"O jornalismo é enviesado, com uma única visão de economia", diz José Paulo Kupfer

Gabriela Ferigato | 29/11/2016 06:00
De seus 49 anos de jornalismo, 43 foram – e continuam sendo – dedicados à área econômica. Formado em economia pela Universidade de São Paulo (USP), José Paulo Kupfer transitou pelas redações da Exame, IstoÉ, O Globo, Estadão, chegando nesse último, em 1988, com a missão de criar e planejar um caderno de economia próprio, ainda inexistente no veículo, que segue até hoje.

Eleito “Jornalista Econômico do Ano” em 2015 pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP) e pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB), Kupfer, colunista do Estadão e articulista do O Globo, tem quase como uma batalha pessoal o olhar voltado para a diversidade de fontes no segmento.
Crédito:arquivo pessoal
“Apurei e descobri que é claro que tem um conforto em cobrir o que a linha editorial acha que é o correto. Mas não é o principal. O principal é o processo de produção jornalística”, ressalta. Seu estudo faz parte do artigo “Fontes viciadas: confirmar-se ou formar”, reproduzido na Revista de Jornalismo da ESPM no último trimestre de 2014.

À IMPRENSA, o jornalista também contou sobre a sua teoria, a falta de diversidade de fontes, os desafios da área, comparou o jornalismo brasileiro com o estrangeiro, opinou sobre o repórter como protagonista da informação, dentre outros assuntos. Confira a conversa abaixo.

IMPRENSA - Quando a editoria de economia ganhou corpo nos veículos brasileiros? O Milagre econômico brasileiro (1968 e 1973) foi um fator determinante?
José Paulo Kupfer - A editoria de economia nos anos 1950, mesmo na primeira metade dos anos 1960, acontece a partir de reformas feitas pelo Golpe Militar na economia, inclusive com a criação do Banco Central, isso coincide com o nascimento das editorias específicas. Antes disso, era um pedaço da [editoria] geral, não tinha um lugar próprio. Já tinham alguns especialistas, especialmente no Estadão e no Jornal do Brasil. Um pouco mais tarde houve a criação de um primeiro caderno de fato no Correio da Manhã, não apenas uma editoria. Foi na segunda metade dos anos 1960 que as editorias de economia se estruturam.

Em sua opinião, atualmente os jornalistas estão se sobrepondo a informação?
Vou falar de modo geral, porque a economia não é diferente dos outros segmentos que a imprensa cobre. Acho que, sim, recentemente o jornalista, por pressão ou alguma outra coisa, talvez pela televisão ou ainda mais agora com redes sociais, resolveu ser protagonista. Eu refuto isso. Nós não somos protagonistas. Somos narradores e precisamos ficar “invisíveis” na cena para não influenciar. Sempre influenciamos a cena, evidentemente, mas o esforço é para não influenciar. O que aconteceu é que com o passar do tempo, inclusive com a informação sendo muito disseminada e cada vez mais em tempo real, a opinião do jornalista, e aí alguns conseguem mandato para isso, passou a ter grande importância diferencial. Tem hoje de um lado maior carga de opinião na economia, isso é muito forte, mas é também na política, esporte. Tem o repórter protagonista, isso é muito típico de tevê, mas também “contaminou” os outros meios. Claro que, em certos momentos, em um tipo de história, o relato do repórter é importante, em primeira pessoa. Mas são casos específicos. Eu, pessoalmente, tenho dificuldade. Sou um jornalista formado lá atrás, fazendo cinquenta anos na profissão. Não consigo escrever em primeira pessoa. O que eu acho não importa nada, o que importa são os fatos que consigo juntar, combinar, correlacionar, e tirar uma ideia para a frente. Vejo que cada vez sou mais minoria.

