"O Afeganistão é o lugar mais perigoso que já estive", diz a jornalista Adriana Carranca

Felipe Menezes* | 17/11/2011 17:35
Compreender como a 'guerra ao terror' foi parar no Afeganistão, após os atentados contra os Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, era um desafio à repórter especial de O Estado de S. Paulo, Adriana Carranca. Tarefa cumprida pela profissional, que, como resultado dessa experiência, publicou, recentemente, o livro "O Afeganistão depois do Talibã", da Editora Record. A obra é fruto de um minucioso trabalho de pesquisa realizado em meio aos perigos daquela região do Oriente Médio.

Reprodução TV Estadão

Adriana Carranca



A publicação relata 11 histórias afegãs, 11 perfis que retratam o período entre os atentados e a morte do saudita Osama Bin Laden, no Paquistão. O livro é resultado de duas viagens de Adriana ao Afeganistão. A primeira, em 2008, durou um mês e serviu para conhecer os personagens. Em abril de 2011, ela voltou ao país para revê-los, e ficou lá por dois meses, para observar o que tinha mudado em suas vidas.

Em entrevista ao Portal IMPRENSA, Adriana falou sobre as experiências no Afeganistão e a produção do livro.

Como surgiu a ideia de escrever o livro?
A cobertura internacional de conflitos se concentra na política e na estratégia militar. Eu queria conhecer a gente. Estava em NY poucos dias antes dos atentados de 11 de Setembro. Acompanhei de perto a cobertura desde então. Me intrigava o fato de que não havia um afegão entre os 19 terroristas, como não há nenhum afegão envolvido no terrorismo internacional. E, no entanto, a chamada 'guerra contra o terror' se concentrou em território afegão. Dizia-se que o saudita Osama bin Laden estava escondido por lá. Mas se você olhar para a história, saberá que Bin Laden foi, no passado, um aliado dos EUA contra a expansão dos soviéticos, que invadiram o Afeganistão em 1979. O líder da Al-Qaeda os ajudou levando combatentes árabes e inspirando, financiando e treinando afegãos para a 'jihad' contra os russos. Por isso estava lá. A religião foi usada, então, para instigar os afegãos a lutar contra os invasores laicos comunistas, que nos 10 anos de ocupação despejaram 10 milhões de minas terrestres nas terras de inocentes. Então, aquela imagem de afegãos terroristas me parecia muito errada. Como jornalista, eu queria desvendar essa história, saber quem são de fato e o que pensam os afegãos, compreender como a guerra contra o terror foi parar ali (e não no vizinho Paquistão, por exemplo, onde de fato estava Bin Laden, como seria confirmado este ano). 

Quais foram as etapas de produção da obra?
Viajei a primeira vez ao Afeganistão, em 2008. Tive a sorte de conhecer personagens muito marcantes e representativos de parcelas da população que, juntas, formavam um quebra-cabeças muito completo desses 10 anos de guerra desde o 11 de Setembro. Mulá Abdul, por exemplo, o chefe do Talibã em Nagarhar, onde Bin Laden estava quando os atentados aconteceram em Nova York; Massouda, que foi a primeira mulher candidata à presidente do Afeganistão, cuja história traz muitas das transformações ocorridas para as mulheres; Fatema, cuja linhagem paterna pode ser tratada até os herdeiros do profeta Maomé e, por parte de mãe, descende dos monarcas afegãos (a história de vida dela remete ao passado glorioso, de palácios, reis e rainhas, poetas e intelectuais afegãos, quando as mulheres usavam saia, estudavam francês, trabalhavam); Sadaf, de 17 anos, a integrante da primeira equipe de boxe feminino do Afeganistão, que representa a nova geração, a geração que irá reconstruir o país quando as tropas estrangeiras forem embora em 2014; ou Wahida, uma viúva, vítima do primeiro ataque suicida praticado por um afegão (até 2004, a Al-Qaeda e o Talibã precisaram importar terroristas de outras regiões porque não conseguiam convencer os afegãos a praticar atentados suicidas, pois tirar a própria vida é para eles uma desonra, algo que só Ala tem o poder de fazer; a miséria a violência da guerra, no entanto, ajudaram as organizações a recrutar jovens terroristas afegãos). Quando voltei, comecei a escrever suas histórias. E, em 2011, voltei ao Afeganistão para reencontrar esses personagens e saber o que tinha acontecido em suas vidas. 

