“A Band foi omissa", diz repórter demitido do "Brasil Urgente"

Luiz Gustavo Pacete | 19/03/2012 17:05
Wagner Império trabalhou na Band durante oito anos, dos quais, grande parte foi dedicada ao “Brasil Urgente”. Designado a apurar um caso de fraudes no  IPTU da prefeitura de Taboão da Serra, em março de 2011, o jornalista pagou caro pelo furo.
Após acompanhar o caso desde o início, Império deu em primeira mão a prisão dos envolvidos, mesmo não estando no lugar da prisão (Câmara Municipal de Taboão da Serra). Império recebeu uma ligação do delegado Raul Godoy Neto comunicando a prisão, enquanto fazia outra pauta. O jornalista narrou a prisão com base nas imagens captadas pelo helicóptero da emissora.  

wagner
Wagner Império
O jornalista só não imaginava que, algumas semanas depois, seu nome seria anexado ao inquérito do investigador chefe da Delegacia Seccional de Taboão da Serra, Ivan Jerônimo da Silva. Silva apontou o repórter como suspeito de repassar informações para os fraudadores. Nove meses depois, no início de março, o Ministério Público Federal arquivou o inquérito por falta de provas. 

Assim que soube da decisão, Império falou com IMPRENSA sobre o caso e sobre os prejuízos que sofreu por ter seu nome envolvido no caso, entre eles, a demissão da Band e a humilhação moral. O jornalista fala sobre a apuração, explica como foi demitido da emissora, comenta sobre sua relação com José Luiz Datena, critica as entidades de classe e avisa “a Band tem obrigação moral de me recontratar”.

Contatada, a Band afirmou que "na época em que o repórter foi dispensado, a emissora desconhecia o inquérito". O motivo de sua demissão, segundo a Band, foi uma reformulação interna. IMPRENSA também tentou contato com o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, Jose Augusto Camargo, entidade que foi citada por Império, mas não o localizou. 

IMPRENSA - Quais provas apresentaram contra você? 
Wagner Império - O que aconteceu foi que quando meu advogado conseguiu ter acesso ao inquérito viu que tinha no relatório do investigador uma foto minha do Twitter dizendo que eu era diretor de jornalismo da Nova Geração de Televisão, função que eu tinha desde 2006 junto com meu trabalho na Band. Emissora em que minha esposa também é apresentadora.

Por qual motivo sua esposa foi envolvida nessa história?
Naquele relatório o investigador dizia que “estranhamente minha esposa apresentou um vídeo da cidade de Taboão da Serra”. Um vídeo institucional para a Prefeitura de Taboão. 

Que vídeo era esse?
Era um vídeo institucional que eu também narrei, feito pela NGT. O secretário de educação de Taboão da Serra procurou minha esposa e pediu para apresentar o vídeo de graça. O interesse da emissora, ao fazer um vídeo de graça, era que a prefeitura anunciasse futuramente. Mas isso aconteceu em 2009. O investigador pegou esse material e colocou no inquérito como se fosse uma prova. Jornalista pode sim fazer o vídeo que quiser e para quem quiser e na hora que quiser. E se ele quiser cobrar ele cobra. Jornalista pode ter interesse político e comercial. 

O que fez assim que tomou conhecimento das acusações?
Depois que aconteceu tudo isso tratei de ir atrás para provar que eu não tinha nada a ver com isso. E a polícia, depois de nove meses de investigação, não encontrou nada. Ou seja, não existe uma escuta telefônica. Eu até queria que tivesse uma escuta para eles verem que eu não fiz nada. Eu perdi minha saúde. Minha família ficou abalada. Foi um período muito difícil pra mim. 

Quais seriam os interessados em prejudicá-lo?
A farsa tem dois caminhos. O primeiro foi que minha reportagem mexeu no bolso de muita gente. Muitos estavam levando dinheiro naquela história.  Eu tenho certeza que foi um pedido político para me difamar. O Ivan Jerônimo da Silva, investigador do caso, entrou para o PMDB como candidato esse ano. Em fevereiro, ele retirou a candidatura e em março cometeu suicídio. Fizeram uma farsa para dizer que eu estava repassando informação. 

