José Nêumanne fala sobre a corrupção brasileira na seção "Sinval Convida"

José Nêumanne | 14/10/2016 16:00



José Nêumanne por Sinval de Itacarambi Leão

Destinado a ser Paul Newman, Nêumanne, assim aportuguesado, foi desejado por seus pais como um futuro Apolo.

Sua carreira pessoal e jornalística obedeceu à inflexões distintas. Se a pauta é poesia, essa referência só pode ser Isabel, sua musa. Se for a fraternidade, seu mano velho Gaudêncio Torquato. Se for a cultura nordestina, há várias estrelas guia: Ariano,  Zé Ramalho e Zé Limeira. Esses caem bem.

E o jornalista Nêumanne como fica?

Permita-me contar uma história ocorrida no idos da ditadura, em 1969, naquele Rio do Chacrinha cantado por Gil. Existiu uma república sita à rua Silveira Martins, habitada pelo proletário poema/processo  e por um bando de ditosos e desditosos seguidores, liderados por  Moacy Cirne, poeta de Caicó (RN) e secundado por Naná Vasconcelos (PE). 

Nesse cenário - eu  vi e ouvi! – foi recebido José Nêumanne Pinto, de Uiraúna, Paraíba, acompanhado por um secretário que anotava todas suas intervenções.

Primeiro. Nêumanne já era personagem e fonte, recitava repentes, fabulava poemas semióticos, versos de Augusto dos Anjos e sonhos. O Nêumanne que conheci nesse dia estava a caminho de São Paulo para assumir vaga de repórter na Folha de S. Paulo. Passou depois para o Jornal do Brasil,  o Jornal da Tarde e Estadão. Fez rádio (Jovem Pan, 15 anos) e TV (SBT e Gazeta).

A alegria dele em trabalhar em S. Paulo na grande imprensa era contagiante.  Um dos traços mais marcantes do jornalista Nêumanne ali se aflorava. Fazer tudo com paixão. Só ganhou o Esso de Jornalismo em 1976, já no JB, com “Perfil de Operário hoje”, por sua coragem de enfrentar pautas malditas.   

Segundo. Nêumanne jornalista teve antecessores brilhantes: Nelson Rodrigues, Agripino Grieco, Gustavo Corção  e Carlos Lacerda. Foram jornalistas conservadores brilhantes. Ele entra nessa antologia pela força do seu texto, a elegância até em espinafrar e,  principalmente, pelo rigor de suas informações, essas, sim, duras  e apodíticas.  Recentemente, Nêumanne assumiu o jornalismo matinal da Radio Estadão. Lembra o inesquecível Corifeu de Azevedo Marques, valente e provocativo. Vale acordar mais cedo para ouvir Nêumanne.

O maior assalto da História, por José Nêumanne

Não houve no Brasil casos isolados de corrupção, mas crimes que foram muito além do que já houve antes

No longo e exaustivo processo do julgamento da AP 470, conhecida popularmente como mensalão, é comum imaginar que a glória fulgurante do ex-dirigente sindical Luiz Inácio Lula da Silva tenha sido desfigurada e se desmanchado espetacularmente por culpa de casos isolados de corrupção. Mas de sua posse em 1º de janeiro de 2003 ao impeachment de sua afilhada e sucessora Dilma Rousseff, em 12 de maio de 2016, investigações da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF), acompanhadas e julgadas por juízes federais e estaduais e desembargadores de tribunais possibilitaram vislumbrar algo mais grave.

A diferença entre a ilusão de ótica e a vida real deve ser medida pela distância entre dois despachos do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki. Em março de 2015, ele pediu permissão para abrir inquérito único contra os políticos com mandatos nos Poderes republicanos e, portanto, com prerrogativa de foro.

Um ano e meio depois de revelações e de informações, obtidas por agentes e procuradores em Curitiba, Brasília e São Paulo, Janot viu-se obrigado a dirigir ao mesmo ministro pedido para dividir esse inquérito em quatro partes. Ter ele sido autorizado nas duas vezes fala bem do impacto e do peso dos fatos investigados e das perspectivas de delitos a investigar.

A enumeração dos 66 protagonistas do processo recém-instaurado dá a dimensão do furto praticado, que levou a maior estatal brasileira, a Petrobrás, para perto da bancarrota; e do aparelhamento, que gerou o desmantelamento da burocracia estatal. A limpeza total de todos os cofres da República, empreendida por uma organização criminosa para cujos objetivos contribuíram, segundo Janot, três partidos da base aliada – PT, PMDB (da Câmara e do Senado) e PP –, é suficiente para sustentar a hipótese de que a ação nefasta foi muito além do conhecido.

Entre os protagonistas das quatro esteiras de demolição da riqueza e do desmanche da burocracia do Estado e das empresas que este administra figuram o ex-presidente da República Lula, do PT, e membros das Mesas do Senado, o presidente Renan Calheiros, e da Câmara, o ex-presidente Eduardo Cunha e o vice-presidente, Waldir Maranhão. Só isso configura a constatação de que não houve uma sequência de fatos isolados de corrupção, mas o maior assalto de todos os tempos, praticado por um “quadrilhão” ousado, ambicioso e sem escrúpulo algum.


*José Nêumanne Pinto é  jornalista, poeta e escritor. Editorialista e articulista de O Estado de S. Paulo, também comentarista diário na Rádio Estadão. 



Na seção "Sinval Convida", o diretor de IMPRENSA convida profissionais renomados para escreverem artigos sobre e para o trade de Comunicação. Leia também as colunas de Nemércio NogueiraMíriam LeitãoSérgio CarvalhoFrei Betto e Ricardo Kotscho.