Jornalistas da "geração X" revelam amor pela profissão e desejos para o futuro dela

Jéssica Oliveira | 27/08/2014 11:45

MPRENSA perguntou a jornalistas nascidos em diferentes gerações como era o jornalismo quando começaram, como avaliam a profissão hoje e como a imaginam futuramente. Além disso, propusemos uma brincadeira: se existisse a máquina do tempo, quais conselhos o profissional do passado e do presente trocariam.

Os jornalistas ouvidos são Zé Paulo de Andrade e Clóvis Rossi, da "Boomer" (antes de 1946); Cora Ronai e Marcelo Rezende, da "Baby Boomer" (de 1946 a 1964); Mauri König e Daniel Castro, da "X" (de 1965 a 1978); Bruno Ferrari e Carolina Ercolin, da "Y" (de 1980 a 1990); Bruno Rodrigues e Gustavo Torniero, da "Z" de 1990 a 1999). 

Mauri König: “O jornalismo me seduziu”
Crédito:Jonathan Campos
Konig começou no jornalismo "por acaso" e acabou se apaixonando pela profissão

“Procura-se jornalistas”. A busca em Foz do Iguaçu, em 1991, fez Mauri König, então estudante de letras, se aproximar das redações. “Fui convidado para trabalhar justamente porque não tinha jornalista para atender a demanda do mercado na época”, conta. Hoje, aos 47 anos e repórter especial da Gazeta do Povo, ele nem podia imaginar que aquele convite viraria sua profissão. 

Além de trabalhar para jornais como a Folha em Foz, Estado do ParanáGazeta Mercantil e colaborar eventualmente com outras publicações, König era correspondente do jornal O Estado de S. Paulo na tríplice fronteira. “Consegui o registro provisório para trabalhar como jornalista, isso tudo antes de entrar na faculdade”, recorda ele sobre a formação em jornalismo, que veio quase 10 anos depois do primeiro pé na redação.

Sem a base da academia, ele teve que aprender tudo na prática, dia após dia. Por isso, desenvolveu um método que passou a chamar de “desconstrução de reportagem”: pegar as grandes reportagens de jornais, tentar entender como o repórter chegou até aquele resultado e refazer a matéria, mas de outra maneira, com outro enfoque. “Foi uma coisa meio intuitiva, fui tateando até encontrar [este estilo]”, diz.

Em paralelo à redação, König levou a carreira em letras, chegando a dar aula na rede estadual. Mas, quando chegou a hora de optar, o repórter falou mais alto. Desde então, o objetivo na profissão é um só: evoluir. “‘Que tipo de jornalista quero ser daqui cinco anos? Qual meu modelo de jornalismo?’ Quando via que estava próximo ou alcançava, estabelecia novas metas. Era isso que me movia”, diz.

Apreciador e adepto da escrita, até por unir as técnicas da literatura com a realidade do jornalismo, König avalia que a informação traduzida em texto continua sendo o eixo de uma narrativa jornalística em qualquer plataforma, mas que sozinho ele já não se sustenta. Por isso, defende a incorporação dos recursos e ferramentas disponíveis para ampliar a cobertura e a necessidade do jornalista se reinventar. “Os meus desafios hoje não são os mesmos de dez, 15 anos atrás. O meu desafio agora é adaptar, usar essas práticas, ferramentas e recursos, trabalhar integrado ou fico obsoleto. Vai sobreviver [na profissão] quem souber inovar e calibrar seu conteúdo”.
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Dentro de um mundo com informação por todos os lados, ele imagina que no futuro as pessoas vão perceber que a informação com a chancela jornalística é mais confiável, tem qualidade e um valor maior. “Por isso acho que a profissão de jornalista continuará essencial na sociedade. Vai ganhar força a grande reportagem, que é, sempre foi e será a alma do jornalismo.”

As grandes reportagens, aliás, são o que fazem seu trabalho referência para estudantes e profissionais do jornalismo. Suas investigações dentro e fora do país desvendaram redes de crimes contra os direitos humanos e bens públicos, fazendo do repórter um alvo de ameaças, emboscadas, espancamentos e tentativas de assassinato. 

Por isso, se pudesse, König usaria a “máquina do tempo” para reforçar a sua premissa de ser justo em cada reportagem, aumentar a prudência em investigações e equilibrar a relação entre família e profissão. “Tenho orgulho dos trabalhos que fiz até hoje. Não cometi injustiça nenhuma, mas acho que não abriria tanto a mão da família quanto abri”.

Daniel Castro: “O jornalismo é a melhor profissão do mundo para quem gosta de ser jornalista”
Crédito:Divulgação/Notícias da TV
Seja em 1988 num jornal de bairro, em 1991 na Folha de S.Paulo, ou em 2014 à frente do site Notícias da TV, Daniel Castro acredita que o jornalismo é o mesmo, o que mudou foi a tecnologia. “Parafraseando o slogan de IMPRENSA, a tecnologia muda, os princípios, não”, diz.

Quando Castro começou, a profissão era um pouco mais romântica e “manual”. O conteúdo era digitado em máquinas de escrever; o Google na Folha era o banco de dados, com pastas repletas de recortes de jornais antigos; e as páginas de jornal eram montadas à mão, no past-up. 

“Talvez a tecnologia tenha tornado o jornalismo mais preciso, porque a checagem e o apontamento de erro são quase instantâneos. Mas os jornalistas continuam correndo atrás da melhor informação, investigando, entrevistando, errando e acertando”, afirma.
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Castro acredita que o jornalismo continua a ser melhor profissão do mundo para quem gosta de ser jornalista. E que a chegada da internet, mesmo com a crise gerada na mídia impressa, deu espaço para quem quiser empreender. Essa escolha, inclusive, foi feita por ele em setembro de 2013, quando deixou o portal R7 para se dedicar a um site próprio: o Notícias da TV. “Hoje, alguns jornalistas podem viver de blogs e sites próprios”. 

Apesar da possibilidade aberta pelo universo on-line, Castro critica a falta de responsabilidade e respeito pelo trabalho alheio na internet. Segundo ele, hoje quem gasta tempo e recursos apurando informações exclusivas disputa espaço e audiência com quem apenas copia da concorrência. “Se pudesse, gostaria de mudar isso, desmoralizar o copy and paste desenfreado”.

Olhando lá na frente, o jornalista imagina a profissão não muito diferente do que é hoje. Ele acredita que ela terá muito mais ferramentas tecnológicas, mas continuará sendo feita basicamente através da conversa, da palavra, como sempre foi. “Desejo que o jornalismo ganhe mais respeito e dinheiro, porque é caro fazer bom jornalismo”

Confira amanhã os relatos dos jornalistas Bruno Ferrari e Carolina Ercolin, da geração "Y", nascida nos anos de 1980 a 1990.

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