"Entristece a falta de recursos para a investigação real", diz Otto Sarkis

Otto Sarkis | 04/11/2016 14:30



Otto Sarkis por Sinval de Itacarambi Leão


Diamantina, em Minas, muito deve ao jornalista Otto Sarkis. Na virada do milênio, a cidade recebeu da UNESCO, o título de patrimônio cultural da humanidade. Foi um dos lutadores convictos, juntamente com Américo Antunes, também jornalista, por esse reconhecimento mundial e que se traduziu mais tarde na escolha da cidade como sede do Festival de  História – fHist – evento hoje que reúne professores e historiadores para um debate transoceânico em diálogo de cidades irmãs, com a milenar Braga em Portugal.

O Festival é a menina dos olhos de Otto. Jornalista mineiro, trouxe para a capital federal, em 1995, o Hoje em Dia, diário em que trabalhava em BH, de cuja edição nacional produzida em Brasília ele foi sócio. Hoje é um dos mais reconhecidos empreendedores do setor turístico da capital federal e, de novo com Américo Antunes, volta ao jornalismo via Festival.

Para 2017, promete um festival pop, trabalhando no sentido da historiografia contemporânea. Será a abertura para os millennials, e, no plano do digital, o aprendizado dos jornalistas com os historiadores e dos historiadores com os jornalistas.

Viva Diamantina e o 4º fHist! E porque não? Viva o Otto!


A revolução e o medo, por Otto Sarkis

Convidado pelo lado iconoclasta do Sinval, não nego que grandes momentos de minha carreira resultaram em demissões. Um dia conto melhor esta história de um certo “desvio” em considerar patrão o leitor/telespectador, e não quem paga o salário. Briguei por notícias que o dono não queria, e a máxima de Chatô (“quer ter opinião tenha seu jornal”) foi implacável, embora não se tratasse de opinião, mas da liberdade para publicar a informação. Consegui ser “demitido” até de veículo em que fui sócio, por pressão do maior anunciante.

Em momentos dessa tormentosa e emocionante carreira - com direito a invasão de redação por um destemperado deputado, com homens armados, ameaça de morte gravada por um poderoso governador e até tentadora oferta pecuniária - concluí que nas redações repetíamos o formato de poder que criticávamos lá fora, lembrando que comecei a carreira ainda na ditadura, já moribunda mas ainda viva.

Sonhei com a democratização da comunicação pelo fortalecimento de grupos concorrentes que se denunciariam quando alguém “sentasse em cima da notícia”. Nem imaginava que essa democratização da produção da informação viria na revolução digital que desinventou Gutemberg.

Me confesso assustado. Deprime a leitura dos comentários postados nos sites de notícias. Assusta a facilidade de distribuição de factoides, ou mesmo mentiras grossas, produzidas em formato de notícias. Entristece a falta de recursos para a informação de longa apuração, de investigação real. 

Claro que envelheci, fui atropelado pela velocidade da evolução tecnológica, e isso consola. Também participei de revoluções que deixaram os mais velhos atordoados, acho que sempre foi assim e se acelerou a partir do final do século XIX. Quem viveu a corrida atômica não imaginava que a diplomacia pela via dissuasória nos trouxesse até aqui, onde começamos a temer, com base científica legitimada por Stephen Hawking, a invasão alienígena. Não vejo onde a revolução digital da comunicação  vai nos levar. Nem sei quais serão os medos do futuro, se houver.

Na seção "Sinval Convida", o diretor de IMPRENSA convida profissionais renomados para escreverem artigos sobre e para o trade de Comunicação. Leia também as colunas de Nemércio NogueiraMíriam LeitãoSérgio CarvalhoFrei Betto, Ricardo KotschoJosé NêumanneZé Hamilton e Ricardo Noblat.