Diretor de redação da "Gazeta do Povo" fala sobre as 48 ações movidas contra o jornal

Gabriela Ferigato | 23/09/2016 04:00



No começo deste ano, diversas reportagens feitas por jornalistas da Gazeta do Povo expuseram os “supersalários” de membros do Judiciário e do Ministério Público do Paraná. Em uma das matérias, o veículo mostrou que os magistrados receberam R$ 527 mil e R$ 507 mil, quando o teto é de R$ 411 mil.

Depois da divulgação dos dados, que são públicos, juízes e promotores, ofendidos pelos textos, abriram mais de quarenta ações individuais contra os repórteres. Os processos foram movidos em diferentes juizados especiais, espalhados por pelo menos 15 cidades do estado. Além disso, o valor da indenização ao jornal foi de R$ 1,4 milhão.

Atualmente, as audiências estão suspensas desde a decisão da ministra Rosa Weber, no fim de junho, de analisar o pedido do jornal para que o caso seja julgado no Supremo Tribunal Federal, não pela Justiça do Paraná.

As entidades Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert) e Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) entraram como “amicus curiae” (amigo da parte) da ação. “É uma movimentação que dá bem a dimensão do quanto o caso diz respeito a todo o jornalismo brasileiro, não apenas à Gazeta do Povo”, diz Leonardo Mendes Junior, diretor de redação do veículo.
Crédito:Henry Milleo
Leonardo Mendes Junior
Para ele, a própria maneira como as ações foram montadas demonstra como o veículo e os profissionais foram intimidados. “De forma alguma a gente questiona o direito dos juízes de recorrer à Justiça em caso de discordar com o aspecto que for de qualquer reportagem. A questão é a maneira como as coisas foram feitas. As ações seguem um padrão”.

Ou seja, todas são protocoladas no Juizado Especial, que exige a presença dos réus nas audiências. As ações, espalhadas pelo estado, são movidas contra o veículo e os autores das reportagens. Os casos são julgados por pares dos autores e as esferas recursais se esgotam dentro do próprio judiciário estadual. “Isso tem uma interferência brutal na rotina desses profissionais. Não só de trabalho, mas pessoal também”, afirma o diretor.

Entre abril e junho, período em que ocorreram as audiências, a equipe chegou a ter três, quatro audiências na mesma semana. Dentre os autores das reportagens - Francisco Botelho Marés de Souza, Rogério Galindo e Euclides Garcia, o analista de sistemas Evandro Balmant, e o infografista Guilherme Storck – três são jornalistas de política do jornal.

“Tivemos um período de muita efervescência política no país. Ou seja, a cobertura ficou prejudicada. Mas o maior impacto, sem dúvida, foi na vida dos cinco”, ressalta. Em agosto, o jornal e cinco de seus profissionais receberam o Prêmio ANJ de Liberdade de Imprensa 2016. Criado em 2008, a iniciativa visa homenagear pessoas, jornais ou instituições que tenham se destacado na promoção ou na defesa da liberdade de imprensa.

Segundo relatório da entidade sobre liberdade de imprensa durante o biênio de 2014 e 2016, além desse caso, há mais oito envolvendo censuras judiciais no período. Na opinião do diretor de redação do veículo, o maior dilema enfrentado pela imprensa hoje é mostrar o quanto ela ainda é indispensável à sociedade em um momento com tanta profusão de informação. 

“O quanto é capaz de fazer a diferença, de reproduzir as diversas vozes da sociedade e ser um canal confiável de informação e compreensão de mundo para essa sociedade. Mesmo de uma forma dolorosa, essa ação conjunta desse grupo de juízes avaliza o peso da imprensa. Todos os dados da reportagem são públicos, estão em portais da transparência – seja do TJ-PR ou do MP-PR. A exposição destes mesmos dados por um veículo de comunicação trouxe o tema com mais força para o debate público”.
Crédito:divulgação
Rogério Galindo, o advogado Rodolfo Salema, Euclides Lucas Garcia, Chico Marés, o designer Guilherme Storck e o analista de sistemas Evandro Balmant
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