“Nosso diferencial é ser uma rádio com 700 repórteres”, diz diretora da Estadão ESPN

Guilherme Sardas | 30/03/2012 17:40
Crédito: Guilherme Sardas

Filomena Salemme


O desejo de ser uma das vozes a ecoar naquela espécie de “caixa mágica” – o rádio de casa – que tanto a fascinava na infância em Santo André foi determinante para a escolha profissional de Filomena Salemme.  O jornalismo surgia em sua vida não como um fim, mas um meio de viver sua verdadeira paixão. “Quando descobri que para trabalhar em rádio tinha que fazer jornalismo, escolhi o curso”, comenta.

Após 19 anos na rádio Eldorado, de São Paulo, onde começou como repórter e galgou o cargo de gerente de jornalismo, encarou o maior projeto de sua carreira em 2011. Ela foi responsável por capitanear, ao lado de Ricardo Gandour, diretor de conteúdo do Grupo Estado, a criação da mais recente rádio all news do FM, a Estadão ESPN, que completou seu primeiro de vida na última terça-feira (27/03).


Em entrevista exclusiva à IMPRENSA, a diretora de redação da rádio faz um balanço do ano de estreia, explica o que mudou no ofício do jornalista radiofônico de 20 anos para cá e confirma o interesse da rádio pelos direitos de transmissão da Copa de 2014 (da Globo) e das Olimpíadas de 2016 (da Record).


Também aproveita para afirmar a autonomia do ambiente que lhe acolhe há duas décadas. “Ficava ofendida quando me perguntavam quando eu iria trabalhar na TV, como se ir para a TV fosse ganhar uma promoção. Nunca pensei nisso. Trabalho em rádio porque escolhi trabalhar em rádio. Sou muito realizada no que faço”. Confira a entrevista na íntegra:


A emissora


IMPRENSA - De onde nasceu a necessidade de criar a Estadão ESPN e colocá-la na antiga frequência (92,9) da já tradicional Eldorado?

FILOMENA SALEMME - Há 20 anos, o AM era jornalismo e o FM era música. Em 1991, a CBN colocou jornalismo no FM e, em 2006, a Band News surgiu como mais uma oferta. Então, o Grupo Estado viu a necessidade de fazer um investimento e colocar essa rádio no FM. Hoje, o AM tem uma audiência mais voltada à dona-de-casa e ao público D e E, que não é o nosso perfil [A rádio também está no AM 700]. Por conta do DNA e do perfil do Grupo Estado, nosso público sempre foi o formador de opinião. Então, foi decidido colocar a rádio no FM.


O que motivou a escolha da ESPN para formar essa parceria?

Há três anos, a Eldorado tinha uma parceria com a ESPN para transmissão de futebol. O público de rádio exige futebol. Nós não tínhamos essa expertise, então fomos buscar um parceiro. Mas, escolhemos a ESPN também porque ela tem o mesmo perfil de público que a gente tem, A e B, e isso em rádio é muito importante. Você tem que saber com quem está falando.


Houve uma preocupação de trazer o público fiel da Eldorado para a Estadão ESPN?

Acho que não tem como controlar isso. Comunicamos muito bem para o ouvinte que a Eldorado não ia acabar, que ela mudaria para a 107.3. Fizemos campanhas em rádio e em TV para isso. Tínhamos alguns ouvintes que estavam habituados a ouvir o nosso jornal, então alguns ficaram na Estadão ESPN. Mas muitos migraram. A marca Eldorado ficou totalmente musical, inclusive tiramos o jornal pela manhã, porque muita gente reclamava. Então, foi muito bom para a rádio Eldorado também, porque agora é só música, ela seguiu o caminho dela.


Qual é o diferencial da Estadão ESPN para suas concorrentes all news no FM?

No mercado de rádio, tudo é commodity. Todas as rádios têm trânsito, previsão do tempo, porque a prioridade do rádio é prestar serviço. Uma rádio que não presta serviço não existe como rádio. Mas, um dos nossos diferenciais é pertencer ao Grupo Estado. É ter 700 jornalistas que as outras não têm. Só nós temos Lourival Sant’ Anna no meio de um tiroteio na Líbia entrando ao vivo. Na morte do Osama Bin Laden, a Adriana Carranca entrou ao vivo do Afeganistão. Nenhuma rádio tem isso. Se tem uma coletiva do ministro, muito antes da concorrência eu consigo botar ele ao vivo, porque a equipe do jornal já está sabendo e já tem os contatos. O [José Maria] Mairink vai para Roma, me liga, e fala “Olha, se precisar que eu entre ao vivo, é só ligar”. Então a rádio foi muito bem recebida pelo grupo. Outra coisa que está em nosso DNA é a questão sustentável, que é a Eco-rádio Estadão Espn, que é um projeto que permeia toda a programação. Todos os dias, quatro ou cinco vezes, eu tenho notícias sobre meio ambiente. Somos a única rádio que tem uma gerente ambiental.