Como foi o trabalho de pesquisa para a concepção do livro?
Primeiro, foi um trabalho de campo, nas duas viagens que fiz, a última delas por dois meses, em abril e maio deste ano. Depois, tudo o que eles me contaram foi checado nos registros históricos, em documentos da Casa Branca disponíveis on-line, em livros e, principalmente, em registros pela imprensa internacional de vários países. O que me deixou muito feliz foi que todas as histórias batiam com aquilo que os personagens haviam me dito e se encaixavam. Por exemplo, a Wahida não sabia ter sido vítima do primeiro suicida da história do Afeganistão. Isso foi possível checar com as datas e detalhes que ela me deu, os registros do hospital Esteqelal onde ela esteve internada e da Cruz Vermelha, que atende amputados e viúvas; tudo depois checado com reportagens sobre o ataque em si (que não traziam informações sobre as vítimas, aliás). O mesmo com o mulá Abdul, que me contou sobre as batalhas que participou, o encontro com Bin Laden, e tudo batia com registros do terrorista no Departamento de Estado americano e na imprensa. Foi um trabalho de formiguinha. Todo esse trabalho de pesquisa foi feito na minha volta. Durante a minha estada no Afeganistão eu me concentrei em viver entre eles e ouvir suas histórias.

Quais reflexos causados na população após os atentados de 11/09 você pode notar?
A maioria dos afegãos odiava os talibãs, mas, após 10 anos de guerra, acuados entre a violência persistente dos insurgentes e os bombardeios das forças de coalizão, sem conseguir enxergar nenhuma melhoria em suas vidas ou expectativa de futuro, eles se perguntam se a ordem tirana dos radicais é melhor do que ordem nenhuma. Os afegãos não conseguem entender como as forças militares de 41 nações ricas não são capazes de protegê-los e se perguntam onde foi parar o dinheiro prometido para a reconstrução do país, que não se concretizou.   

Como você enxerga as ações norte-americanas no país?
Como um erro gravíssimo e injustificável.

O que precisa ser mudado para que o país trilhe um caminho melhor?
Veja, em 10 anos (tempo da ocupação das forças de coalizão lideradas pelos EUA), você muda uma geração: com escolas, infraestrutura, apoio à economia. Mas hoje, uma década mais tarde, há cinco milhões de meninos e meninas em idade escolar fora da sala de aula, 72% dos afegãos seguem analfabetos, 85% não têm luz elétrica em casa e vivem o isolamento que isso traz, e a metade da economia vem da exportação de papoula, matéria-prima do ópio e da heroína consumidos na Europa e nos EUA. É um desastre.

Dentre os perfis que escreveu para o livro, qual você mais gostou de fazer? Por quê?
Todos têm histórias incríveis. Mas Wahida é minha paixão. Mãe de seis filhos, ela teve mais de 30% do corpo queimado, perdeu os dois braços e o marido em um atentado à bomba. O terrorista se dirigia a um comboio militar, mas antes de atingi-lo bateu no carro à frente do táxi onde ela estava. Analfabeta, ela sequer sabe explicar por que motivo isso aconteceu. Ela nunca ouviu falar no 11 de Setembro. Odeia os talibãs e pensa que os EUA invadiram o país para salvar os afegãos dos radicais. Ainda assim, ela é capaz de sorrir. Mantém os filhos na escola (parte dos lucros do livro têm como fim pagar os estudos de seus seis filhos) e mesmo não podendo trabalhar (porque não tem os braços) não permite que eles deixem a escola e prefere viver com enorme dificuldade, de ajuda, a fazê-los trabalhar. É uma mulher sem nenhum estudo, mas de um caráter incrível. Outro personagem é o mulá Abdul, porque consegui que ele falasse sobre sua vida pessoal, sobre amor, casamento e filhos - algo quase impossível para um comandante Talibã. Quando perguntei se ele amava a mulher que o pai escolheu para ser sua esposa, ele me pediu para desligar o gravador. "Um legítimo talibã não pode falar sobre essas coisas", disse, na primeira vez que o vi sorrir.

Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou para realizar esse trabalho?
O Afeganistão é de longe o lugar mais perigoso que eu já estive... Na primeira viagem, em 2008, presenciei dois atentados a bomba. Na segunda, havia explosões dia sim, dia não. Meu hotel, o Safi Landmark, em Cabul, foi bombardeado; o supermercado que eu frequentava sob a burca, para sentir um pouco como é a vida cotidiana das famílias, também foi destruído por um atentado a bomba, assim como o Hotel Intercontinental, onde fui muitas vezes tomar chá da tarde, entrevistar funcionários e os poucos hóspedes que restaram, e também gostava de ir lá só para olhar o céu estrelado de Cabul, pois o hotel fica aos pés da Hindu Kush. Havia muito risco de sequestros também - na minha primeira viagem 70 pessoas estavam sequestradas, entre elas um repórter do New York Times

Você gostou do resultado final? Atingiu suas expectativas?
Sim. O que mais me preocupava era ser fiel aos personagens, que confiaram a mim suas histórias de vida. Sendo estrangeira, isso é muito! - eles não confiam mais nos estrangeiros. Então, eu tinha essa preocupação, de contar a história sob a ótica deles, exatamente como eles me contaram, sem juízo de valores e ao mesmo tempo com todas as informações e cada detalhe incansavelmente checados. Acho que consegui isso.

* Com supervisão de Gustavo Ferrari

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