Familiares de jornalistas torturados por Ustra comentam morte do ex-chefe do DOI-Codi

Redação Portal IMPRENSA | 16/10/2015 09:00

Faleceu na última quinta-feira (15/10), vítima de câncer, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, 83 anos, ex-chefe do DOI-Codi do II Exército, em São Paulo, um dos principais órgão de repressão política durante a ditadura militar. A morte do ex-agente da repressão repercutiu entre os familiares de mortos e desaparecidos políticos, principalmente pela falta de punição a ele pelos crimes durante o regime militar.


Crédito:Reprodução
Cláudio Abramo e Luiz Eduardo Merlino foram torturados por Ustra no DOI-Codi

A astróloga e colunista da Folha de S.Paulo, Barbara Abramo, usou seu perfil no Facebook para comentar a morte e a falta de punição ao militar que torturou seu pai, o jornalista Cláudio Abramo. "Hoje morreu o carrasco que torturou meu primeiro marido, bateu em meu pai e interrogou uma noite inteira minha mãe, entre centenas de outros brasileiros. Se existem deuses, deusas ou um Deus, como será que ele prestará contas?, disse.


Em outro relato, a jornalista Tatiana Merlino, da Ponte Jornalismo, também se pronunciou sobre o falecimento de Ustra, processado e condenado pela morte do também jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino.


"Hoje é um dia triste. Morreu, aos 83 anos, Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do DOI-Codi, um dos maiores centros de tortura da ditadura civil-militar. Viveu 60 anos a mais do que meu tio, Luiz Eduardo da Rocha Merlino (foto), a quem ele impediu de seguir sua vida ao comandar as intermináveis sessões de tortura que o levaram à morte, em 19 de julho de 1971. Ustra morreu de “morte morrida” e não de “morte matada”, como suas vítimas.


Dia triste para todos familiares de mortos e desaparecidos sob suas ordens. E para os que sobreviveram às torturas. Porque Ustra morreu num hospital. Deveria ter morrido na prisão. Dia triste porque morreu sem ser julgado e preso.


Durante décadas, familiares de mortos e desaparecidos lutaram por justiça. Apenas em 2008 foi declarado torturador pela justiça paulista em ação movida pela família Teles. Em 2012, foi condenado, em primeira instância, a pagar uma indenização à minha família, em ação por danos morais. No país em que torturador da ditadura não é punido, foi o pouco que se conseguiu.

Hoje, a impunidade venceu a justiça".



Crimes do coronel


De acordo com G1, Ustra chefiou o DOI-Codi em São Paulo no período de 29 de setembro de 1970 a 23 de janeiro de 1974. Nessa época, foram registradas ao menos 45 mortes e desaparecimentos forçados, de acordo com relatório elaborado pela Comissão Nacional da Verdade.


Primeiro militar a responder por um processo de tortura durante a ditadura, o coronel era acusado pelos ex-presos políticos César Augusto Teles, Maria Amélia de Almeida Teles, Janaína de Almeida Teles, Edson Luis de Almeida Teles e Criméia Alice Schmidt de Almeida de exercitar violência e crueldade contra prisioneiros ao longo da década de 70.


Apesar das constantes denúncias, Ustra sempre negou ter cometido atos de violência. "Eu nunca torturei ninguém. Está nos jornais escrito que eu sou acusado de 502 acusações de tortura. (...) "Excessos em toda guerra existem, podem ter existido, mas a prática de tortura como eles falam não ocorreu. Eu efetivamente não cometi excesso contra ninguém".


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