Esporte


Garantir os direitos de transmissão de grandes eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas é prioridade da emissora?

Sim,é uma preocupação. Para a Copa do Mundo, estamos em negociação com a Globo, mas ninguém comprou ainda. Além disso, desde a Eldorado, tínhamos exclusividade da Champions League [liga dos campeões do futebol europeu]. Temos exclusividade em rádio do Super Bowl. Nunca uma rádio tinha transmitido e foi um sucesso. A primeira vez que se transmitiu basquete no rádio, a NBA, fomos nós também, no ano passado.


Segundo informações da rádio Jovem Pan, a Globo teria pedido 850 mil dólares para transmissão da Copa para cada rádio paulista, sendo que na última copa o valor teria girado em torno de 150 mil. Isso é fato?

É uma negociação que ainda não dá para abrir os números, porque a negociação está só começando. Cada rádio vai negociar com a Globo, não existe um  valor padrão, e há algumas rádios que se unem. Por isso, não dá para falar em valores.


Existe a percepção de uma pressão da Globo para ter exclusividade com a rádio Globo?

A gente não trabalha com a expectativa de não transmitir a Copa do Mundo. Na África do Sul, tínhamos 30 pessoas lá. Eu não penso na possibilidade de não ter.


A mídia rádio


O que mudou na última década no ofício de fazer rádio? O que é novo? O que é obsoleto?

O rádio faz 90 anos esse ano no Brasil e é um senhorzinho muito moderno. Ele foi se acoplando às novas mídias – como a Internet, o iPhone, o celular – além de estar no rádio do carro e no radinho de pilha. Além disso, o rádio tem uma linguagem muito mais informal, sem aquela impostação de voz. Nossos colunistas conversam ao vivo com o âncora, porque o ouvinte se sente inserido, muito mais do que em um boletim fechado. Por outro lado, não pode também cair no escracho, no popularesco, porque chamar Estadão não é fácil. Você derruba a credibilidade de anos de história em um minuto. Em termos de conteúdo, a gente não tem mais tempo para fazer reportagens longas, o máximo hoje são três minutos. A rádio Cultura, por exemplo, fazia reportagens de 10 minutos. Hoje, os ouvintes não têm tempo para isso, mas é uma meta investir mais em reportagens especiais, contar mais histórias.


Qual é o perfil de um bom repórter de rádio?

O repórter de rádio tem que ter uma coisa na cabeça: ele é o olho do ouvinte. Eu não gosto de matéria que eu chamo de declaratória. Você vai lá ouvir o prefeito, ele fala, você põe uma “cabecinha” e está pronto. Você tem que ir além, tem que descrever muito a cena. Uma das reportagens que eu ganhei prêmio foi sobre a fome, porque achei que a fome é uma coisa meio abstrata para o rádio. Uma imagem de uma panela vazia, às vezes, já dá conta de mostrar a fome. Mas como mostrar isso sem imagem pelo rádio? Aí existe um bom texto, uma boa sonora, e contar a história em detalhes. Se o ouvinte consegue imaginar a cena é porque você acertou.


A maioria das rádios que ocupam as primeiras colocações de audiência é de música. A Estadão aparece bem abaixo no ranking. É muito difícil ter audiência fazendo all news?

Acho que são públicos diferentes. O público que consome música é um público mais jovem. A partir de 25 anos, é outra coisa. Se você faz uma pesquisa, segmentando um público de 30 ou 35 anos, cenário já muda. A Tupi FM, por exemplo, que é a líder do ranking, tem um público D e E, que é um público maior. As jornalísticas trabalham com uma fatia menor, o A, B e a nova classe C, que tem demandado mais informação.


Como você enxerga o futuro do rádio?

Nos dias de hoje, ninguém mais fica sentado, olhando para o rádio, ouvindo rádio. Hoje, ninguém tem tempo de ficar parado, e o rádio se encaixa perfeitamente nisso. Ele vai estar em todos os lugares e em cada vez mais plataformas. A mudança pode vir de outras plataformas que surgirão,  e o rádio vai se acoplar a elas.