Qual o entrave do jornalismo econômico hoje?
O problema que vejo hoje - e que não via tanto há vinte anos, talvez tivesse e eu não percebia - hoje percebo, com a minha experiência na grande imprensa, que o jornalismo é muito enviesado, desequilibrado, com uma única visão de economia. O termo eu não gosto, porque é muito resumidor, mas a visão predominante na cobertura dos temas econômicos é neoliberal. As fontes, digamos assim, contraditórias, que são ouvidas, são poucas, 80% - talvez mais - da cobertura se apoia em fontes com pensamento econômico ortodoxo. Não gosto desse rótulo, mas para poder entender. Acho que é o maior problema da cobertura econômica e isso é generalizado - falando da grande imprensa. Tem um circuito funcionando, eu já analisei isso, fiz pesquisas pessoais, é uma batalha minha, sobre a necessidade de formar novas fontes.

Não há diversidade de fontes?
Em economia, especialmente, as fontes são todas velhas. Um cara aparece num lugar, o outro busca ele, vai para a tevê, rádio. Vira um circuito. A gente sabe quem fala e qual o assunto. São sempre os mesmos. Eu tenho uma teoria. Não é o que parece. Não é apenas porque é mais confortável para os jornalistas e editores, porque coincide com a visão das casas. 

Qual é a sua teoria?
Tenho um artigo publicado na revista da ESPM, cujo título é “Fontes viciadas em economia”. Em resumo, apurei e descobri que é claro que tem um conforto em cobrir o que a linha editorial acha que é o correto. Mas não é o principal. O principal é o processo de produção jornalística. As redações estão muito enxutas, os jornalistas são multitarefas, têm jornadas imensas - nem acho errado, a profissão é para isso. Tem que conduzir da reportagem ao fechamento - as folgas devem compensar essa situação. É algo do processo. Mas, de toda maneira, é complicado e estressante. Os pauteiros e os próprios jornalistas não tem muito tempo e estímulo para ir procurar fontes alternativas. Nesse período em que as redações ficaram enxutas, as assessorias se profissionalizaram, cresceram barbaramente e descobriram o espaço do debate, especialmente na área econômica. 

Qual a consequência dessa evolução?
Oferecem opinião, especialistas para falar sobre aquilo que aconteceu dez minutos atrás. No jornal hoje é comum aparecer uma notícia econômica e uma pequena análise de um economista/professor, isso é negociado com a assessoria de imprensa da escola dele. E alguma são muito ativas nisso e esse texto chega em meia hora. O acesso a esse pessoal que está treinado para falar e tem interesse em participar no debate econômico pela imprensa - porque isso gera clientela, no caso das escolas, alunos - faz com que esse circuito fique muito viciado. As fontes alternativas necessárias para contestar, contradizer, fazer com que o leitor tenha um leque de alternativa, fica prejudicado. Porque, do outro lado, as fontes que não são oferecidas, normalmente são invisíveis. Um professor que não tem interesse, nunca pensou quanto seria interessante para ele participar desse debate. Você acha o cara, liga e ele diz “Que ótimo. Vamos ver. Pode ser quarta que vem?”, E eu estou precisando para ontem. É preciso formar novas fontes. Digo isso, me lembrando lá atrás, nos anos 1970, quando a gente formou as fontes para falarmos sobre economia, não existia fonte. Ensinamos que eles poderiam falar, escrever e que não precisariam ser tão rigorosos quanto na vida acadêmica, mas que isso seria importante para o debate e para eles. Quantos economistas foram para governo depois de serem expostos no debate na imprensa por nossas mãos.

Em 1988, IMPRENSA trouxe em sua matéria de capa a reportagem “Escribas do apocalipse” sobre a cobertura do jornalismo econômico. Acha que vocês são vistos como catastróficos?
Nós somos os “urubus” do cotidiano. Inclusive, as pessoas nos veem como aqueles que só procuram as más notícias. É a visão geral. Eu refuto isso. Acho que a gente procura as notícias diferentes, o que não é comum. Até brinco que ninguém fica com uma equipe percorrendo a Avenida Paulista o dia inteiro para reportar no fim do dia “não houve incêndio”. Com aquela quantidade de fios, prédios, tensão elétrica era para ter. A sociedade é montada para não ter. Só vai sair notícia disso quando tiver, enquanto não tiver, não vai sair. É uma coisa diferente do usual. Me lembro muito de empresários e executivos reclamando que nós só publicávamos notícia ruim, que eles passavam anos funcionando bem, dando lucro e ninguém falava sobre a empresa. Na hora que dava o primeiro prejuízo, aparecia todo mundo. Claro, o negócio não é feito para dar prejuízo. Enquanto der lucro, não vou aparecer. Se der um lucro excecional, eu vou. Porque isso é diferente. Formar fontes também é dizer “olha, não é só má noticia. É informação inusual.

