O risco de apagar a história

Artigo vencedor do Foca na IMPRENSA (Novembro/2016), por Nathália Galvão Pereira (PUC-Campinas).

Redação Portal IMPRENSA | 01/12/2016 16:30
FOCA NA IMPRENSA

Tema: "Neste ano, aumentou o número de pedidos para remoção de conteúdo na internet, além de tentativas de censura prévia a jornalistas e veículos. Seria esse o principal problema enfrentado pela imprensa hoje?"

AUTOR(A): Nathália Galvão Pereira 

PUC-Campinas - 4° Semestre

O livro "1984", de George Orwell, retrata a história de Winston, que vive numa sociedade totalitária absolutamente submissa ao poder do "Grande Irmão". Nada escapa à vigilância constante do Partido, que deve ser glorificado e cujas atrocidades e torturas são desmentidas pela destruição dos jornais publicados no dia anterior. Com a dizimação dos periódicos, exterminam-se também as memórias dos acontecimentos. No romance, após os registros serem apagados, os membros da população de Oceânia são simplesmente convencidos de que os absurdos praticados pelo governo nunca existiram.

Fato é que os jornais são documentos históricos, que refletem a cultura, a política, denunciam crimes cometidos, revelam as conquistas de um povo. Destruir esses documentos é deixar uma lacuna na história, é desconstruir parte da sociedade agindo como se os fatos não houvessem ocorrido.

George Orwell publicou a obra em 1949, com o título aludindo a uma previsão do futuro. Infelizmente, é possível que exista um risco de a previsão se concretizar. O avanço tecnológico torna o jornalismo cada vez menos palpável. As informações são cada vez mais acessadas pela internet, que permite o armazenamento de uma quantidade inimaginável de conteúdo, sendo possível resgatar um acontecimento que já não pertence a atualidade.

Os personagens de determinadas histórias registradas pela imprensa, contudo, podem ter um outro olhar sobre a eternização das memórias. Tem aumentado o número de pedidos para se retirarem conteúdos publicados na internet. Um levantamento feito pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) demonstrou que pelo menos 28 candidatos a prefeituras nas eleições municipais deste ano pediram censura prévia aos veículos de imprensa, pleiteando inclusive retirada de publicações na internet que pudessem comprometê-los.

O debate acerca da Lei do direito ao esquecimento, segundo a qual qualquer pessoa tem o direito a suprimir registros de seu passado na internet associado a fato calunioso, difamatório ou a crime do qual tenha sido absolvida, também ajuda a trazer o tema à tona. 

Um caso famoso é o da jovem Aída Curi, brutalmente assassinada em 1958 no Rio de janeiro. Em 2004, o crime foi relatado pelo programa Linha Direta da TV Globo, fazendo com que os irmãos de Aída entrassem na justiça, pleiteando indenizações da emissora. Eles afirmaram que a ferida causada pela morte da irmã voltara a se abrir graças à sua reprodução na televisão. O Supremo Tribunal de Justiça negou o pedido, mas a iniciativa dos irmãos de Aída revela uma tendência que se mostra mais presente na justiça.

Há o argumento de que se trata de defender a intimidade e o direito das pessoas, que não teriam que conviver com a exposição pelo resto de suas vidas ou terem para sempre lembrados os erros do passado. Porém, deve-se refletir sobre o que é respeito à intimidade e o que é censura e atentado à liberdade de expressão, sempre levando em consideração as implicações de se apagar a história.