"A verdade é e sempre será relativa", diz Ricardo Noblat na seção "Sinval Convida"

Ricardo Noblat | 28/10/2016 15:00



Ricardo Noblat por Sinval de Itacarambi Leão

"Na Divina Comédia de Dante Alighieri, o poeta latino Virgílio é convidado a visitar o paraíso, o limbo e os infernos.

Na história do jornalismo brasileiro, essa jornada foi também percorrida por Ricardo José Delgado Noblat, jornalista pernambucano, 67 anos, que trabalhou em todas as grandes organizações jornalísticas do Brasil, dos anos 1970 para cá. Diários Associados, Jornal do Commercio do Recife, Jornal do Brasil, Veja, Organizações Globo e Grupo Manchete.

A jornada virgiliana  realizada por ele aconteceu em sua segunda passagem pelos Diários de Chateaubriand, de 1994 a 2002, quando foi diretor de redação do Correio Braziliense e diretor de jornalismo da empresa, pois foi eleito condômino dos Diários.

Repórter arguto, apurador rigoroso e líder de redações, Noblat proporcionou ao  primeiro e mais que bicentenário CB, os dias mais gloriosos de sua existência, relevante para a sociedade e exemplo para o trade jornalístico.

Quando se lhe pergunta qual a decisão de que ele se orgulha e se sente um jornalista, ele responde que ‘Foi a decisão tomada em meados de 2000 de publicar a manchete de capa: "O Correio errou". Que decisão! Uma jogada de tudo ou nada. A partir dela pode se fazer uma releitura do jornalismo brasileiro.

IMPRENSA, ao produzir especial para a entrada da revista em sua terceira década e que trata das relações entre jornalismo e democracia, mostra a arrogância dos jornalistas em se dizer dono da verdade. Várias capas mostram que a sociedade acusa e os próprios jornalistas reconhecem essa prática nada abonadora para a instituição, quando não criminosa. Valeu Noblat!

Faça de seu blog, há  anos hospedado no Globo, um bastão de ética na informação e um campeão de jornalismo apurado e lidando com o contraditório. Aí fica valendo duas vezes", Sinval de Itacarambi Leão

Oração aos moços, por Ricardo Noblat
 
O jornalismo não é diferente de qualquer outra profissão. Exige talento, disciplina, paixão e suor. Em troca, oferece mais frustrações do que êxitos. Mas o jornalismo não é igual a qualquer outra profissão. E tudo por causa de um detalhezinho: a verdade.
 
Nossa missão é buscar a verdade e oferecê-la ao público de maneira compreensível. É só para isso que serve o jornalismo. Se ele serve preferencialmente para outra coisa, não serve ao público. E não merece sequer ser chamado de jornalismo. É uma deformação dele.

Esqueçam a verdade absoluta. É uma quimera. A verdade é e sempre será relativa. O que importa é isto: que saiam à caça da verdade despojados de preconceitos e empurrados pela fé inquebrantável de quem se acha capaz de encontrar algo que não é claramente identificável.
 
Vocês não acreditam em Deus ou numa força superior que muitos chamam de Deus? E, no entanto, jamais o viram ou verão.
 
É assim também com a verdade.
 
A verdade por trás de um acidente de trânsito. Ou a verdade por trás de uma manobra política tramada no escurinho dos gabinetes inaccessíveis da República. A verdade é a versão mais completa e mais honesta possível de um fato.
 
Aprendemos nos bancos escolares que devemos perseguir a verdade. Na vida real, descobrimos que nos cabe escolher a verdade – porque ela pode ser muitas. Geralmente é.
 
Querem maior responsabilidade do que essa? Escolher a verdade e divulgá-la? Tal responsabilidade basta para preencher plenamente a vida de quem se decidiu por essa profissão. Para que funcione de forma satisfatória, a democracia depende de cidadãos bem informados.
 
De sua parte, o jornalismo depende da confiança pública. Antes de ser um negócio (já foi melhor negócio...), o jornalismo é serviço público.

Mais do que informações, o jornalismo deve transmitir entendimento. Porque é do entendimento que deriva o poder.
 
E em uma democracia, por mais imperfeita que seja como a nossa, o poder é dos cidadãos. 
 
Jamais esqueçam-disso.

Na seção "Sinval Convida", o diretor de IMPRENSA convida profissionais renomados para escreverem artigos sobre e para o trade de Comunicação. Leia também as colunas de Nemércio NogueiraMíriam LeitãoSérgio CarvalhoFrei Betto, Ricardo KotschoJosé Nêumanne e Zé Hamilton.