"Veículos passaram a confundir opinião com notícia", diz Martins na seção Sinval Convida

Américo Martins | 20/04/2017 13:12

Américo Martins por Sinval de Itacarambi Leão


Na primeira década do século 21, por 7 edições a Revista IMPRENSA produziu o prêmio CPFL de jornalismo, cujos vencedores recebiam uma viagem para Londres. E com direito a um estágio na Rede de Televisão da BBC. Quem nos recepcionava lá era Américo Martins, então diretor do serviço brasileiro da BBC.

Aprendemos a conhecer e respeitar o jornalista Américo Martins, já antes, via Seminários Internacionais de Telejornalismo, realizados no último lustro do século passado. Suas conferências e intervenções destinadas a estudantes de jornalismo foram sempre marcadas, pelo sentido específico do jornalismo público, no qual a Rede de TV da BBC se diferenciava; primeiro, da tevê comercial e, segundo, das tevês estatais. No estágio, em Londres, não era diferente, só que com a perspectiva do treinamento prático, em tempo real. Vários ganhadores desses estágios são hoje excelentes profissionais, em nossa televisão ou outras mídias.

A carreira do Américo, durante os 13 anos que militou no rádio e telejornalismo público, foi seguida por uma temporada dirigindo a BBC Brasil, em Londres, e depois, no continente americano, dos EUA até a Patagônia. Foi ainda por 4 anos diretor de jornalismo e esporte da Rede TV, aqui no Brasil e, em seguida, foi nomeado presidente da EBC, Empresa Brasileira de Comunicação em Brasília. Após deixar a EBC, voltou para Londres e, desde o ano passado, é o diretor de Parcerias Globais da BBC.

"Muitos veículos passaram a confundir opinião com notícia", por Américo Martins

No início deste ano fui convidado para fazer uma palestra na Universidade de Oxford sobre a política e a mídia no Brasil. A ideia do Reuters Institute for the Study of Journalism, ao me convidar, era discutir os desafios específicos da mídia brasileira na cobertura de assuntos tão espinhosos como a Operação Lava Jato e a profunda crise econômica que afeta o país. Isso num contexto também problemático nas próprias redações brasileiras, com os modelos de negócio sob pressão da transformação digital e pela queda de faturamento acentuado pela própria crise.

Com a presença de jornalistas e profissionais de mídia de vários países (russos, poloneses, americanos, latinos, africanos, árabes), a palestra logo virou um debate aberto, interessante e surpreendentemente leve. Ao fim, chegamos à conclusão de que a situação da mídia em todos esses países é muito similar. Cada vez mais, e em vários lugares do planeta, a mídia parece estar trocando a boa e velha reportagem pela simples opinião; a busca da isenção e do pluralismo pela campanha e defesa aberta por um dos lados dos respectivos debates nacionais.

Em muitos casos, parte da mídia já não oferece (e talvez nem procure mais oferecer) oportunidades de diálogo entre os vários setores da sociedade. Vários veículos importantes simplesmente decidiram ter um lado na cobertura de algum assunto relevante e passam a falar apenas para as pessoas que estão do lado escolhido. São os coxinhas x mortadela no Brasil; os apoiadores do Brexit x os apoiadores da União Européia na Grã-Bretanha; os eleitores de Trump x os chamados liberais nos EUA. Todos com jornais tradicionais, sites e outros veículos apoiando um lado ou outro abertamente. E ignorando outros lados, contraditórios, etc. 

Muitos veículos passaram a confundir opinião com a notícia. Pior: passaram a valorizar mais a opinião do que a notícia. E opiniões, muitas vezes, mais baseadas em convicções e preconceitos pessoais do que em análises críticas bem fundamentadas. Isso, concluímos na conversa, é um dos grandes problemas da mídia na atualidade. E essa postura, ao invés de salvar os veículos mais tradicionais de mídia, pode acelerar a decadência de suas próprias marcas nesse maravilhoso novo mundo digital.

Mas é claro que há exceções. Várias. Ao redor do mundo. Ainda existem veículos que  valorizam a boa reportagem. São plurais. Não tentam falar apenas com a bolha de apoiadores de alguma causa. Investem em jornalismo investigativo. Fazem uso constante do contraditório. Enfim, seguem simplesmente as boas regras do jornalismo.

Mesmo sendo talvez a minoria hoje, esses veículos me dão o otimismo necessário para acreditar que o bom jornalismo vai resistir e prevalecer – mesmo que muitas marcas morram no meio desse caminho. 

*Américo Martins é jornalista, durante 13 anos militou no rádio e telejornalismo público, dirigiu a BBC Brasil, em Londres, e depois, no continente americano, dos EUA até a Patagônia. Foi ainda por 4 anos diretor de jornalismo e esporte da Rede TV, aqui no Brasil e, em seguida, foi nomeado presidente da EBC, Empresa Brasileira de Comunicação em Brasília. Após deixar a EBC, voltou para Londres e, desde o ano passado, é o diretor de Parcerias Globais da BBC. 

Na seção "Sinval Convida", o diretor de IMPRENSA convida profissionais renomados para escreverem artigos sobre e para o trade de Comunicação. Leia também as colunas de Nemércio Nogueira, Ricardo Kotscho e Frei Betto.