Como compara o jornalismo econômico exercido pelos profissionais/veículos brasileiros em relação aos estrangeiros? Como Economist, Forbes etc?
O do resto do mundo, dos anos 2000 para cá, ficou muito mais parrudo. Depois de 2008 mais ainda, crise é sinônimo de reforço do jornalismo. Essa é uma constatação óbvia. Houve um crescimento da cobertura de política econômica na imprensa internacional. Ainda assim, um detalhe engraçado, as editorias de economia no próprio NYTimes chamam “Business” [negócios]. Havia, especialmente nos jornais gerais da imprensa americana, um entendimento de que a cobertura de economia era cobertura de negócios. Na hora que a política monetária, Banco Central, ganhou grande importância, passou a cobrir política econômica nesse sentido que conhecemos muito bem aqui - mas ainda chama business. A cobertura deles hoje é muito parecida com a nossa. Mas nós somos maiores, apesar da derrubada geral na grande imprensa, a nossa cobertura de economia sempre foi muito forte. Porque é um país de muita crise econômica, todo mundo quer entender o fenômeno. Nós fomos pioneiros e eles hoje estão parecidos com o tipo de cobertura, colunistas etc.

Você já sofreu algum tipo de pressão interna ou externa ao longo de sua trajetória na profissão?
Vou falar da minha experiência. Nunca senti nenhuma pressão interna, especialmente de anunciante, que nos impedisse de fazer qualquer coisa. Me lembro que na Abril, o maior anunciante nesse período [década de 1980] era a Souza Cruz e a campanha antitabagismo corria solta por lá. A ideia era que, se você cedesse, seu fim seria como o da Manchete. Porque a credibilidade era a qualidade mais importante do veículo. Pressões internas, sim, não explícitas, veladas. Mas nunca, em nenhum dos lugares em que trabalhei, a ponto de impedir a publicação de alguma coisa. Se você aparecesse com a matéria comprovada, convincente do que falava, não tinha problema. 

Senti um problema naquele tempo. A Abril, nos gloriosos anos 1980, tinha não sei quantos mil jornalistas, redações, um negócio espetacular. O prestígio dos jornalistas, criada pelo Victor Civita, era imenso. Ele foi o cara que inventou o jornalista dirigindo a operação jornalística. Naquele tempo, a gente ia ser jornalista para mudar o mundo. Era engraçado, a revista Exame era um reduto – ainda não tinha o PT – do sindicato na Abril. A revista do capitalismo era feita por gente de esquerda. O que, se pensar, está muito certo. Como jornalista, esse cara que não é protagonista, que não vive a cena, é uma qualidade. Se for honesto, vai olhar sem estar envolvido. Começou a ter, era uma época de efervescência sindical, algum estranhamento. Houve uma mudança completa no final de 1987/1988 e aconteceu uma debandada. Lembro que saiu todo mundo. Eu fui para o Estadão. Mas, em 1987, coordenei uma matéria que foi tocada pela editora de economia da Exame, a Cida Damasco, que é um dos maiores orgulhos. Ela coordenou e eu conduzi. Era uma capa chamada “O Brasil está parando”. Tinha uma pintura do artista Figuerola, com um trem vindo, tinha uma barricada e ele ia descarrilhar. Foram 15 páginas que se localiza a década perdida. Mas aquilo causou um mal-estar enorme na Abril. Eu localizo nessa capa magnífica um jornalismo mostrando para frente, o que ia acontecer. Não errou nada. Mas vejo ali o início do desmonte da Exame, daquela redação. A reportagem saiu. Resumindo, eu nunca recebi pressão de ninguém. Nunca alguém chegou para mim querendo me dar algo em troca de algo. Interna ou externamente. 


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