Liberdade de imprensa cai e governo Temer é o que mais interfere, opinam jornalistas

Marilia Marasciulo (colaboração) | 03/05/2017 18:13
A sensação de liberdade de imprensa diminuiu nos últimos dez anos no Brasil e o atual governo é o que mais influenciou essa queda, segundo jornalistas brasileiros. Estes e outros dados reveladores sobre a situação da imprensa no país foram apresentados na manhã desta quarta-feira (3), no 9º Fórum Liberdade de Imprensa e Democracia, promovido pelo Portal IMPRENSA. A pesquisa, feita em parceria com a FRAN6 Pesquisa, analisou a percepção dos profissionais quanto ao grau de independência no exercício da profissão. Os dados foram comparados à primeira edição do levantamento, feito em 2007.
Crédito:Renato Alves
Fórum teve debate sobre os dados apresentados na pesquisa
Usando uma escala que vai de +100 a -100, um indicador elaborado pelos pesquisadores apontou que, em 2007, a liberdade de imprensa brasileira era de +34. Dez anos depois, passou para -38. Na opinião de 53% dos entrevistados, o governo de Michel Temer é o que mais interfere na imprensa brasileira. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que participou do Fórum e falou sobre a relação da liberdade de imprensa e o crescimento econômico, defendeu que o atual governo busca transparência e afirmou que não tem conhecimento sobre intervenções na imprensa. "Uma das posturas que temos adotado desde que assumimos o governo é a de transparência e da recuperação da confiança através da credibilidade dos dados apresentados", disse. "A liberdade de imprensa tem uma interação de causa e efeito com o crescimento econômico."

Feita com 208 jornalistas de todo o país entre fevereiro e março deste ano, com uma margem de erro de 6,3%, a pesquisa mostrou também que os jornalistas ainda se sentem intimidados no exercício da profissão. Para 82% deles, ações de censura prévia são a forma de supressão de liberdade mais comuns. Em segundo lugar, vêm as agressões, intimidações e hostilidades de forma presencial (61%). Na sequência, aparecem o temor pela segurança no exercício da profissão (44%), o número de processos movidos contra veículos e jornalistas (43%) e o impedimento de fazer cobertura (42%). As intimidações e hostilidades nas redes sociais aparecem em último lugar, lembradas por 26% dos entrevistados.

Outra forma constante de pressão são as demissões. Elas aparecem atrás somente do pedido de não publicação como ameaça ao trabalho. A pesquisa apontou para um possível enxugamento das redações brasileiras, com um aumento no porcentual de jornalistas autônomos e a diminuição de cargos de direção. "Nesse cenário incerto e instável, o jornalista se impõe uma auto censura. Ele pensa: por que vou incomodar, se corro o risco de pagar o pato depois?", analisou o jornalista Mauri Konig durante o debate sobre os dados apresentados.

O maior cerceamento da imprensa fez com que quase a maioria dos jornalistas sinta que a imprensa brasileira não representa a opinião da base da sociedade brasileira. Somente 6% concordaram que a imprensa representa a visão da sociedade. Os jornalistas também acreditam que o jornalismo atual é pautado por fontes de pouca credibilidade e é muito dependente das assessorias de imprensa. Para 52% dos entrevistados, elas são pouco confiáveis com fonte de informação.

Na visão da ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremos Tribunal Federal (STF), é preciso que a imprensa seja livre para que se tenha uma democracia forte. "Tenho fé na imprensa livre não porque alguém tenha assim deixado, mas porque é um direito fundamental do cidadão e há na imprensa os dados necessários para formar suas próprias convicções", afirmou, durante a conferência de abertura do Fórum. "Uma imprensa livre é essencial para que se tenha democracia e é em um estado democrático que queremos viver."

Veja alguns gráficos apresentados pela pesquisa:









Troféu do Portal e Revista IMPRENSA 

Há nove anos, o Fórum Liberdade de Imprensa e Democracia reúne profissionais da área e o público em geral para debater sobre o papel da imprensa na sociedade e os riscos de interferências na liberdade de atuação dos jornalistas. Na edição deste ano, realizada no auditório da OAB em Brasília no dia 3 de maio, foi lançado o Troféu Liberdade de Imprensa, concedido a quatro brasileiros que desempenham um papel importante na defesa da liberdade de imprensa no país.

O troféu foi concedido a um jornalista, um legislador, um magistrado e um acadêmico. Nesta edição de lançamento com apoio da Souza Cruz, os homenageados foram Caco Barcellos, jornalista e criador do programa Profissão Repórter; Miro Teixeira, deputado federal pelo Rio de Janeiro; Carlos Ayres Britto, advogado e ex-ministro do Supremo Tribunal Federal e relator do julgamento de inconstitucionalidade da Lei de Imprensa; e Fernando Schuler, Doutor em Filosofia e titular da Cátedra Insper e Palavra Aberta.