"Imprensa aprendeu com Escola Base, mas segue errando", diz autor de livro sobre caso

Redação Portal IMPRENSA | 31/03/2017 11:00
O ano era 1994. Donos de uma escola infantil são acusados de abuso sexual de crianças e estampam capas de jornais, revistas e viram atração principal nos programas de TV. Meses depois fica provado que eles eram inocentes, o processo é arquivado, mas o estrago estava feito. A imprensa destruiu a vida dos envolvidos em um dos maiores erros da sua história: o Caso da Escola Base. 
Crédito:Reprodução
Mais de 20 anos depois, o jornalista Emílio Coutinho, colunista do Portal IMPRENSA,  decide voltar ao cenário, personagens e fatos que marcaram um dos episódios mais vergonhosos do jornalismo brasileiro. E, após meses de pequisa, investigação, chás de cadeira e resistência de entrevistados, lança na próxima terça-feira (4) o livro-reportagem Escola Base: Onde e como estão os protagonistas do maior crime da imprensa brasileira, com prefácio do jornalista Heródoto Barbeiro, âncora do Jornal da Record News e também colunista do Portal IMPRENSA.

"A imprensa aprendeu muito com o Caso da Escola Base, mas isso não quer dizer que não continue errando", diz Coutinho, que decidiu publicar o livro para atualizar o episódio e mostrar que "os estragos na vida das pessoas continuam vivos, mesmo após duas décadas". Ele afirma que ainda hoje o jornalismo sensacionalista comete os mesmos erros de 1994 ao divulgar dados pessoais de suspeitos: "O papel da imprensa, no caso do jornalismo policial, por exemplo, é o de pressionar as autoridades por segurança, e não o de incentivar a sociedade a praticar a justiça com as próprias mãos."

Sobre o livro, Coutinho diz que optou por escrever em primeira pessoa para aproximar o leitor dos "apertos, aflições e alívios" que sentiu durante a produção do material. "Desde quando saí apenas com os recortes de jornal de 1994, ano em que aconteceu o caso Escola Base, até quando consegui informações difíceis, mas importantes, que me possibilitaram encontrar alguns dos principais personagens. As dificuldades foram me motivando a escrever mais e mais", afirmou. A maior dificuldade, segundo ele, foi encontrar os personagens. 

Para não repetir casos como o da Escola Base, o autor diz que a imprensa precisa reforçar os cuidados básicos como boa apuração, desconfiança das versões oficiais e máxima isenção possível. "Sabemos que a imparcialidade no jornalismo é uma quimera, mas o repórter deve sempre lembrar que seu trabalho não é o de julgar ou condenar alguém, por mais que em algumas ocasiões isso possa ser tentador, mas o de informar", pondera Coutinho. E complementa afirmando que o jornalista deve ter em mente que quando está com um microfone ou uma caneta na mão tem uma arma que pode servir tanto para construir como para destruir vidas. 

Questionado sobre como seria o Caso da Escola Base em tempos de redes sociais e compartilhamento de notícias falsas, o autor responde: "Difícil prever com exatidão, mas acredito que o resultado seria o mesmo ou até pior. A diferença, a meu ver, seria o tempo em que as coisas aconteceriam. Hoje em dia, através das redes sociais, as pessoas se informam em uma velocidade quase real, e o compartilhamento de notícias por elas é realizado de tal maneira que se perde o controle facilmente. Desmentir uma afirmação atualmente requer um esforço muitas vezes hercúleo, e mesmo assim, algo sempre fica".

E reforça que é preciso ter cuidado com o que se compartilha, checar a fonte e decidir se aquele conteúdo será positivo ou negativo para os envolvidos e a sociedade. 

Lançamento do livro Escola Base: Onde e como estão os protagonistas do maior crime da imprensa brasileira, de Emílio Coutinho
Data: 04/04/2017 
Horário: 18h30 às 21h30 
Local: Martins Fontes Paulista - Av. Paulista, 509 (próximo à estação Brigadeiro do metrô)