Ex-trader do Citibank, novo âncora do “Conta Corrente” quer jornal menos hermético

Guilherme Sardas | 25/03/2013 16:30


Crédito:Divulgação / Globo News/ Bob Paulino
Dony De Nuccio


A partir de 8 de abril, o jornalista e economista Dony De Nuccio assume a ancoragem do novo “Conta Corrente”, do Globo News, que deixa o horário das 19h30, para ser exibido às 21h, além das entradas às 10h, 16h e 18h na programação.

A substituição no comando, até então feita por um rodízio de três apresentadores, faz parte do conjunto de mudanças do jornalístico, que privilegiará uma linguagem mais acessível ao grande público, entrevistas mais diretas e a educação financeira do cidadão comum.


“Tudo que é muito específico ou voltado exclusivamente a economistas ou operadores do mercado financeiro perde espaço. Explicações que só outro economista entende serão trocadas por informações claras”, comenta De Nuccio, para quem a abordagem econômica, principalmente, na TV tem exagerado no hermetismo.


“Às vezes, é chata e incompreensível. Aprendizados sobre carreira, empreendedorismo, educação financeira e investimentos ainda são apenas tangenciados na cobertura da imprensa televisiva”, diz.


Graduado em jornalismo pela USP, em economia pelo Mackenzie e mestre em economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), De Nuccio chegou ao jornalismo após atuar como trader [investidor do mercado de ações] do Citibank.


Foram cinco anos e meio de carreira no banco, até decidir, em suas palavras, “abandonar a carreira ascendente no mercado financeiro para mergulhar profissionalmente no abismo desconhecido do jornalismo”. “Não foi fácil, mas repetiria a decisão mil vezes se fosse preciso”, diz.


Há dois anos na TV Globo, foi repórter do "Jornal da Globo", do "Bom dia São Paulo", "Radar" e "SPTV" (1ª e 2ª edições), além de editor de economia do “Jornal das 10”, da Globo News.


Junto às mudanças do "Conta Corrente", o canal lança seu primeiro aplicativo de gastos pessoais, que leva o mesmo nome do programa, e que estará disponível também a partir do dia 8 de março para iPhone e Andoid. 


Confira abaixo a entrevista completa com De Nuccio:


IMPRENSA – O novo “Conta Corrente” quer ser “alinhado às necessidades da população brasileira”. Havia uma percepção de que o programa era pouco acessível ao grande público?

DONY DE NUCCIO – Em 16 anos, o “Conta Corrente” se consolidou como o principal telejornal de economia do país. Mas, ao longo desses anos, a economia, os telespectadores, as demandas mudaram. Com isso, é natural que um ciclo se encerre. Queremos falar de economia sem economês, vamos tirar o nó da notícia. Além disso, vamos incluir no cardápio temáticas úteis para quem assiste: a economia que pode melhorar sua vida profissional e financeira, que pode ajudá-lo a avançar mais rápido na carreira, juntar mais dinheiro e investir melhor.

 

A tão falada ascensão da “classe C” tem influenciado bastante a programação da TV. As mudanças se voltam a isto também?

Será um jornal mais próximo de quem não é especialista. Afinal, quem não quer dicas para avançar mais rápido na carreira, organizar a vida financeira, conhecer boas alternativas de investimento e se familiarizar com os passos que levam os empreendedores ao sucesso? São assuntos que interessam a todos, independentemente do momento profissional, da idade ou da classe social.


Quais temas perderão espaço no novo formato?

Tudo que é muito específico ou voltado exclusivamente para economistas ou operadores do mercado financeiro perde espaço. Pouco interessa a mim ou a você se em um determinado dia a Bovespa movimentou 6,8 ou 7,2 bilhões de reais. Pouco muda na nossa vida esse tipo de variação e portanto aspectos assim perdem espaço. O ritmo também será diferente, privilegiando entrevistas mais diretas e dinâmicas. Explicações de um economista que só outro economista entende serão trocadas por informações claras, interessantes, práticas e úteis para quem assiste.


A seu ver, quais assuntos econômicos são mais urgentes hoje no país?

Do ponto de vista econômico, estamos perdendo o timing. Há três anos, o Brasil foi representado na capa da The Economist como um país decolando. Está claro, inclusive para eles, que isso mudou. Artigos mais recentes, tanto daqui quanto de fora, mostram a frustração com o desempenho de um país que poderia ter de fato propulsionado. Além disso, uma das mais lamentáveis constatações é de que Brasil é um país onde é difícil ser empreendedor. É difícil fazer negócios sem esbarrar, inúmeras vezes, na estrutura complexa e sufocantes dos impostos, nas amarras da burocracia, na infraestrutura capenga, nos custos elevados.


Como você vê a abordagem na economia na TV?

Particularmente na TV, a economia ficou sisuda, hermética, às vezes, chata e incompreensível. Não se atualizou na velocidade do mundo. Tudo isso precisa mudar, na forma e no conteúdo. Aprendizados sobre carreira, empreendedorismo, educação financeira e investimentos ainda são apenas tangenciados na cobertura da imprensa televisiva.


Você é economista e jornalista. Qual das duas profissões veio antes?

Profissionalmente, a economia veio antes. Mas a paixão pelo jornalismo nasceu primeiro. Tinha oito anos de idade quando comecei a simular que ancorava telejornais. Após uma breve temporada nos EUA, voltei trabalhando na tesouraria de um grande banco estrangeiro [Citibank]. Foram então cinco anos e meio que me permitiram conhecer o coração do mercado financeiro e sua dinâmica por dentro. Para não deixar a academia de lado, passei também a me dedicar ao mestrado em finanças e economia. Quando decidi virar a chave de vez, abandonar a carreira ascendente no mercado financeiro para mergulhar profissionalmente no abismo desconhecido do jornalismo, não foi fácil. Mas repetiria a decisão mil vezes se fosse preciso.