IMPRENSA relembra cobertura econômica dos últimos 30 anos; confira hotsite especial

Gabriela Ferigato e Sinval de Itacarambi Leão | 29/11/2016 02:00



O jornalismo econômico no Brasil caminha no compasso de contextos marcantes, como o regime militar, a redemocratização e as conjunturas políticas econômicas de seus governantes.


Como resume a autora Hérica Lene no livro “Jornalismo de economia no Brasil”, ao refletir sobre a imprensa brasileira no fim do século XX, nota-se que o jornalismo de economia fez, pelo menos, três movimentos importantes:


“Passou de uma fase em que servia ao regime militar e fazia propaganda econômica do governo para outra de caráter mais pedagógico e voltado para os cidadãos nos anos 1980; e, na década seguinte, se colocou a serviço da economia virtual e do mercado”.

Muitos decretam o seu nascimento na década de 1950, durante o governo de Juscelino Kubitschek (1955-1960). O período registrou o mais expressivo crescimento da economia brasileira, principalmente com seu notório lema “Cinquenta anos de progresso em cinco anos de governo”.

Crédito:reprodução/IMPRENSA
Foi a partir dos anos 1960, porém, que ganhou corpo com o chamado “milagre econômico” (1968-1973), durante o regime militar.  Em agosto de 1988, IMPRENSA trazia em sua matéria de capa a reportagem “Os escribas do apocalipse”, assinada por Gabriel Priolli.

Nela, resumia que o jornalismo econômico surgiu no Brasil, de fato, no início dos anos 1950. Na década de 1960, aprendeu a falar português. E, nos anos 1980, dava bons serviços ao leitor. 

Acompanhar o trabalho da mídia sempre foi o norte de IMPRENSA desde a sua criação, em setembro de 1987. Ao entrar em seu ano 30, o especial “IMPRENSA 30” percorre as últimas três décadas de cobertura do jornalismo. Após rememorar como olhou para a política em suas páginas na série “Imprensa e Democracia”, acompanha agora como noticiou o tema economia.

Nova República

Além da morte de Tancredo Neves e posse do vice José Sarney, o Brasil foi um laboratório vivo de tentativas macroeconômicas para enfrentar a inflação herdada da ditadura militar. De dois dígitos a inflação no dez. Ano de Sarney chegou a 225% e, no último, a 275%. Terra fértil para o jornalismo, Carlos Sardenberg lançou em 1987 o livro “Aventura e agonia nos bastidores do cruzado”, sobre o Plano Cruzado. Outros jornalistas vieram atrás na grande imprensa explicar os demais planos: Cruzado II, Bresser, Verão, Cruzado Novo, Collor I, Collor II e Real.

IMPRENSA nasceu no plano Bresser (1987) e acompanhou não só nas suas matérias de capa, mas em entrevistas, perfis e em seções específicas como o “Economês” (acompanhe aqui algumas das reportagens dessa seção), o tempo em que a macroeconomia virou jornalismo econômico. 
 
Política econômica

Como acontece hoje, a temática corrupção era recorrente na cobertura dos veículos de comunicação e, consecutivamente, de IMPRENSA. Em junho de 1991, em pleno governo Collor, a reportagem “Mar de Lama”, do jornalista Gilberto Dimenstein, afirmava que “não havia um dia em que a imprensa não se referia a uma suspeita de golpe, a um golpe realizado ou frustrado em todas as esferas da administração pública”.

“A corrupção é vista, dentro da ótica acomodada e cínica, como algo tão brasileiro como o samba, o corcovado ou o acarajé. Irremovíveis”, arrematava. Não seria nada difícil um paralelo com o momento que o Brasil vive hoje — 25 anos mais tarde.

No mês seguinte (agosto de 1991), IMPRENSA trazia o “Guia da Corrupção”, mostrando exatamente o conceito acima, de que a corrupção já havia se tornado, na crença dos brasileiros, “algo natural do país”. Em março de 1994, o assunto voltava para as páginas na matéria “A corrupção no jornalismo. Dez dos maiores jornalistas do país tocam o dedo nessa ferida”.

No segundo ano do governo de Fernando Henrique Cardoso, o texto “Jornalismo chapa branca” estampava a capa de IMPRENSA. E afirmava que “a imagem pessoal do presidente e a vitória contra a inflação neutralizam as oposições. E até donos de jornais reconhecem, a imprensa está muito complacente com o governo”.

Dentre as opiniões em destaque, o jornalista Mino Carta, criador da então recente revista Carta Capital, dizia que “a imprensa convém ao poder, serve o poder, faz parte do poder (..) Na Europa, apesar de quatro ou cinco holdings controlarem a imprensa, os compromissos são claros. Aqui a imprensa gosta do consenso absoluto, quer mostrar que somos todos felizes, temos um presidente maravilhoso”, espetava.

Sustentando o argumento, Carlos Heitor Cony reforçava que “a imprensa foi seduzida por FHC”. Do outro lado, Augusto Nunes acreditava que a mídia vinha sendo bastante dura com o governo. Mais uma vez, FHC era o assunto da edição seguinte. “Para onde ele vai nos levar”, indagava a capa de março de 1996.

Já nos meses finais da gestão do petista Luiz Inácio Lula da Silva, a capa “Cesta básica” mostrava que o incremento na renda do brasileiro também propiciava o consumo de informação.

