"Não há democracia de qualidade sem uma imprensa livre", diz Leonardo Sakamoto

Alana Rodrigues | 14/10/2016 17:00



Desde agosto, novos casos de ataques contra profissionais de imprensa aumentaram no país. Segundo a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert), as Olimpíadas e os protestos a favor e contrários ao impeachment de Dilma Rousseff contribuíram para o crescimento no número de agressões, intimidações e hostilidades contra jornalistas e veículos de comunicação.

Crédito:Divulgação

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) aponta que, com esses novos casos, as violações contra jornalistas durante manifestações registradas pela entidade desde  junho de 2013 chega a 287. Apenas neste ano, foram 55 ocorrências. 

De acordo com a Associação, a polícia é responsável por 71% do total de casos. Dentre eles, 62% foram deliberados, ou seja, o profissional de imprensa estava identificado e mesmo assim foi agredido ou detido. Manifestantes foram responsáveis por 1/4 do total de agressões; em 80% das vezes, elas foram propositais.

Em entrevista à IMPRENSA, o jornalista e cientista político Leonardo Sakamoto destaca que é deplorável qualquer agressão à imprensa como um todo, uma vez que o pilar de uma democracia é uma imprensa livre. "Não há democracia de qualidade sem uma imprensa realmente livre", diz.

No começo do mês passado, Sakamoto comentou sobre as hostilidades contra jornalistas em seu blog no portal UOL. No texto, intitulado "Quando jornalistas apanham na rua, algo está muito errado com um país", ele ressalta que a própria sociedade não entende bem o papel que a imprensa desempenha.

"Muitas vezes nem nós, jornalistas, entendemos bem o que ela significa. Ou o papel que desempenhamos. Ou as ordens que recebemos. Ou a opinião do veículo em que estamos em contraste com as reportagens que produzimos. Ou a função social de nosso trabalho. Ou o porquê de nosso trabalho, às vezes, não ter função social alguma", reflete.

O jornalista explica que falta debate público qualificado na sociedade. "A gente tem uma esfera pública democrática, mas quem participa da esfera do debate público não se preocupa na formação de leitores, na preparação dos cidadãos para que possam debater publicamente os seus problemas, as suas opiniões", afirma.

Conscientização 

O cientista político acredita que para que as pessoas estejam preparadas para o debate público, elas precisam saber como se informar, filtrar fontes de informação fidedignas, orientar-se em relação à grande quantidade de notícias e entender que uma reportagem bem apurada deve ter mais credibilidade do que uma notícia falsa circulada na forma de um meme, por exemplo.

"Se a gente vivesse numa democracia mais profunda, de qualidade, as pessoas protegeriam os jornalistas, exatamente por conta da necessidade de fazer circular a informação necessária ao debate público", opina.
 
Para ele, as pessoas deveriam ser educadas, desde o ensino fundamental, a saber ler conteúdo de mídia e atuar nela.  "A melhor saída é a escola. Temos que formar consumidores de informação e pessoas aptas a debater, que elas tenham a capacidade de separar o joio e o trigo e, a partir dessa preparação, possam utilizar as informações obtidas para debater".

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