“Queremos fugir da pressão colocada na palavra superação”, diz Andre Brasil

Gabriela Ferigato | 29/06/2016 17:30


Atleta desde que se entende por gente, o nadador paraolímpico Andre Brasil conheceu a natação como forma de reabilitação. Aos dois meses, foi diagnosticado com poliomielite depois de reação à vacina, que deixou como sequela uma deficiência na perna esquerda. 

Hoje, com participação em duas Paraolimpíadas, três Mundiais e dois Jogos Parapan-Americanos, Andre coleciona 31 medalhas de ouro, nove de prata e três de bronze, além de ser dono de seis recordes mundiais. À IMPRENSA, o atleta fala sobre a carreira, a imprensa e o investimento nos Jogos Paraolímpicos. 

Crédito:divulgação
Andre Brasil, nadador
IMPRENSA – Quando começou sua carreira como atleta?
Brasil – Sou atleta desde que me entendo por gente. Após a descoberta da pólio, comecei a natação como reabilitação. Passei a competir com 7, 8 anos de idade. Em 1992, vibrava com a medalha do Gustavo Borges como se fosse minha. Já tinha o sentimento de atleta, só não sabia que seria talvez um pouco mais demorado do que esperava. 

Quando descobriu o esporte paraolímpico?
A medida que fui crescendo, tomando formas diferentes e meu corpo amadurecendo, a minha deficiência ficou maior em relação aos outros atletas.  Acho que a grande guinada aconteceu quando pude ver, pela primeira vez, o esporte paraolímpico em 2004, primeira vez que a televisão mostrou os Jogos. E entender mais sobre como funcionava. Diferente do esporte Olímpico, que tem o masculino e feminino, o Paraolímpico tem masculino e feminino e 14 classes diferentes. Eu, que era leigo, achava que para participar você deveria ter uma deficiência muito grande. Pude descobrir vendo que patologias mínimas qualificariam atletas a integrar todo esse sistema. Aí o atleta começou a aparecer.

Essa trajetória foi longa?
O mais difícil foi o entendimento do que eu sou. Porque quando entrei no esporte paraolímpico, tive um problema com a minha classificação. As pessoas que promoviam o esporte adaptado diziam que eu não tinha deficiência suficiente pra fazer parte do esporte para deficiente. Eu tinha uma deficiência constatada, por que não poderia entrar? Eu usava bastante calça na adolescência, para esconder a deficiência, e depois dos 18 tive que mostrar para que as pessoas entendessem que eu era uma pessoa com deficiência e deveria estar no esporte.

Você acredita que o investimento ao esporte Paraolímpico ainda é muito discrepante em comparação com o Olímpico ?
Temos algumas discrepâncias em relação ao investimento, seja de patrocínio individual, coletivo ou parcerias, porque, mal ou bem, o esporte Paraolímpico depende quase que unicamente do governo. A iniciativa privada não tem conhecimento de como funciona. O Brasil enfrenta barreiras ainda, uma delas é o preconceito. Muitas das pessoas que hoje estão nessas grandes empresas ainda acham que o esporte Paraolímpico é algo social, não entendem de uma forma profissional. Não acredito que eu seja diferente do meu amigo Cesar Cielo. Temos a mesma carga horário de treino, nos dedicamos igual, mesma exigência, cobrança. Então por que não valorizar de uma forma igual também? Os Jogos vem aí para concretizar toda essa mudança que a gente quer e talvez uma proximidade maior. Começamos a modificar um pouco isso. Precisamos fincar nossa bandeira de esporte paraolímpico, sim, mas é esporte.

A imprensa também precisa evoluir em sua cobertura?
Muitas vezes a própria imprensa vê de uma forma diferente. Na Olimpíada há câmeras subaquáticas mostrando o atleta competindo, por que nas Paraolimpíadas não tem? É feio mostrar uma pessoa que não tem braço ou perna competindo? 

Além de representarem um país, muitas vezes suas histórias são exemplos e fontes de inspiração em matérias. Acha que isso acaba sendo uma pressão? Concorda com essa cobertura?
Minha vida não é diferente da vida de ninguém. Qual é a minha superação diferente da sua? Todo mundo terá uma etapa da vida que terá que se superar. A pressão colocada na palavra superação é o que queremos fugir. 

Fórum Cobertura Paraolímpica

O “Fórum Cobertura Paraolímpica”, idealizado por IMPRENSA com o apoio do curso de jornalismo da ESPM São Paulo, aconteceu no dia 24 de junho. Confira a cobertura completa do evento e mais informações sobre os Jogos Paraolímpicos em nosso site.

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