Brasil, País dos vices, por Silvestre Gorgulho na seção "Sinval Convida"

Silvestre Gorgulho | 02/12/2016 14:30



Silvestre Gorgulho por Sinval de Itacarambi Leão


"Afilhado de Orlando Villas-Bôas, mineiro de São Lourenço, ex-seminarista, jornalista, amigo de Oscar Niemeyer e admirador maior de Juscelino Kubitschek, Silvestre Gorgulho fascina seus inúmeros amigos e quase nenhum inimigo.

O encanto que ele desperta nas pessoas decorre de sua personalidade alegre e social. Mas é mais; provém de sua capacidade de empreender, liderar movimentos e deixar sua marca em fatos e feitos em prol de causas generosas. Vou citar duas.

Quando trabalhava no Jornal de Brasília, criou em 1989 a Folha do Meio Ambiente, profeta que sempre foi da sustentabilidade do planeta e que edita até hoje, online.

Quando Secretário da Cultura do Distrito Federal, fincou num espigão a 14 km oeste de Brasília, a Torre da TV Digital, última obra projetada por Niemeyer para a capital brasileira. Seu nome poético é Flor do Serrado. Com  Sua altura de 180 ms, foi inaugurada em 2012 em comemoração aos 50 anos de Brasília.  

No livro 'Flor do Cerrado', poesia pura, Silvestre registra nas guardas do volume o nome dos 741 operários que trabalharam na construção da torre.

Em visita à capital federal, não deixe de admirá-la. O topo panorâmico é acessado por 688 degraus, mas use os elevadores e deslumbrará toda a Brasília cuja periferia nem JK imaginou.

Flor do Serrado é a marca que Silvestre deixa à Brasília que ele ama. É o Silvestre Gorgulho que todos conhecem".

Brasil: País dos vices, por Silvestre Gorgulho

O primeiro presidente civil do Brasil foi Prudente de Morais. Daí para frente, tivemos uma série de presidentes. Uns imprudentes e outros imorais.

E foi justamente por causa dos presidentes imprudentes ou imorais que o Brasil virou o país dos VICES.

O papel protagonista ocupado pelos vice-presidentes da República vem de longe.  Vem logo do início da República, quando um colégio eleitoral do Senado e da Câmara elegeu o primeiro presidente do Brasil: o alagoano Marechal Deodoro da Fonseca. Deodoro tinha como vice outro alagoano e militar: o Marechal Floriano Peixoto. E foi o vice, Floriano, elevado a Presidente da República quem consolidou a República. Aliás, por isso recebeu uma grande homenagem justamente de um estado sulino, Santa Catarina: a então vila da "Ilha de Santa Catarina", depois de receber o nome de Nossa Senhora do Desterro, passou a ser chamada de Florianópolis em homenagem a Floriano.

Também o mandato de Prudente Morais foi interrompido por motivo de doença. Prudente afastou-se de 10 de novembro de 1986, quando assumiu seu vice, o baiano Manuel Vitorino Pereira, que ficou presidente interino por quatro meses.

Outro vice de destaque na História do Brasil foi Nilo Peçanha. Ele substituiu o presidente Afonso Pena, mineiro de Santa Bárbara, que morreu antes do término de seu mandato. Nilo Peçanha foi presidente da República por um ano e cinco meses. De 14 de junho de 1909 até 15 de novembro de 1910.

O paulista Rodrigues Alves, que havia sido eleito presidente da República em 1902, foi eleito pela segunda vez em 1918. No segundo mandato tinha como vice o mineiro de Cristina, Delfim Moreira. Com o falecimento de Rodrigues Alves, vítima da Gripe Espanhola, Delfim Moreira assumiu e governou de 15 de novembro de 1918 a 28 de julho de 1919. 

Na Era Vargas, os vices saem de cena. Durante os 15 anos que Getúlio Vargas foi presidente (1930-1945) o cargo de vice foi extinto pela Constituição. Em 1950, Getúlio voltou ao Palácio do Catete pelas urnas. Mas o mandato de Vargas teve um desfecho trágico, pelo suicídio em 24 agosto de 1954. E novamente os vices tomaram conta da História. 

Foram três sucessões consecutivas: a do vice oficial, Café Filho, e a dos vices, por assim dizer, que estavam na linha sucessória: Carlos Luz, presidente da Câmara dos Deputados, e depois Nereu Ramos, presidente do Senado.

O potiguar Café Filho governou de 24 de agosto de 1954 a 8 de novembro de 1955. Em relação a Brasília, Café Filho deixou uma triste lembrança. Quando o Marechal José Pessoa, presidente da Comissão e Localização da Nova Capital, levou para ele os estudos técnicos para que desapropriasse terras demarcadas pela Missão Cruls, Café Filho foi grosso e pequeno: “Não vou baixar nenhum decreto considerando a área do novo Distrito Federal de utilidade pública. Considero a medida intempestiva e utópica”.

Carlos Luz, mineiro de Três Corações, assumiu a presidência da República em 8 de novembro de 1955, com o afastamento de Café Filho. Ficou apenas três dias no comando do País. Foi deposto pelo Marechal Lott, ministro da Guerra, justamente porque já tramava a não posse do presidente eleito em 3 de outubro, ninguém menos do que seu conterrâneo Juscelino Kubitschek de Oliveira.

Talvez a crise mais forte dos vices ainda estivesse por vir. 

Com a renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 1961, o vice João Goulart teve muitas dificuldades para assumir a Presidência. Taxado de comunista por setores militares, a conciliação só veio quando o Congresso adotou o regime Parlamentarista. Jango, com um plebiscito em 1963, restabeleceu seus poderes aprovando o Presidencialismo. Governou de 8 de setembro de 1961 a 1º de abril de 1964, quando foi derrubado pelo golpe militar.

Na ditadura, os vices também existiram, mas foram colocados de escanteio. 

Em 31 de agosto de 1969, o então presidente general Costa e Silva, por motivo de doença, afastou-se do poder. E o mesmo poder afastou imediatamente o vice Pedro Aleixo.

Dois outros vices roubaram a cena política brasileira. 

Primeiro foi José Sarney que governou todo o período para o qual foi eleito como vice do presidente Tancredo Neves (15 de março de 1985 a 15 de março de 1990). José Sarney, o 31º presidente do Brasil, fez a travessia do período militar para o regime democrático, usando sua experiência política e, sobretudo, sua paciência.

Outro vice que roubou a cena foi Itamar Franco. Eleito na chapa de Fernando Collor, que renunciou em 29 de dezembro de 1992, antes de ver aprovado seu processo de impeachment.  

Itamar Franco governou interinamente de 2 de outubro a 29 de dezembro de 1992 e foi o 33º Presidente do Brasil. Deixou o Palácio do Planalto em primeiro de janeiro de 1995. Governou com seriedade, implantou o Plano Real e ainda fez o seu sucessor Fernando Henrique Cardoso.

E quis o destino que a misteriosa força dos vices voltasse. O Congresso Nacional colocou outro vice no comando do País: Michel Temer. Aprovado na Câmara e no Senado Federal o impeachment da presidente Dilma Rousseff, o vice Michel Miguel Elias Temer Lulia assumiu como o 37º Presidente do Brasil em 31 de agosto de 2016.

Tenho esperança pessoal e uma avaliação histórica: os vices, na maioria das vezes, cumpriram com tenacidade, paciência e obstinação o papel a eles reservado. 

Tenho certeza que não será diferente com o advogado constitucionalista, doutor em direito político, eleito três vezes para Presidência da Câmara dos Deputados (1997, 1999 e 2009) Michel Temer. 

Temer sabe muito bem o momento histórico que o Brasil vive e a importância política dessa travessia. 

Os brasileiros foram às ruas, as massas obrigaram os políticos a tomarem uma decisão e o novo presidente tem que ficar com um olho bem aberto no Congresso Nacional e o outro muito mais aberto ainda nas ruas. 

O povo já decidiu: 
NÃO QUER MAIS CHEFES DE ESTADO IMPRUDENTES E MUITO MENOS IMORAIS.


Na seção "Sinval Convida", o diretor de IMPRENSA convida profissionais renomados para escreverem artigos sobre e para o trade de Comunicação. Leia também as colunas de Nemércio NogueiraMíriam LeitãoSérgio CarvalhoFrei Betto, Ricardo KotschoJosé NêumanneZé HamiltonRicardo NoblatOtto SarkisEugênio Bucci  Eloi Zanetti e José Maria dos Santos.