Brasil Urgente
Brasil Urgente
Em algum momento a Band lhe ofereceu ajuda jurídica?
Eu pedi para a Band colocar o departamento jurídico à minha disposição, uma vez que eu estava representando a emissora na apuração, e isso me foi negado. Ela negou que seus advogados pudessem me ajudar. Viraram as costas para mim. 

O que alegaram?
Eles não alegaram nada, só disseram que infelizmente não daria para me atender. Eu perdi meu trabalho. Sou profissional de imprensa há 25 anos, estava há oito anos na Band, já trabalhei na Globo, Globo News, Record, SBT e diversas outras emissoras. 

A Band o demitiu por causa dessas acusações? O que te disseram?
Eu soube que a direção ou o apresentador do programa “Brasil Urgente” [Datena] soube que eu estava sendo investigado por causa de um escândalo relacionado a uma matéria que eu estava fazendo. Esse teria sido o motivo para ele [Datena] pedir minha demissão para a emissora. Eu saí de lá oficialmente em 30 de maio de 2011. Quando fui chamado na direção disseram que o Datena tinha pedido minha demissão. O diretor José Emilio Ambrósio até disse que gostaria muito de me colocar em outro telejornal, mas afirmou que não podia, pois sabia que o Datena não ia querer que eu ficasse na emissora.

Qual era sua relação com o Datena nessa época?
Era extremamente profissional [ênfase]. Nunca fomos amigos e nem frequentávamos a casa um do outro. Nunca fomos de jantar juntos, nada disso. O Datena sempre me respeitou muito como repórter e era recíproco. Essa era a relação.

O que você achou da atitude da emissora?
Fui vítima de censura. Tentaram me parar tirando o microfone da minha mão. O Estado jogou meu nome na lama sem ter o direito de fazer isso. O “achismo” de um investigador não quer dizer que ele pode abrir um inquérito contra uma pessoa.  O Estado não tem direito de jogar o nome de uma pessoa na lama e depois de um ano arquivar. Em nenhum momento me chamaram para ser interrogado. Do lado da Band, eu representava a emissora, ficava exposto. Nunca tive processos na minha carreira. Coloquei minha cara, minha reputação em nome de um veículo de comunicação e na hora de segurar a onda junto comigo me deixou sozinho. A Band foi omissa e tem obrigação moral de me recontratar. Eu vou esperar uma resposta da emissora e se isso não acontecer vou entrar na justiça contra ela.

Você pretende processar outras pessoas envolvidas?
Sim. Saíram várias notícias ao meu respeito, me acusando de estar envolvido e que a empresa que eu tenho era o local do crime. Todo esse pessoal vai ser processado. Vai ter que botar a mão no bolso para pagar advogado.  

O sindicato ou alguma entidade de classe te deu respaldo?
Isso é outra coisa muito grave. Quando envolveram meu nome passei toda a história para o Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo e outras entidades. Ninguém me ligou para dar qualquer tipo de apoio, nem jurídico e nem moral. Ninguém se interessou pelo meu caso. 

Com esse arquivamento você pretende voltar ao mercado?
Eu acho natural que outras portas, inclusive da própria Band, se abram porque reportagem policial é o que eu gosto de fazer e sei fazer bem. Talvez eu mude para economia ou cidades, mas se pintar polícia, eu vou. Mas o fato de eu estar sendo investigado estava me atrapalhando bastante. 

Tendo você como exemplo, quais os limites entre o jornalista e o poder?
Jornalista policial é uma área muito perigosa. Ao mesmo tempo você fica extremamente exposto para o poder público e para a criminalidade. É necessária uma apuração refinada, já que qualquer erro que você comenta, está envolvendo a vida de outra pessoa.  No meu caso, fui um bode expiatório.

Veja o vídeo com a entrevista de Wagner Império: