"Importante é nunca deixar de ser repórter", diz Kotscho na seção "Sinval Convida"

Ricardo Kotscho | 07/10/2016 16:00



Ricardo Kotscho por Sinval de Itacarambi Leão


Kotscho já era lenda e ídolo na redação da revista IMPRENSA quando o conheci dirigindo o jornalismo do canal 21 (Band), nos anos 1990. Nessa época, veiculávamos lá o programa "IMPRENSA na TV". A vida na tevê já é difícil, terceirizada então, você pode imaginar?

Porreta o Kotscho. Sabe como ninguém e com bom humor resolver problemas. Lembra o poeta: -"Se hace el camino,al caminar".

Ricardo Kotscho é são paulino antes mesmo de falar português, aos oito anos. Sua primeira língua é o alemão. Autor de 26 livros, foi vencedor de quatro prêmios ESSO. Navega em grandes histórias que vão do próprio jornalismo - tem orgulho de ser repórter - ao infantil. Passou incólume pela política sem carimbar partidariamente sua práxis jornalística.

Sua hashtag deveria ser #kotschoamigo, daqueles que devem ser guardados do lado esquerdo do peito, como falava a canção. Importante: se ele o convidar para um goulash, elogie. Você não estará mentindo.

“Sem nunca deixar de ser repórter”, por Ricardo Kotscho 
 
Nestes trinta anos da IMPRENSA do Sinval, em que nosso ofício virou de cabeça para baixo, dou-me conta que fiz um tanto de tudo nas mais diversas funções nos principais veículos da velha e da nova mídia, além de trabalhar como assessor de imprensa e consultor, até virar blogueiro, algo que nem existia quando a revista foi lançada, sem nunca deixar de ser repórter. 

Aconteceu tanta coisa que pedi ao velho amigo Sinval uma sugestão de pauta. “Já que você me pediu um mote, conte sua experiência de voltar à redação após as campanhas políticas. Você conseguiu passar aos colegas as diferenças dessa prática ou elas não existiram em seu caso?”. 

Vamos lá. A experiência de trabalhar do outro lado do balcão, como assessor de imprensa nas campanhas e, depois, no começo do governo de Lula, em 2003/2004, me ensinou muita coisa sobre a sempre conflituosa relação entre mídia e poder, mas não pretendo repeti-la. Não faz bem para a saúde. Bom mesmo é fazer reportagem. 

“Você está louco. Se fizer isso, nunca mais vai voltar para a grande imprensa”, cansei de ouvir de colegas e amigos quando aceitei o convite para trabalhar como assessor de imprensa na primeira campanha presidencial de Lula, em 1989. 

Trabalhava na época como repórter especial do Jornal do Brasil, em São Paulo, onde ganhava um salário muito bom. A única exceção foi o meu então chefe, Ricardo Setti, profissional e ser humano da melhor qualidade, que não só me animou a aceitar o convite do amigo candidato a presidente da República, como me concedeu uma licença não remunerada. “Quando terminar a campanha, você volta para cá no dia seguinte”. E foi o que aconteceu. 

De lá para cá, trabalhei em mais duas campanhas presidenciais (1994 e 2002), fui Secretário de Imprensa da Presidência da República, e nada mudou na minha relação com os colegas, os donos dos veículos e os políticos de outros partidos. Ao contrário, cheguei depois a ocupar até cargos de direção, e fui muito respeitado por todos. As portas continuaram abertas. Completei 50 anos de carreira sem nunca ter sido demitido de uma empresa e, graças a Deus, nunca me faltou trabalho até agora. 

Por isso, sempre digo em palestras e debates que não importa o cargo ou a função que você ocupe no momento. Basta ser honesto com quem te contrata e com quem banca teu salário - sua excelência o leitor. Não é a função ou o cargo nem a empresa, instituição ou entidade onde você trabalha que faz o profissional melhor ou pior. É você. 

“Parece que você é mais assessor da imprensa do que meu assessor de imprensa”, ouvi certa vez de Lula, quando insistia em conseguir uma informação que os repórteres setoristas do Palácio do Planalto me cobravam. Tinha razão o ex-presidente, mas nesta função de assessor de imprensa você tem que ser as duas coisas ao mesmo tempo, ou não serve para nenhum dos dois lados. 

A nossa matéria prima é sempre a mesma: informação bem apurada. Por maiores que sejam as revoluções tecnológicas, a natureza do nosso ofício não mudou nestes trinta anos. Para mim, tanto faz a plataforma (outra palavra que não existia) onde esteja trabalhando: o importante é nunca deixar de ser repórter, ter uma boa história para contar. A gente vive disso.

Longa vida para a revista IMPRENSA, um verdadeiro milagre de sobrevivência, que se tornou ponto de encontro dos jornalistas, como eram os antigos botecos ao lado da redação, onde a gente ficava sabendo de tudo antes da invenção da internet e do celular. 

Vida que segue. 


*Ricardo Kotscho é jornalista desde 1964, já trabalhou em praticamente todos os principais veículos da imprensa brasileira (jornais, revistas e redes de TV), nas funções de repórter, editor, chefe de reportagem e diretor de redação. Foi correspondente na Europa nos anos 1970 e exerceu o cargo de Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República no governo Luiz Inácio Lula da Silva, no período 2003-2004. 

Na seção "Sinval Convida", o diretor de IMPRENSA convida profissionais renomados para escreverem artigos sobre e para o trade de Comunicação. Leia também as colunas de Nemércio Nogueira, Míriam Leitão, Sérgio Carvalho e Frei Betto.