"Há um tom de condenação", diz ativista sobre preconceito contra soropositivos

Redação Portal IMPRENSA | 07/03/2017 17:30



Atualmente, 827 mil pessoas vivem com HIV/aids no Brasil. Dessas, cerca de 112 mil não sabem que estão infectadas. Quase 40 mil novos casos são registrados, por ano, no país, segundo dados do Ministério da Saúde.

O último painel do 4º Fórum Aids e o Brasil, realizado em parceria com o Ministério da Saúde e o UOL e apoio da UNAIDS, debateu a prevenção, preconceito e riscos. Com mediação da jornalista Marilu Cabañas, o bloco contou com a participação de Pierre Freitaz (RNAJVHA), David Schurmann (cineasta), Gustavo Mendes (ator) e Alexandre Magno (Ministério da Saúde).


Para Mendes, o humor é a melhor forma para abordar qualquer assunto. “Sou de uma geração que não perdeu amigos para a aids. Tenho 28 anos, não vi isso. Até que, de dois anos para cá, morreram quatro amigos meus de ‘pneumonia’. Comecei a pensar: não, não pode. Por que morrem de aids? As pessoas têm vergonha de fazer exame, medo. Qualquer um está sujeito, como vamos falar se temos toda a limitação sexual, o tabu de sexo, da prevenção?” 

Freitaz concorda que será possível falar sobre DST, HIV e prevenção quando não existir mais tabu. “Fui infectado aos 15 anos. Tenho certeza que se o HIV não entrasse na minha vida, não estaria falando sobre aids hoje. Temos essa questão de se não faz parte de nossa vivência, não falamos sobre. Quando vem informações, são pontuais, algum artista, carnaval, 1 de dezembro. Nada além disso. Temos a dificuldade de trazer a pauta da juventude, não temos referência”.

Magno conta que começou a trabalhar com o tema em 1993, menos de 15 anos depois do aparecimento da aids. Em 1996, surgiu o coquetel que revolucionou o vírus e, em 1997, passou a existir a distribuição gratuita. “Nosso objetivo é retardar, ao máximo, a aids”.

Apesar do avanço, Freitaz pontua a existência do preconceito. “Quando a pessoa se descobre com câncer, há um olhar de cuidado. Com o HIV é ‘você procurou, né’. Um tom de condenação”.

Para Schurmann, há o conceito de que se a pessoa se infectar, vai tomar remédio e viver. “Claro que existe qualidade de vida, mas, mesmo assim, existe essa segurança de que há remédio pago pelo governo e de que o risco não é tão grande. Precisam entender que a doença pode vir a ter complicações grandes. Esse lado que as pessoas precisam acordar novamente”.

Segundo a apresentadora do evento, a jornalista Marilu Cabañas, é importante promover debates desse tipo primeiro por subsidiar jornalistas e produtores da mídia em geral para a elaboração de pautas variadas e ricas sobre o tema e proporcionar aos jovens o acesso às informações, experiências e opiniões que vão ajudá-los na prevenção da doença.

"E um dos segredos que o 4º Fórum Aids e o Brasil nos deixa é que quebrar tabus de forma bem humorada é mais eficaz entre os adolescentes. Nesse caso o poder da informação em casa, na escola ou na mídia, pode evitar que meninos e meninas contraiam o HIV. É fundamental debater o tema neste momento quando há o aumento do número de casos entre os jovens. Eu mesma aprendi demais com todos os participantes e fazendo auto-crítica, o quanto ainda preciso dar mais visibilidade ao tema no meio onde trabalho. Foi um "cutucão" grande! ", afirma Marilu.
 

Cinema

O cineasta David Schurmann falou um pouco sobre seu filme “Pequeno Segredo”, que conta a história de Kat, filha caçula da família de navegadores catarinenses Schurmann que foi adotada aos cinco anos e morreu aos 13, em 2006, por complicações da Aids. Veja o depoimento do produtor do longa:

“Minha mãe disse na época: ela não tem capacidade de entender o que tem. Havia aquele preconceito de chegar perto e não abraçar. Nós sabíamos quais os riscos, tínhamos uma vida normal. A Kat, com 11 anos, tomava os remédios, não crescia, mas, principalmente, por um fator genético. Ela se revoltava, todas as amigas se desenvolveram e ela não. Se revoltou e encarou a minha mãe - que não havia contado para ninguém, a não ser família e para a diretora da escola. Elas deitaram na cama e minha mãe contou, de uma forma direta. A Kat tinha 11 anos e se apoderou da doença. Pediu para a minha mãe não contar para ninguém. Ela aparecia na tevê sempre e ela queria contar para todo mundo. Infelizmente, faleceu antes. Então, me inspirei em contar o seu legado. O preconceito era enorme, continua sim, mas mudou. Na missa de sétimo dia dela, em uma igreja em Ilha Bela (SP), a mãe de uma amiga dela disse para a minha mãe ‘Se eu soubesse, nunca teria deixado minha filha brincar com a sua’. Você vê a ignorância - no sentido de não ter informação”.



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