Sinval Convida: Jornalista Zé Maria dos Santos fala sobre transformações das redações

José Maria dos Santos | 25/11/2016 15:30



José Maria dos Santos por Sinval de Itacarambi Leão


"Nas redações paulistas dos anos 1960 e seguintes, não era só a pronúncia do “erre” que definia os jornalistas oriundos do interior do estado. Era o jeitão meio caipira e abertura proativa para um bom papo. José Maria dos Santos, nascido em Jaú, vestia o figurino acrescentando um lado bem humorado que o marcou nos Diários Associados, Folha da Tarde, Manchete, Placar, Época, Jornal da Tarde e nós últimos anos, no Diário do Comércio onde formou uma dupla inesquecível com Moisés Rabinovich.

Suas estórias mais memoráveis misturam fontes e coleguinhas. Hoje suas melhores horas são organizar essas estórias para um livro que já está escrevendo. O fazer jornalismo dá ao Zé Maria, como seus amigos o tratam, o plus que se exige de um jornalista: argúcia na apuração, o timing da narrativa, elegância no texto e inteligência na edição.

Quem quiser ficar amigo do Zé, é só puxar conversa sobre o XV de Jaú, clube do seu coração. Chegou até a provar a grandeza da cidade com uma seleção que o Telê jamais convocou. Os atletas tinham em comum o fato de terem nascidos ou criados em Jaú e jogavam em diversos clubes brasileiros ou no estrangeiro, isso nos anos 70 e 80.

Aguardem o livro do novo futuro escritor".   

 

O tempora! O mores!, por José Maria dos Santos

Tenho bem vivas na memória duas cenas que retratam com perfeição as profundas transformações das redações nos últimos 50 anos ou, se preferirem, do seu fechamento para o mundo exterior, tanto na simbologia como na prática. Ambas se deram na redação dos Diários Associados – Rua 7 de Abril 230, 1º andar, SP – na qual comecei a ‘reportariar’ em 1967.

Na primeira delas eu vejo Orlando Vilas Boas, sentado numa cadeira descrevendo para uma interessada roda de jornalistas, com aquele agradável linguajar caipira de Botucatu (SP), sua inusitada atribulação vivida no fim de semana no mar de Ubatuba. Estava nadando sossegadamente, quando uma onda mais forte levou o seu calção, que estava ligeiramente frouxo. Ficou bons minutos gritando da água, com as mãos em concha ao redor da boca, para chamar a atenção de alguém que lhe levasse um pedaço de pano qualquer, até que um sorveteiro veio em seu socorro.

Na segunda cena, encontrava-se um artesão de Embu das Artes conhecido Kubitschek, que também alimentava animado bate-papo num canto da redação. Alguém lhe perguntou a origem do curioso apelido. “É que o pessoal diz que eu vivo no ar”, respondeu, aludindo à paixão do presidente JK por aviões, que lhe rendera, aliás, marchinhas satíricas compostas por Juca Chaves. A presença de Kubitschek ali era habitual. A comunidade artística do Embu empreendia um entra-e-sai praticamente diário naquela redação, que se prolongava pelos bares das redondezas à noite.

Tais visitas, sem motivos aparentes, se davam em pleno horário de trabalho. Perdi a conta das vezes em que vi Adoniran Barbosa entrar porta adentro para levar o querido, para mim, Arley Pereira a um boteco chamado Scala, próximo ao Largo do Arouche, a fim de, simplesmente, jogar conversa fora.

Convém lembrar que esse trânsito livre não se restringia a figuras conhecidas Volta e meia, repórteres eram surpreendidos em suas mesas por pessoas que iam reivindicar alguma coisa. Nesse momento, lembro até de um ex-pracinha da FEB que ia me chorar suas justas mágoas de neurótico de guerra. A redação era uma espécie de território livre, avesso a regras. Se vocês têm dificuldade para aceitar essas narrativas, por favor consultem Wilson Gomes, que está firme e forte, então responsável pela redação, que foi meu primeiro, e também querido, chefe de reportagem.

Nas últimas das 20 redações pelas quais passei em 50 anos de jornalismo – Época, Jornal da Tarde, Diário do Comércio - as pessoas somente entravam após demoradas negociações nas portarias. Provavelmente muitas delas desistiam, seja pela impossibilidade em vencer o isolamento físico e geográfico estabelecidos pelos edifícios jornalísticos, seja pela intimidadora atmosfera de vigilância, traduzida em crachás e nos olhares atentos dos seguranças até que as portas dos elevadores se fechem.

Recentemente tentei passar a um dos meus antigos focas uma pauta que julguei interessante. Referia-se à Escola Marina Cintra, na Consolação, alavancada, merecidamente em função da qualidade, por João Doria, ex-aluno, na sua campanha.  Simultaneamente à essa virtude, o prédio tem sido alvo de sucessivas pichações, maculando inclusivo um belo relevo externo, salvo engano em granito, no Anchieta catequiza a indiada.

Acresce que por trás do vandalismo há um antecedente dramático nessa questão: a porcaria, que tem sido removida obstinadamente por iniciativa de pais dos alunos, eles próprios e professores, se repete odiosamente. Eu já havia escrito três vezes a respeito, sem qualquer efeito. Pelos meus cálculos, a atual é a sexta. O tema, jornalisticamente, no meu entender, era oportuno por envolver a promessa do prefeito eleito em combater pichadores, sobretudo porque atacaram no seu próprio quintal.

Acreditem! Não consegui falar sequer com meu antigo focídeo marinho. 

Os diversos interlocutores, sempre apressados e distraídos, foram me jogando para lá e para cá, até que, desesperançado, atirei a toalha ao ringue. 

É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um cidadão entrar numa redação.


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