“Do sertão a cidade, o presente do Brasil traz um fato novo para a massa. O atual momento positivo para a nova classe média atrai a imprensa nacional para mais perto do povo. Ao menos para o meio jornal, agora voltaram com sucesso as notícias populares”, introduzia a reportagem ao mesclar palavras com colagens de nomes de veículos – como Fato Novo, Povo, Agora e Notícias Populares.
 
Mercado

Ao longo das últimas três décadas, entrevistas com grandes empresários do mercado de comunicação, a busca por modelos de negócios, os caminhos em torno de publicidade e receita e a crise da profissão foram tópicos recorrentes nas páginas de IMPRENSA.

O perfil do fundador da Editora Abril, Victor Civita, estampou a capa da publicação um mês após o seu lançamento, em outubro de 1987, com a chamada “O nosso Tio Patinhas”.

Para o jornalista Paulo Markun, o empresário contou que o sonho da Veja nasceu em 1968 e se transformou em um pesadelo de 6,5 milhões de dólares. “A revista é um capítulo à parte na vida de VC e da Abril. Surgiu no prenúncio da tempestade chamada AI-5 e deu de cara com a censura”, pontuava Markun.

No mesmo ano, apresentava a matéria “A bíblia do capitalismo brasileiro” e como a Gazeta Mercantil, um jornal diário, com 18 a 28 páginas editoriais e tiragem de 100 mil exemplares, foi considerado o sexto jornal de negócios do mundo pela revista Fortune. Para a Universidade de Columbia (EUA), era um devotado serviçal da liberdade de imprensa e do entendimento entre os povos da América.

Segundo o artigo, apesar de não pagar salários acima da média do mercado, o veículo conseguiu formar uma das melhores equipes de jornalismo econômico do país, que inclui nomes de profissionais como Celso Pinto, Angela Bittencourt e Lilian Witte Fibe. “O que a gente tenta fazer aqui é caracterizar a liberdade de imprensa como o direito do leitor ser bem informado”, dizia Sidnei Basile, então diretor do jornal.

Analisando os rumos do jornalismo econômico, a extensa reportagem “Os escribas do apocalipse”, de agosto de 1988, mostrava que, como recordista absoluto de manchetes, o jornalismo econômico reduzia suas taxas de más notícias e investia no charme das histórias de negócios.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Estudos de Comunicação (IBEC), de janeiro a junho de 1988, esquadrinhou centímetro por centímetro de 1695 primeiras páginas dos dez jornais mais influentes do país e comprovou que do total de 25.480 matérias editadas, 5551 (21,78%) tratavam de economia.

No rol de grandes entrevistas, Ari Carvalho detalhou o seu “negócio de ocasião” e como assumiu o Diário Popular em apenas cinco dias. “A compra do jornal é, sem dúvida, o negócio menos ortodoxo concretizado no campo da imprensa nos últimos anos. O diário popular mudou de mãos numa operação digna de figurar no roteiro do filme Wall Street, onde o especulador Gordon Gekko manipula negócios e dólares”, contava a matéria.

Na edição de maio de 1996, IMPRENSA conversou com o executivo por trás dos negócios da Folha de S.Paulo, Luís Frias, com apenas 33 anos na época. Ele previa que a “mídia em papel e tinta ia sobreviver por muito tempo”.

“Eu não seria capaz de prever o dia em que os jornais diários em papel e tinta vão desaparecer. Nem sei se esse dia vai chegar. A questão mais pertinente não é saber quando os jornais em papel e tinta vão desaparecer ou ser substituídos por uma versão eletrônica. Mais pertinente é saber quando os jornais vão deixar de ter a importância que têm hoje”.

No campo internacional, o repórter e colunista de IMPRENSA (na seção "Manhattan") Lucas Mendes, direto de Nova York (EUA), traçava o perfil do maior empresário do mundo e então novo sócio de Roberto Marinho, Rubert Murdoch, em setembro de 1995.

Comentaristas Econômicos

Na década de 1980, jornais e revistas que mal publicavam notícias econômicas criaram editorias especificas. Enquanto isso, o rádio e tevê conheciam a figura, até então inédita, do comentarista econômico, como Joemir Betting, Marco Antônio Rocha e Luiz Nassif.

Com o mesmo mote, em outubro de 2003, o jornalista Sidnei Basile, então diretor da revista Exame, descrevia os caminhos do jornalismo econômico. O profissional era crítico no que dizia respeito aos jornalistas como protagonistas da notícia.

“Quando vou entrevistar o ministro da Fazenda, tenho absoluta certeza que o leitor da Exame não tem o menor interesse em saber o que Sidnei Basile acha da inflação, juros, recessão. Ele quer saber o que o ministro tem a dizer a respeito. A ideia de que o jornalista deve estar apto a ouvir as partes, o maior número possível delas, para que o leitor faça suas escolhas, é muito democrática”.

Mais recentemente, em 2015, pressionada pela má fase da economia e tentando driblar a queda nos investimentos publicitários, a mídia brasileira vivia uma realidade ainda presente: as temidas demissões ou, no jargão da classe, os “passaralhos”. Algo que o mercado ainda sofre, em baques seguidos ou homeopáticos – bem como o enxugamento de editorias e sucursais ou até mesmo fechamentos de veículos.

O jornalismo econômico evoluiu e IMPRENSA acompanhou seus passos. Como define o jornalista Bernardo Kucinski na obra “Jornalismo Econômico”, “a democratização desse tipo de informação democratiza a própria economia e contribui para a sua maior eficiência”. Nisso, sim, os jornalistas devem ser protagonistas.