"Não, eu ainda não tenho Facebook", por Eugênio Bucci na seção "Sinval Convida"

Eugênio Bucci | 11/11/2016 14:30


Eugênio Bucci por Sinval de Itacarambi Leão

A metalinguagem do jornalismo brasileiro tem, em Eugênio Bucci, um representante convicto. Jornalista, acadêmico e professor da ECA/USP, ilustra seu próprio currículo e biografia com um perfil afável, proativo e, principalmente, crítico que encanta seus amigos e desarma seus desafetos políticos ou corporativos. Mais que ninguém hoje, entre os coleguinhas, Bucci se impõe com autoridade impar, pois sua vida profissional alia teoria e prática. Poucos jornalistas tiveram a condição de trabalhar na grande imprensa, na academia e na comunicação pública.

Em o “Estado de Narciso”, encontramos uma síntese dos problemas convergentes do jornalismo brasileiro. O maior mérito de Bucci é poder simultaneamente fazer a crítica da produção jornalística histórica e atual e contextualizá-la na convergência de consumo de mídia da sociedade brasileira. A comunicação pública é um desses rodamoinhos que mostra o quanto os brasileiros são surrupiados em seus direitos no que afinal de contas é a ração diária de informação da cidadania.

Vale a pena lembrar o debate do digital, incluindo a modelagem de negócios da indústria jornalística e a questão das mídias sociais. A contribuição de Bucci, principalmente via ensino e pesquisa acadêmicos, é fundamental para o desenvolvimento da comunicação brasileira.

Não, eu ainda não tenho Facebook, por Eugênio Bucci

Quem tem por ofício escrever artigos para jornais ou revistas, tende a se habituar com os protestos dos leitores, esses seres improváveis que, não obstante, existem. Devo algumas das mensagens mais raivosas que já me mandaram a uma coluna que escrevi contra o Facebook, na revista Época. Eu já critiquei Dilma Rousseff, Michel Temer e as passeatas pró-impeachment, nas quais identifiquei traços explícitos de narcisismo (o que também me rendeu uns poucos desaforos), mas nunca recebi tanto impropério como naquela vez.

No velho texto (de junho de 2012), com o título de “Por que eu nunca entrei no Facebook”, apontei defeitos que, aos meus olhos, são gravíssimos. O modelo de negócio inventado por Mark Zuckerberg e seus sócios iniciais, entre eles o brasileiro Eduardo Saverin, é de fato espantoso. 

Nele, o usuário é a mão de obra (pois é ele quem digita tudo o que estará escrito nessa que que se tornou a maior rede social do mundo), é a matéria-prima (pois são as suas histórias, suas imagens, seus depoimentos, seus relatos e suas intimidades que abastecem todo o conteúdo a ser comercializado) e também a mercadoria (pois o que o Facebook vende ao mercado não é nada além do que os olhos das pessoas que lá se comunicam umas com as outras). 

Nesse modelo de negócio, como bem sabemos, a mão de obra sai de graça e a matéria-prima, idem. Quanto à mercadoria, nem se fala. Não apenas ela é gerada a custo zero como ainda faz a festa ao ser vendida a qualquer um. O Facebook só precisa investir em tecnologia e inovação. Depois, é só faturar.

A minha bronca não fica só nisso. O inventivo – e desleal – modelo de negócio de Zuckerberg conseguiu o feito de se tornar monopólio mundial. Nesse ponto, as ironias pululam. O Mídia Ninja, por exemplo, era feito exclusivamente no Facebook, e muitos de seus posts traziam denúncias de alegados monopólios e oligopólios dos meios de comunicação no Brasil, mas nenhuma linha era disparada contra o monopólio global do Facebook, o traficante da privacidade de seus escravos satisfeitos, que desejam o Facebook como desejam alcançar a arena pública. 

De meu lado, sigo esperando o advento de uma próxima solução em matéria de rede social. Espero algo menos sovina, menos perverso e menos injusto. Sigo à margem. E sigo meio enfezado. Sou contra expropriação à força do capital, mas uma proposta de expropriação do Facebook me faria pensar no assunto. Eu nunca vi uma privatização tão atroz de fluxos, tráfegos e nexos que, em nome de tudo o que prezamos na democracia, deveriam ser públicos.


Na seção "Sinval Convida", o diretor de IMPRENSA convida profissionais renomados para escreverem artigos sobre e para o trade de Comunicação. Leia também as colunas de Nemércio NogueiraMíriam LeitãoSérgio CarvalhoFrei Betto, Ricardo KotschoJosé NêumanneZé HamiltonRicardo Noblat e Otto Sarkis.