Frei Betto opina sobre a democratização da mídia na seção "Sinval Convida"

Frei Betto | 30/09/2016 14:30


Frei Betto por Sinval de Itacarambi Leão


Frei Betto nasceu mineiro e na vida foi “gauche”. Sempre carismático, seja nos grupos em que conviveu por escolha pessoal, seja nos que foi levado por indução coercitiva. Ficou encarcerado quatro anos, nos presídios do Tiradentes, Carandiru ou no de Segurança Máxima, em Presidente Prudente. 


Anos sessenta. No Instituto de Filosofia e Teologia, em São Paulo, onde nos conhecemos no pós 64, ele dominicano e eu beneditino, chegamos a militar em posições diferentes, mas sempre contra a ditadura. Nas questões religiosas, o Concílio Vaticano II foi nosso norte e nos jogou na política, no humanismo e no jornalismo, com batismos de fogo vários, vividos por nós e por ele descritos em seus vários livros. 


Como jornalista, Betto trabalhou como repórter e chefe de reportagem na Folha da Tarde, no noite da ditadura, quando os Caldeira, sócios dos Frias, intervinham não só no editorial, mas mantinham uma amizade subserviente e ostensiva às logísticas da repressão. 


O texto de Betto, exceto os de ficção, se fosse possível classificar numa só categoria, estariam mais para o gênero epistolar que para o de cronista político. 


Igual a outros mineiros famosos que saíram de Minas e vieram militar nas redações de Rio e São Paulo, Carlos Alberto Libânio Christo relacionava-se com a notícia como se ela fosse sua irmã e inconfidente, já que para ele fazer jornalismo é meio passo para se chegar a mentes e corações. Betto é substantivo, impondo-se pinçar sempre o adjetivo que dê massa crítica ao enunciado.


Viajou o mundo todo em seus embates ideológico e encontros místicos. Foi amigo e conselheiro de presidentes, bispos e gente humilde, sempre ligado às causas libertárias. Tribuno moderno, usa o ritmo da frase chamando atenção para o conteúdo mais que para o orador. O sorriso maroto serve para salgar e apimentar o conteúdo. Filho de Dona Stela, cozinheira de altas prosopopeias de faca e garfo, Betto sempre se vinga de seus adversários e desafetos provando que comida ruim dá saúde ruim, politicas públicas erráticas só produzem miséria e desgoverno. 


"Imprensa, a mídia da mídia", por Frei Betto


Nesses últimos 30 anos, a revista IMPRENSA, com a qual colaborei por um bom tempo, prestou excelente serviço à mídia brasileira, a seus profissionais e ao público interessado no que ocorre nos bastidores do noticiário. Nesse sentido, favoreceu algo que o Brasil ainda está longe de alcançar: a democratização dos meios de comunicação.

Lembro-me da publicidade radiofônica denunciar as rádios comunitárias como “piratas”. E a Polícia Federal ia atrás dos equipamentos, desmantelando as emissoras que não merecem “bola vermelha” do Country Club dos cartolas da mídia. O único ministro das Comunicações que ousou impedir essa repressão midiática foi Miro Teixeira, no primeiro mandato de Lula.

Nos EUA, uma rádio, jornal e emissora de TV não podem se concentrar em mãos do mesmo proprietário. Aqui, ao contrário, impera a casa da Mãe Joana. A um mesmo grupo é legalmente autorizado controlar várias emissoras de TV, diversas rádios e diferentes jornais.

Esta pergunta, que não quer calar, jamais merece resposta. Ou merece o silêncio conivente do governo: já que o sistema radiotelevisivo do Brasil pertence à União, por que não há novas licitações quando vencem os prazos de concessões?

É quase inacreditável que, em um país cuja população ultrapassa 200 milhões de habitantes, haja apenas três jornais formadores de opinião em nível nacional: dois em São Paulo, a Folha e o Estadão; e um no Rio, O Globo.

Como não há mal que sempre dure nem monopólio midiático que sempre perdure, uma boa dose de democratização da mídia se faz, hoje, pela internet. As redes sociais, por enquanto, estão isentas de controle, exceto quando ferem a lei ou sofrem censura por decisão arbitrária de algum juiz. Por elas, o público fica sabendo o que a grande mídia não noticia, como, por exemplo, o fato de os atletas de Cuba terem ganhado cinco medalhas de ouro na Olimpíada Rio-2016: boxe médio; boxe galo; boxe meio-pesado; luta greco-romana, 130 kg; e luta greco-romana, 59 kg. Apenas dois ouro a menos que o Brasil.

Sabemos todos que vazamento de segredo de justiça é crime. Mas quem apura os frequentes vazamentos das delações premiadas na Lava Jato? Aliás, quase todos focados no PT ou em quem se relacionou com ele, como o ministro Dias Toffoli.

O jornalista Marcelo Auler apurou as fontes de vazamentos e divulgou em seu blog. Agora responde a dois processos na Justiça. É como cegar os olhos de quem denuncia que o rei está nu...

*Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais. Autor de 53 livros, editados no Brasil e no exterior, ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti (1982, com "Batismo de Sangue", e 2005, com "Típicos Tipos"). Em 2003 e 2004 atuou como Assessor Especial do Presidente da República e coordenador de Mobilização Social do Programa Fome Zero. Desde 2007 é membro do Conselho Consultivo da Comissão Justiça e Paz de São Paulo. É sócio fundador do Programa Todos pela Educação.