próxima temporada de “Making a Murderer” não demore outros dez anos. Veremos.

Leia também
Vaticano critica nova capa do "Charlie Hebdo" por retratar Deus como "assassino"
Acusados de matar radialista em 2005 vão a júri popular em Recife (PE)
- SIP repudia mortes de jornalistas no Brasil e na Colômbia