Herzog 75 anos: "Estou vivo hoje por causa da morte do Vlado", diz jornalista Sergio Gomes

Danillo Oliveira* | 13/06/2012 16:00
Vladimir Herzog começou a carreira como repórter, em 1959,  no jornal O Estado de S. Paulo após se formar em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Da redação até o cargo de diretor do departamento de jornalismo da TV Cultura, na década de 1970, sempre se preocupou com questões sociais em círculos de debate, sobretudo na universidade. “O Vlado sabia que eu era do comitê universitário, como eu sabia que ele era da base dos jornalistas”, recorda Sergio Gomes, diretor da Oboré e amigo de Vlado.
Na USP, ambos participavam de diferentes grupos de discussão, abrangendo debates sobre cultura, política e história. “Uma parte das nossas conversas não era simplesmente de estudante de jornalismo para jornalista, ou do cara do centro acadêmico para uma personalidade que poderia eventualmente falar na faculdade”, explica. “Tínhamos conversas também que eram de natureza de especulação sobre qual era o quadro [da época]".

Ele lembra ainda do clima de agitação e inquietação dos estudantes na época. “Não havia tédio ou falta do que fazer. Muito pelo contrário, a gente procurava fazer cada vez mais coisa”, diz. Vlado e Sergio integraram o grupo de pessoas responsável pela recuperação da imprensa universitária, a exemplo das publicações Poli Campus (Poli-USP), Desenho (FAU-USP), Prensa e Prensinha (ECA-USP), entre outras iniciativas.

Sergio conta episódio vivido com Vlado quando, na clandestinidade, fora convidado, em 1973, a comparecer a um seminário da União Internacional dos Estudantes (UIE), na Argentina. “O PcdoB e a UNE foram convidados para assistir e participar do seminário, mas não foram convidados a representar os estudantes brasileiros pois [a UNE] não existia mais, tinha se tornado ilegal”, diz. “Havia o risco de sermos presos em Buenos Aires”.

Crédito:Divulgação
Sergio Gomes, diretor da Oboré, era amigo de Herzog

Com receio da prisão, pediu ajuda a Vlado. “Eu estou indo para Buenos Aires participar disso, então eu queria combinar com você o que poderia fazer de tal maneira que eu tivesse um álibi caso venha a ser preso”, conta. Vlado teve uma ideia: “vou redigir uma pauta como se você fosse à Argentina para fazer uma reportagem sobre o turismo de argentinos para o Brasil. Caso você seja preso e alguma coisa aconteça, você mostra essa pauta”, pensou. Vladimir Herzog morreria dois anos depois, em 25 de outubro de 1975.

O assassinato de Vlado – na época responsável pelo programa “Hora da Notícia” da TV Cultura – no DOI-CODI de São Paulo, foi o estopim para a sociedade se mobilizar contra o regime militar em busca da redemocratização do país, conquistada após o fim da ditadura em 1985. Sergio sente até hoje a importância do falecido amigo em sua própria vida. “Estou vivo hoje por causa da morte do Vlado”.