"Meu desejo é que cada texto possa ser um diálogo", diz Eliane Brum

Alana Rodrigues* | 06/04/2016 15:30
A gaúcha Eliane Brum, conhecida por suas reportagens de fôlego e olhar sensível sobre os fatos, provou que os leitores apreciam sim textos longos na internet. A jornalista é vencedora da 11ª edição do Troféu Mulher IMPRENSA — realizado pelo Portal e revista IMPRENSA, na categoria “Jornalista de Mídias Sociais”, com 36% dos 81 mil votos.

Crédito:Divulgação
Eliane Brum, vencedora da categoria “Jornalista de Mídias Sociais”

"Sempre penso que a pessoa que chega ao fim de um dos meus textos, seja um artigo de opinião, uma entrevista ou uma reportagem, tem de sentir que se alargou – ou se moveu. Me esforço ao máximo para que isso seja possível. Meu desejo é que cada texto possa ser um diálogo – e um encontro. Quando isso acontece, é porque consegui fazer bem o meu trabalho de documentar essa matéria escorregadia que é a história em movimento", diz.

Autora e colunista do El País online, Eliane atuou 11 anos no jornal Zero Hora, de Porto Alegre (RS), e dez como repórter especial da Revista Época, em São Paulo (SP). As grandes produções, longas entrevistas e a busca para resgatar a profundidade no jornalismo, renderam a ela mais de 40 prêmios de reportagens nacionais e internacionais.

Para a jornalista, é importante que o prêmio também possa servir para uma reflexão sobre a realidade das mulheres nas redações - os assédios, sexuais e morais, e o quanto há poucas profissionais em cargos de chefia. 

"Sempre que se coloca a questão de sexo e de gênero, acho importante lembrar que não existe 'as' mulheres', assim generalizadas. Não acho possível falar neste tema sem lembrar que, no jornalismo, como no restante da sociedade, se as mulheres brancas ainda são discriminadas, as mulheres negras são muito, mas muito mais. Tanto que, em geral, nem sequer estão nas redações, majoritariamente brancas. Essa é uma fratura histórica do Brasil que precisa ser enfrentada também pela imprensa". 

A jornalista lembra de suas lutas por espaço, classificada por ela como uma disputa no campo da política e bem dura para "quem escolheu escrever sobre desacontecimentos e sobre aqueles à margem da narrativa". Muitas vezes, as reportagens que produzia demoravam a ser publicadas por falta de "páginas" disponíveis. Sempre ouviu que o leitor não gostava de textos longos ou não dispunha de tempo para lê-los. 

"Hoje, a internet me dá a tecnologia para provar que, sim, os leitores leem textos longos, desde que sua inteligência e o seu tempo sejam respeitados. Essa é uma bandeira cara para mim, como jornalista, porque é uma bandeira pelo jornalismo de profundidade. Ser reconhecida por este jornalismo, que nada tem nem de rápido nem de instantâneo nem de fácil, me dá uma grande alegria".

Conheça todas as vencedoras do Troféu Mulher IMPRENSA.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.

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